Costuma se dizer que depois da tempestade vem a bonança. Este é de resto o sentimento que se vive actualmente no seio dos operadores económicos, sobretudo, quando avaliam os efe+itos da crise financeira internacional à economia angolana, particularmente no sistema financeiro.

A banca, principal instrumento deste sistema, no caso angolano, não esteve imune dos efeitos desta que em determinados círculos económicos adoptou-se chamar de “tsunami financeiro”, em função da sua magnitude e alcance, e que abalou todas as estruturas e políticas económicas a nível mundial.

Por não existirem economias isoladas, numa esfera planetária cada vez mais globalizada, a economia angolana viveu e atravessou dificuldades advindas deste fenómeno internacional. Momento este que exigiu das autoridades a redefinição de estratégias, com as quais visavam a reorientação das metas e o endurecimento de certas medidas, anteriormente pouco observadas.

Este ambiente marcou o ano da banca angolana em 2009 e abriu novas perspectivas para o de 2010, considerado por muitos como sendo o ano da retoma do crescimento económico mundial e da afirmação das instituições financeiras. Angola não foge a regra e neste ano os operadores do sistema bancário sabem dos desafios que deverão enfrentar para garantir a solidez do sistema financeiro e prosseguirem com as metas de financiamento à economia, massificação dos canais de pagamentos, aumento dos níveis de bancarização, assim como a contínua expansão da rede de balcões.

Eficácia nas politicas

De acordo com o director do Instituto de Formação Bancária de Angola (IFBA), Cândido Augusto Vaz, foi graças aos esforços do Governo, através do Banco Central em coordenação com as instituições financeiras, enquanto operadores do mercado, que traçaram-se políticas cuja eficácia permitiu amparar os efeitos da crise mundial na economia nacional.

O gestor disse ainda que, actualmente, a banca angolana respira saúde e que o mais difícil já passou. “Agora só temos de continuar com os esforços de garantir a oferta de um serviço de qualidade aos clientes”, acrescenta.

O mesmo não deixou de apontar aquilo que considera serem os principais desafios da actividade bancária neste ano. Cita, entre as prioridades, a formação e desenvolvimento do trabalhador bancário como um mecanismo de potencialização das capacidades dos bancos, defendendo, contudo, a conjugação do binómio objectivos-resultados, sob pena de as politicas traçadas ficarem em letra morta.

Outra premissa que aponta é o contínuo aperfeiçoamento das políticas de supervisão do risco e consequente conformação do exercício bancário com as regras de Basileia, o que, no seu entender, vai relançar e tornar muito mais atractiva a actuação dos operadores bancários na praça financeira nacional.

Novos operadores

Actualmente, a banca angolana detém uma quota de mercado considerável. Os operadores que, de 19 em 2008 passaram para 22 em 2009, demonstram o potencial de mercado existente no país.

O gestor é de opinião que neste momento o mercado possui capacidades para absorver mais operadores. Este facto, aliás, conforma com a perspectiva de entrada no mercado, ainda no primeiro semestre deste ano, do Standard Bank.

“O mercado tem capacidade para absorver mais. Agora, será a qualidade e inovação dos serviços disponíveis que vão determinar o posicionamento destas instituições”, afirma.

No que diz respeito a entrada no mercado bancário angolano do Standard Bank, o maior banco africano da actualidade, conforme ranking publicado pela revista inglesa “The Bank”, o director do IFBA é de opinião que o mercado aguarda pela efectivação dos serviços deste banco, para depois avaliar se este traz algo de novo ao mercado ou será apenas mais um operador do sistema.

Reconhece que a diversificação dos produtos bancários já é uma realidade, pois assiste-se a entrada de cada vez mais bancos de investimentos. Contudo, advoga que deverá ser a atractividade, crescimento e capacidade de consumo do próprio mercado a determinar, ou ao menos influenciar, o surgimento de mais bancos voltados especificamente ao investimento no país.

BDA

Na sua opinião, 2010 traz ainda o desafio de expansão e fomento da actividade de financiamento ao empresariado nacional, conforme se propõe o Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA), no seu objecto social.

Este desafio, de acordo com Cândido Vaz, vai permitir o aumento da produção nacional, pois conforme o plano executivo do Governo Angolano, a prioridade será o relançamento da agricultura e da indústria nacional.

Aumentar a bancarização

Não menos importante, conforme defende Cândido Vaz, será a continuidade dos esforços de bancarização da população, cujo nível actual é ainda baixo, uma vez considerada a margem de crescimento da economia.

Esta medida deverá associar-se ao incremento de politicas que consigam convencer os operadores económicos público e privados no sentido de bancarizarem as suas operações financeiras bem como os salários em contra de outrem.

Ainda assim, ele considera de positivo o quadro actual, visto que muitas empresas já efectuam suas operações financeiras por via dos bancos comerciais.

“Hoje, já são em números consideráveis, as empresas que bancarizaram as suas operações. Resta aos bancos a criação de políticas de captação de clientes e recurso financeiros”, disse.

Micro Crédito

Fomentar a actividade de micro-crédito é outro dos desafios que a banca tem de encarar.

Cândido Vaz advoga que instituições como o BAI - Micro Finanças (nova designação do Novo Banco), o Banco Sol, o BCI, o BPC e o Kixi-crédito especializadas na actividade do micro – crédito devem continuar a expandir os seus serviços a nível do país, a fim de garantirem o acesso da população a este instrumento financeiro.

“O micro-crédito ajuda a tirar famílias que vivem abaixo da linha de pobreza, introduzindo-as no ciclo produtivo, o que vem contribuir para a criação de riqueza”, afirma.

Números do IFBA satisfazem administração

O Instituto de Formação Bancária de Angola (IFBA) ministrou durante o ano de 2009 cursos de especialização e profissionalização em serviços bancários a cerca de 4800 candidatos, entre funcionários bancários e público interessado.

Repartido em três áreas de formação, nomeadamente, formação de base com 3.693 candidatos, dos quais 25% são funcionários e 75% aspirantes à banca; formação intermédia com 364 candidatos, sendo que 65% são bancários e 35% aspirantes. Quanto a formação para quadros superior, a instituição começou com um programa de readaptação curricular que introduz, deste modo, o nível de licenciatura e mestrado.

Outra vertente que tem crescido no IFBA, de acordo com o seu director, é o fomento do Ensino à Distância (ED), que tem permitido o aumento do nível de profissionalização dos agentes bancários nas distintas províncias do país, sem que para o efeito se recorra fisicamente à Luanda. Nesta categoria, 463 formandos frequentaram o curso geral bancário e 290 o curso técnico.

O director do IFBA, Cândido Vaz, disse que o instituto vai continuar a servir de parceiro estratégico na expansão e melhoria dos serviços da banca em Angola.