O MPLA pediu e o povo anuiu, o povo acreditou no melhor programa em disputa porque lá estavam os eixos correctos, as políticas acertadas, os objectivos e metas mais apropriadas. O povo acreditou no programa e votou naquele que lhe pareceu mais fiel ao compromisso de crescimento económico e melhoria das condições de vida.
Claramente o MPLA deve perceber que nos três últimos pleitos eleitorais perdeu 30 por cento do seu eleitorado, o que é preocupante, pois a este ritmo em 2027 poderá ter apenas maioria simples e ter de governar com ajuda de outras forças políticas.
É inevitável uma intenção de alteração radical no paradigma de governação, que até já vem plasmada no programa, pois corrigir o que está mal e melhorar o que foi bem feito parece ser muito orientador da nova tendência de governação que se pretende, pois o partido vencedor deve entender que a margem de erro desapareceu é o mesmo que dizer que o MPLA está condenado a não falhar novamente.
Pensamos que essencialmente corrigir o que está mal é melhorar o canal de distribuição dos recursos, para que se conceda as mesmas oportunidades às empresas e pessoas sem distinção, no acesso aos financiamentos e apoios estatais para implementação dos negócios privados.
Por outro lado, deslocar a esfera de influência da classe governante sobre as decisões mais críticas da economia, que muitas vezes têm-nas tomado em função de agendas pessoas em detrimento do bem comum, daí que é necessário que o servidor público seja um servidor e nunca um servido do que é público.
O que dissemos acima é alcançável se o MPLA levar avante o combate à corrupção, ao tráfico de influências, ao nepotismo e compadrio, tal como prometido em campanha eleitoral, pois apenas desta forma os escassos recursos deverão seguir para os melhores projectos (aqueles que criem mais empregos e melhor rentabilizem o capital investido).
Primeira tarefa é recolocar a economia na rota do crescimento, mas o que se pretende é um crescimento sustentável não apenas substancial como o que temos tido. Hoje o nosso crescimento é sustentado pela venda de comodities, serviços e intermediação directa de produtos produzidos no exterior.
O crescimento sustentável que se pretende é conseguido com investimentos privados no sector primário da economia para garantir o início da cadeia produtiva e a auto-suficiência alimentar, que virá acompanhada pela criação de empregos e aumento das oportunidades de negócio no campo dos minerais não fósseis.
O crescimento sustentável deverá ser induzido pelo apoio do Estado ao sector secundário da economia para se transformar o que se extraiu, pois é exactamente aqui que se criam os 500 mil novos empregos prometidos e adiciona-se valor ao que foi extraído da terra.
A indústria petroquímica e a produção de bens industrializados (roupas, maquinaria, electrónica, automóveis, equipamentos de construção civil e outros) deverão ser a prioridade, sendo também o mais “priorizável” na alocação de divisas no presente contexto de escassez.
É assim que se acaba a dependência do petróleo e se acumula divisas, pela redução drástica das importações e aumento/diversificação das exportações, passando o combate à inflação e defesa do kwanza a ser feito por duas formas: pela existência de produção nacional e pelo fortalecimento das Reservas Internacionais Líquidas (RIL).
Para dar estes passos, ainda que o sector privado tenha os melhores projectos, o Governo do MPLA terá de melhorar o que está a fazer bem, que é manter a aposta inequívoca nos investimentos públicos em infra-estruturas, além de melhorar muito significativamente a qualidade da despesa pública e acautelar a trajectória do endividamento público.
É unânime que a forma de financiar a despesa pública não deverá depender do sector petrolífero, pois a experiência empírica o comprova, a boa despesa deve ser financiada pela receita sustentável que é a receita proveniente da arrecadação fiscal da produção do sector primário e secundário da economia.
O petróleo deve continuar a ser importante, mas não poderá ser o “mais que tudo”. Deverá ser o colaretal para o endividamento e ainda o aportador de divisas para financiar o estágio inicial dos investimentos no sector primário e secundário da economia, o que estamos a querer dizer é que o MPLA e João Lourenço terão de curar Angola da doença holandesa.
A única forma de curar a economia desta doença é reduzir a importância do petróleo no PIB e na arrecadação fiscal e isto só é possível pela diversificação da economia e tal facto induzirá a mais e melhor criação de empregos, auto-suficiência alimentar e de produtos industrializados e consequentemente o crescimento da entrada líquida de divisas (redução das importações e crescimento das exportações).
A própria visão de que o melhoria das condições de vida do angolano deverá advir da maior dignidade do seu salário deverá se sobrepor à ideia da extensão dos apoios sociais, porque os salários devem comprar mais e melhores produtos e serviços para dar mais poder de escolha ao trabalhador. Aqui, o MPLA tem que trabalhar para proporcionar estas escolhas.
O MPLA deverá fazer a sua parte, melhorar o saneamento básico, aumentar a profilaxia para manter os hospitais e as morgues vazias, além de terá de investir mais e melhor na educação e investigação científica para que se valorize o capital humano nacional (empregando-o) deixando-se assim de importar consultores.
O MPLA terá de urbanizar, asfaltar, electrificar e ligar o país todo para que os investimentos tenham o mesmo custo em Luanda e no Cunene e assim o investidor estrangeiro se sinta cômodo em entrar para Angola profunda e criar empregos para os nossos concidadãos.
Por fim, mas não menos importante, acreditamos que todos angolanos, até os vencidos destas eleições, devem ajudar o MPLA a não falhar e exigir do seu Governo o cumprimento do prometido, por outro lado o povo deverá dar o seu melhor e fazer a sua parte, pois já se sabe que qualquer partido que for Governo, sozinho, sem a ajuda do povo, jamais logrará.