São decorridas quatro décadas desde que Angola alcançou a sua soberania no contexto das Nações. Não foi fácil o percurso.

Vários foram os percalços e contrariedades de avanço e recuo que só realçam e testificam a heroicidade de um povo ciente do que pretende. Alcançada a independência política, como programa mínimo da luta, os trilhos apontam para a criação das condições de sustentabilidade económica.

O sector bancário tem um papel determinante na criação das condições financeiras para alavancar o processo de desenvolvimento e, em Angola, este sector tem desempenhado o seu papel na proporção de cada etapa do percurso económico do país. Importa, assim, destacar as principais etapas deste percurso, fazendo recurso a um breve enquadramento cronológico.

Angola, logo após a independência, optou por vontade própria por um modelo de desenvolvimento de economia planificada centralmente, antecâmara de edificação de uma economia socialista, com o Estado a desempenhar o papel central e de intervenção directa na economia. De acordo com este modelo, as actividades bancária e seguradora são monopólios do Estado e foi assim que por confisco das instituições financeiras que operavam em Angola nas vésperas da Independência Nacional, surgiram em Novembro de 1976 as primeiras instituições bancárias genuinamente angolanas nomeadamente, o Banco Nacional de Angola e o Banco Popular de Angola (actual Banco de Poupança e Crédito), e em 1978 a Empresa Nacional de Seguros e Resseguros de Angola (ENSA).

Em 1987 com a adopção do Programa de Saneamento Económico e Financeiro (SEF) teve início, embora de forma tímida, o processo de transição de uma economia planificada centralmente para uma economia regida pelas regras do mercado, pois o que caracteriza aquele tipo de modelo económico é a ausência dos mecanismos de mercado na regulação económica. A transição de “jure” para a economia de mercado veio a acontecer em 1991 guindada com a instauração no plano político do sistema de multipartidarismo.

Fechou-se assim o primeiro ciclo económico e político do país (1975-1991), cujo propósito era a construção de um país assente nos pilares do socialismo científico de inspiração marxista-leninista. Por seu lado, os sectores bancário e segurador abriram-se à iniciativa privada, deixando de ser actividade exclusiva do Estado.

A abertura da actividade bancária ao mercado, pese embora, as turbulências vivenciadas, muito em função do cenário político e militar que se instalou no país por duas décadas, colocou ao sector bancário novos desafios por inerência da própria dinâmica e as tendências de desenvolvimento do sector em outras latitudes, tais como a inovação, concorrência, desintermediação, liberalização, internacionalização, globalização e a alteração do comportamento dos clientes, cada vez mais informados e exigentes.

Alcançada a paz definitiva em 2002, o país reencontrou-se e lançou mão ao desenvolvimento, com destaque para o sector bancário com um crescimento acelerado tendo na última década o número de bancos passado de 12, em 2005, para 25, em 2015, e o número de balcões saltou de 230 para 1.600 em igual período. O número de colaboradores passou de 4.300 para 19 mil empregados bancários entre 2005 e 2015. Em termos de canais de distribuição dos produtos e serviços bancários, a estrutura bancária modernizou-se e estende-se em todas as dimensões tipificadas nestes segmentos, sendo realidade actual em  Angola a ramificação destes canais em tradicionais agências bancárias, rede de caixas automáticos (CA) e de terminais de pagamento automáticos (TPA), serviços de internet banking, mobile banking e homebanking, infra-estruturas universais de apoio aos clientes para a satisfação das suas necessidades financeiras.

Atendendo que a actividade bancária tem como matéria-prima a moeda, a estabilidade desta condiciona em maior ou menor grau a penetração do sistema bancário na intermediação financeira. Em termos de estabilização macroeconómica, são assinaláveis os feitos de controlo da inflação que de forma sustentável começou a ser estabilizada a partir de 2005, com índices de inflação tendencialmente decrescentes, apenas episodicamente interrompido entre 2008 e 2010, devido ao espectro da crise financeira que teve início nos EUA, mas que rapidamente se tornou numa crise financeira e económica global, cujos efeitos ainda se fazem sentir na economia internacional.

Assinala-se que desde 2012 a taxa de inflação se tem situado ao nível de um dígito, com o nível mais baixo alcançado em 2014, em que o ano fechou com uma taxa de inflação anual acumulada de 7,05 por cento.Todavia, as perspectivas para 2015 e 2016 vão em contraciclo da tendência de queda inercial da taxa de inflação.

