O Presidente eleito da República de Angola, João Gonçalves Lourenço, de acordo com os resultados eleitorais provisórios divulgados pela Comissão Nacional Eleitoral, revelou, recentemente, que vai trabalhar para fazer reformas no país e que vai estudar a privatização de empresas públicas que “estão a custar muito dinheiro aos cofres do Estado”.
João Lourenço, em entrevista à agência espanhola Efe, foi questionado se seria o Mikhail Gorbachev angolano, mas evitou comparações com o pai da perestroika soviética. “Reformador? Vamos trabalhar para isso, mas claro, Gorbachev não, Deng Xiaoping sim”.
O presidente eleito de Angola comparou-se assim ao líder chinês Deng Xiaoping, que governou o país entre 1978 e 1992, e ficou conhecido como o criador do chamado socialismo de mercado.
O sucessor de José Eduardo dos Santos afirmou à Efe que assume o desafio de ser Presidente angolano “com muita confiança, apesar das dificuldades, traçando como objectivo o “desenvolvimento económico e social”.
“Vamos trabalhar para criar bom ambiente de negócios e vamos modificar a nossa política de vistos porque até agora foi um impedimento” adiantou João Lourenço, deixando no ar um convite a investidores estrangeiros para que apostem em Angola.
Questionado se a Espanha teria oportunidades para investir em Angola e, inclusive, comprar alguma participação em empresas privatizadas, João Lourenço esclaraceu que “os investidores espanhóis estão convidados a investir nesses sectores e em outros, na indústria, nas pescas, no turismo, e até na defesa. Neste sentido, já foram feitos contactos. Os espanhóis deverão estudá-los para verem em que sectores estão interessados”.
Para João Lourenço, que poderá tomar posse como Presidente de Angola a 8 de Setembro, as duas vias para melhorar o país serão a diversificação económica e as privatizações.
“O nosso país, Angola, pode sobreviver, tem recursos além de petróleo”, afirmou. Para João Lourenço há quatro sectores onde o investimento é prioritário, a agro-indústria, a fileira mineral, a pesca e o turismo.
Sobre as empresas a privatizar, João Lourenço não avançou dados, dizendo que caberá ao novo Governo tomar as decisões. “Vamos estudar a privatização daquelas empresas estatais que são pesos mortos para o país, que não são rentáveis e estudar a custar muito
dinheiro aos cofres do Estado”.
João Lourenço promete ainda combater a corrupção. “Estamos conscientes que existe. No MPLA reconhecemos, sabemos que é dos maiores males que sofre a nossa sociedade. O que procuramos, sabemos que vai ser difícil, é chegar a níveis não vamos dizer aceitáveis, mas que existem em termos internacionais. E estamos decididos a lutar essa batalha”, afirmou.
Entretanto, enquanto José Eduardo dos Santos teve como missão pacificar e reconstruir um país destruído pela guerra civil entre MPLA e UNITA, João Lourenço assume que o seu principal trabalho será “consolidar a economia de mercado”.
“O passo do marxismo-leninismo em direcção a uma democracia multipartidária ou economia de mercado começou em 1991”, afirmou o futuro Presidente de Angola, acrescentando que esse é “um processo que não acontece da noite para o dia. Vamos consolidá-lo e respeitar as bases da economia de mercado”.
Segundo os dados provisórios da Comissão Nacional Eleitoral, o Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA) obteve, nas eleições de 23 de Agosto, 61 por cento dos votos, circunstância que lhe permite nomear o cabeça-de-lista do partido, João Lourenço, como Presidente da República.

Perfil do Presidente eleito

Nascido em 1954 no Lobito, João Lourenço estudou no Instituto Industrial de Luanda e, mais tarde, na União Soviética.
Atendendo ao que é conhecido da personalidade de João Lourenço, espera-se uma forma de governação distinta do ministro da Defesa Nacional, membro do MPLA desde 1974. Uma ideia do que se pode esperar do futuro Presidente pode extrair-se da entrevista que deu a 23 de Maio ao The Washington Post, quando esteve na capital dos EUA para encontros no Pentágono. “Faremos todos os esforços para termos uma administração transparente. Vamos combater a corrupção e queremos que os investidores privados sejam no futuro a base da nossa economia”, disse.
Tais ideiais repetiu em conferência de imprensa na véspera das eleições, quando disse querer ficar na história como “o homem do milagre económico”.
O perfil que João Lourenço tem na página do Ministério da Defesa, escrito na primeira pessoa, além de uma homenagem aos pais, revela uma pessoa discreta, comedida, fluente em russo e espanhol, desportista - cita o futebol, o karaté e a equitação - com diferentes interesses intelectuais: o xadrez e a literatura. Filho único, nasceu a 5 de Março de 1954 no Lobito; estudou no Instituto Industrial de Luanda e, mais tarde, na ex-União Soviética, onde obteve formação militar e fez um mestrado em História.
Foi secretário do MPLA em várias províncias e secretário-geral do partido, exerceu diferentes cargos nacionais no partido e nas forças armadas, deputado, presidente da bancada parlamentar e vice-presidente da Assembleia Nacional, antes de ser nomeado ministro em 2014. É general de três estrelas na reserva, como se lê no perfil oficial. Um texto em que lembra ter participado “nas operações militares no centro do país, Cuanza Sul, Huambo e Bié com posto de comando no Huambo”. João Lourenço é casado e pai de seis filhos.