Relatório divulgado pela consultora internacional KPMG em Portugal revela que o principal desafio do sector financeiro nacional passa pela restão do risco

A consultora internacional KPMG revela, num relatório divulgado nos últimos dias em Portugal, que a pequena dimensão do mercado bancário de Angola deverá levar a movimentos de fusões e aquisições entre os 20 bancos comerciais que actuam no país.

“Antecipamos que pela dimensão do mercado angolano não se justifica a quantidade de bancos que actualmente operam. É natural que haja, a par do crescimento orgânico, crescimento inorgânico (por aquisições) a curto e médio prazo”, disse Vítor Ribeirinho, sócio da KPMG Portugal.

O responsável precisou que, actualmente, dado o baixo índice de bancarização do país, ainda há espaço para que os bancos cresçam pela via orgânica, ou seja, pelo crescimento do número de agências e de activos, mas que, dentro de três a cinco anos, se deverá assistir ao início do movimento de consolidação no sector.

Vítor Ribeirinho acredita que os bancos angolanos dominados por grupos portugueses deverão ficar à margem deste movimento. “As operações dos bancos portugueses estão focalizadas na bancarização. Primeiro, fizeram uma abertura massiva de sucursais em Luanda, agora estão a expandir a rede para as restantes províncias. A consolidação vai passar por pequenos nichos e pequenas instituições”, antevê o responsável pela área de auditoria da KPMG, na apresentação do estudo “Análise ao sector bancário angolano”.

Posições dos bancos

Segundo o estudo, o Banco Espírito Santo Angola (BESA) ultrapassou, em 2009, o Banco de Fomento de Angola (BFA), controlado pelo BPI, no ranking dos bancos angolanos com maior volume de activos. Na tabela dos cinco maiores bancos que actuam no mercado angolano, elaborada pela consultora, a primeira posição continua a pertencer ao Banco Africano de Investimentos (BAI), com activos totais no valor de 739 mil milhões de kwanzas (cerca de sete mil 390 milhões de dólares, ao câmbio de USD = AKZ 100).

A seguir está o BESA, que saltou do terceiro para o segundo lugar do ranking, com activos totais na ordem dos 580 mil milhões de kwanzas, trocando de posição com o BFA que se posiciona no terceiro lugar, com activos totais próximos de 530 mil milhões de kwanzas.

Desafio das instituições

Apostar no crescimento orgânico, melhorar a gestão do risco e desenvolver sistemas que garantam o cumprimento das boas regras deverão ser as grandes prioridades das instituições financeiras angolanas nos próximos anos, diz ainda a consultora KPMG no seu estudo de mercado.

O documento foi apresentado por Vítor Ribeirinho, sócio da consultora que responde pelo pelouro da auditoria e admitiu poder vir a assistir-se a um movimento de consolidação financeiro em Angola, envolvendo, numa primeira fase, bancos de menor dimensão. A fonte lembrou que este ano não se registaram operações dessa natureza, razão pela qual o processo não será imediato. “Aumentar a rede comercial, aumentar o quadro de trabalhadores e a quota de mercado deverá ser o caminho dos bancos angolanos nesta fase”, prognosticou Ribeirinho.

Já para Pedro Subtil, sócio da KPMG responsável pela área financeira, muito embora os bancos angolanos tenham adoptado estratégias de crescimento orgânico, é previsível que possam adoptar em breve estratégias de “crescimento inorgânico”, pois a dimensão do mercado africano não justifica que ali operem mais de 20 instituições, numa altura em que as primeiras cinco controlam mais de metade do mercado.

Tudo indica, segundo Subtil, que os bancos angolanos de capitais portugueses (BFA, BESA, Banco Caixa, Millennium, Finibanco/MG) se mantenham à margem da consolidação, dado que estão focados em estender a todo o país a sua actividade, pois apenas 11 por cento da população tem conta bancária.

Lucros dos bancos

De acordo com a análise realizada pela KPMG ao mercado bancário angolano, em 2009, os lucros dispararam 64 por cento, o crédito 59, os depósitos 64 e os activos 30. Já o número médio de colaboradores do sector aumentou no mesmo ano nove por cento, valor que a KPMG diz que terá tendência para continuar a crescer de modo a sustentar a bancarização do país.

No final de 2009, havia 20 bancos a operar em Angola, sendo que os primeiros cinco, entre os quais o Banco Espírito Santo Angola e o Banco de Fomento, controlado pelo português BPI, controlavam mais de 50 por cento dos depósitos do sistema. Nesse exercício, o activo médio do sistema cresceu 30 por cento, tendo sido abertas 100 novas agências. Ainda assim, a KPMG acredita que o sector financeiro angolano continua a ter “potencial”, já que o nível de bancarização é de apenas 11 por cento da população total.

De acordo com os números divulgados, referentes a 2009, só o BESA e o BFA somam cerca de 1,1 bilião dos 3,25 biliões de kwanzas que constituem o total de activos do mercado. Deste montante, 37 por cento é crédito sobre outras instituições de crédito, 24 de obrigações e outros títulos, 19 de empréstimos e 15 de disponibilidades (incluindo depósitos.

Nos resultados dos primeiros nove meses do ano, Angola teve um peso de 34 por cento nos lucros totais dos bancos portugueses com maior exposição a este mercado: BCP, BES e BPI. As operações angolanas destas instituições são há muito uma preciosa ajuda para o bolo final de lucros, compensando muitas vezes uma pior performance no mercado português. A tendência é para que, à semelhança de outras economias emergentes, o sejam cada vez mais, dadas as negativas perspectivas de evolução da economia portuguesa.

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