Este cenário de relativo controlo da inflação começou a ser abalado em meados de 2014, com o ressurgimento do espectro da crise financeira internacional, que mais uma vez derrubou o preço do barril de petróleo no mercado internacional, e por efeito de arrastamento a economia angolana entrou em sérias dificuldades.

O preço do barril de petróleo seguiu ladeira abaixo no decurso do ano de 2014, tendo acumulado perdas de 60 por cento desde o pico de Junho de 2014, quando era negociado a 114,92 dólares norte-americanos. Trata-se do pior tombo de preços desde 2008, quando os preços do petróleo perderam mais da metade do seu valor em plena crise financeira internacional.

As principais razões pela queda dos preços são o aumento da produção, em especial nas áreas de xisto dos EUA, e uma demanda menor que a esperada na Europa e na Ásia. Em Novembro de 2014, essa queda se acentuou diante do excesso de oferta e da recusa dos países da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) em reduzir seu tecto de produção, independentemente do preço no mercado internacional.

Feita esta breve incursão, que julgamos sempre necessária, no que foi o percurso económico e bancário nos 40 anos de Angola Independente, importa posicionar o sector bancário no contexto macroeconómico ainda fortemente vulnerável aos choques externos, e as perspectivas para a viabilização do processo de financiamento ao desenvolvimento económico e social.

Uma radiografia ao sector bancário concluímos que temos um sector que permanece altamente atractivo, apesar da tendência decrescente da rentabilidade aliada a um forte contexto concorrencial e de crescimento. Verifica-se um crescimento em dimensão dos bancos, mas o estreitamento das margens de intermediação e a imperatividade dos bancos parquearem nos balanços perdas por imparidades de crédito têm conduzido a uma redução da rentabilidade. Todavia, o potencial de crescimento é forte se tomamos em consideração o rácio de transformação dos depósitos (abaixo dos 70 por cento) e a taxa de bancarização da população (cerca de 30 por cento).

Recorde-se que a estrutura do sistema financeiro angolano, assente na Lei n.º 12/2015 de 17 de Junho, Lei de Bases das Instituições Financeiras, tem a sua configuração nos pilares do mercado monetário, segurador e de capitais, sendo este último determinante para alavancar recursos de médio e longo prazo, essenciais para relançar o desenvolvimento sustentável do país.

Em face a estes postulados, não restam dúvidas que são enormes os desafios ao sector financeiro, em particular ao sector financeiro bancário, devido a particularidade de intermediar os fluxos financeiros gerados na economia real, mas em perspectiva dinâmica destacam-se três elementos, só para citar estes, que devem orientar os desafios estratégicos tendentes a minimizar os factores conjunturais evidenciados na radiografia ao sector, nomeadamente, reforçar o relacionamento pessoal, especializar a segmentação e tornar robusta a proposta de valor.
Reforçar o relacionamento pessoal é importante e estratégico, dado que o negócio bancário é um negócio de confiança, sobretudo de confiança em pessoas. Os gestores de contas devem transformar-se em gestores de relações, actuando por antecipação nos factos supervenientes destas relações. Os clientes devem constituir o foco da actividade bancária, que pela elevação da sua consciencialização sobre a essência desta actividade, se possa minimizar as situações de incumprimento das obrigações, principalmente as emergentes das operações de crédito, que constitui o maior recinto de perdas dos bancos pela constituição de provisões, e consequentemente de redução da capacidade de concessão de novos financiamentos.

A especialização da segmentação parte da abordagem diferenciada para cada segmento do negócio bancário, e que seja focado e valorizado pelo cliente, com aposta em produtos e serviços especializados e inovadores, cujo resultado em agregação seja sempre superior à soma das partes. Tornar a cadeia de valor mais distintiva e centrada no cliente por efeito da vinculação em estilo cross-selling induz ao robustecimento da proposta de criação de valor e de reforço da força de vendas.

Finalmente, porque nenhuma economia cresce sem financiamento, por um lado, e por outro, em contraparte, é da economia que fluem os recursos de engrenagem da actividade bancária, fica o repto da necessária complementariedade na transformação de recursos improdutivos (poupança) em recursos produtivos (investimento), para a recomposição dos pilares de sustentação do processo de crescimento e desenvolvimento económico.