Grande parte da matéria-prima que as fábricas utilizam para a produção é proveniente do exterior, o que obriga as empresas a desenvolverem esforços “titânicos” para adquirir divisas. Apesar dos esforços que têm sido empreendidos pelo Governo angolano para a criação de um ambiente de negócio sólido, o certo é que muitos produtores nacionais encontram dificuldades. Em declarações ao JE, alguns empresários do sector da indústria transformadora assinalam os esforços, mas defendem acções conjugadas, com o objectivo de diminuir paulatinamente às importações. Por exemplo, o administrador das Grandes Moagens de Angola, César Rasgado, disse que o país consome 550 mil toneladas de farinha de trigo por ano. A empresa da qual faz parte produz 280 mil toneladas/ano, o que corresponde acima dos 50 por cento da demanda nacional. Com a expansão, no próximo ano, de mais uma linha de transformação em Luanda e criação de outra fábrica de um agente privado na província de Benguela, o país será auto-suficiente na produção de farinha de trigo. “Toda a produção futura a nível nacional será de acordo com os números consumidos internamente, sendo optimista poderemos ter excedente para exportar, o que poderá se traduzir numa fonte de rendimento para o país em termos de divisas”, precisou. Sobre as dificuldades que o mercado de farinha de trigo tem vindo a registar em algumas épocas do ano, provocando o aumento no produto final, César Rasgado sublinha que é uma “questão transversal”. “Produzimos a farinha de trigo, mas a matéria-prima, no caso o trigo é importado. Não há produção do trigo (grão) em Angola. As constantes desvalorizações da moeda nacional e o acesso às divisas dificultam a operacionalidade dos nossos serviços. Logo, o sector tem de ajustar o seu preço ao kwanza para depois ter a capacidade de atender às necessidades para importar a matéria-prima. Isto é uma questão transversal que tem de ser vista ao mais alto nível”, alertou. Quanto à facturação da empresa, o gestor disse que durante o exercício económico de 2018, a indústria atingiu acima dos 100 milhões de dólares. “Tivemos vários constrangimentos em atingirmos um resultado que poderíamos considerar positivo. Para este ano, não perspectivamos que seja melhor que o ano passado, já que os constrangimentos continuam, principalmente por causa da questão da desvalorização da moeda nacional”, sublinhou.

Indústria cimenteira
Por sua vez, a presidente do Conselho de Administração da Fábrica de Cimento do Kwanza Sul (FCKS), Emanuela Vieira Lopes, a unidade industrial, apesar de estar a produzir cimento na ordem dos 30 por cento, ainda assim tem na venda do clínquer o seu principal suporte.
Com uma produção anual de 1.300 toneladas de clínquer, a fábrica fornece o produto para as cimenteiras da região Sul, com realce para a Sécil (Companhia de Cimento do Lobito) e a Cimenfort, ambas localizadas em Benguela.
“O mercado está arrefecido, mas acredito que brevemente a situação vai melhorar, já que com as obras previstas no Programa Integrado de Intervenção Municipal (PIIM) vai aumentar a procura e por sua vez aumentar a nossa capacidade de produção que na área do cimento é de 1.400 toneladas por ano”, augurou, numa altura em que a capacidade nacional de produção de cimento é de 8 milhões de toneladas por ano, estando actualmente situada nos dois milhões.
Quanto ao clínquer, a gestora disse que o Governo não tem que se preocupar em arranjar divisas para a importação, já que a produção nacional responde às necessidades do mercado.
A falta de energia eléctrica da rede pública tem dificultado os trabalhos da FCKS, que consome 41 Megawatts tudo na base do óleo HFO.
“O transporte do HFO por camiões é muito caríssimo. O facto de não termos ligação à rede de electricidade fica muito difícil para uma fábrica desta dimensão, que é um projecto estruturante, com uma unidade para a produção de clínquer, cimento, sacos e tem a zona mineira”, disse.

Persistência e argúcia
Já o presidente da Associação Industrial de Angola (AIA), Jósé Severino, a realização da Expo-indústria representa um sinal de resiliência perante a crise.
“A realização deste evento representa o espírito de contrariar os vários constrangimentos. Fala-se muito em divisas, do Imposto Especial do Consumo, do IVA, então temos que encorajar toda a classe empresarial que estão aqui e algumas que vieram de fora para dar um sentido de coesão nacional”, disse.
O empresário entende que os desafios são grandes, mas os investidores precisam de ter capacidade de persistência e argúcia para com o Governo se “encontrar as melhores soluções”.
“A AIA é o maior parceiro social do Governo, temos esta obrigação e são feitas várias propostas para se encontrar saídas da crise”, revelou.