Cerca de 326 milhões de pessoas na África sub-sahariana, representando 80 por cento da população do continente, não têm acesso a serviços bancários, sendo que, no nosso país, nove em cada 10 angolanos não possuem contas bancárias, o que, por si só, indicia o fraco conhecimento que as populações têm sobre uma matéria de importância capital.

Por outro lado, existem em todo o mundo cerca de 2,5 biliões de pessoas, a partir dos 18 anos, que não têm acesso a serviços bancários, representando cerca de 53 por cento do total de habitantes do globo terrestre. Todos esses seres humanos possuem um grau de escolaridade muito baixo, o que tem dificultado o crescimento e o desenvolvimento económico dos seus países, em função dos seus níveis de rendimento bastante reduzidos.

Estes dados foram apresentados no decurso do workshop sobre “Educação financeira”, organizado na quinta-feira última, em Luanda, pelo Banco Nacional de Angola (BNA) e seus parceiros, com o objectivo de educar a população rural e periurbana em matéria do sistema financeiro no país de modo a promover a sua inclusão social.

Abraão Gourgel, o governador do BNA, que procedeu à abertura do certame, disse que quanto maior for o nível de conhecimento da população sobre os diversos fenómenos que ocorrem na área financeira, maior será o seu entendimento e também o esforço da banca para promover o acesso a determinados serviços, como o crédito e o investimento financeiro, factores fundamentais para o crescimento e o desenvolvimento económico de um país.

“Para o país, as estimativas apontam que nove em cada 10 angolanos não têsm acesso a serviços bancarizados, o que demonstra o grande potencial que existe e o enorme desafio que se nos coloca, para fazer a população participar de modo efectivo no crescimento da actividade financeira do país e no crescimento económico”, disse.

Em função do actual défice de bancarização e do fraco domínio das enormes vantagens da concretização das transacções financeiras de forma bancarizada, Abraão Gourgel disse que o BNA identificou como uma das soluções para reverter o quadro presente o incentivo da população para aderir ao sistema bancário através de campanhas de divulgação da moeda, workshops, seminários e palestras escolares e comunitárias.

Mas, segundo a fonte, a concretização deste objectivo depende fundamentalmente do envolvimento de todas as forças vivas do país. “É um desafio que todos nós devemos encarar de modo a potenciar os fluxos financeiros e modernizar as infra-estruturas e serviços financeiros do nosso sistema bancário”, sustentou.

Para o governante, esta modernização e potenciação do sistema financeiro angolano está também associada à promoção pelo banco central da instalação e da actividade de bancos com especialização regional e sectorial, para apoiar os pequenos e médios negócios, num processo que será concretizado também com o concurso de parcerias com investidores estrangeiros, segundo pontualizou.

Bancos especializados

Segundo o governador, para que haja um maior intercâmbio entre as populações do meio rural e periurbano é necessária a criação de mais bancos especializados em micro-crédito e o desenvolvimento dessas instituições deverá ser estimulado para permitir um maior acesso da população aos bens de consumo duradouros.

Abraão Gourgel acrescentou que, no seu programa de “Educação financeira”, o BNA preconiza também o surgimento das instituições voltadas para o crédito imobiliário, “que é fundamental para permitir a melhoria das condições habitacionais da população, além de ajudar o Executivo na captação de recursos para as obras de saneamento básico e infra-estruturas viárias”.

Para o gestor, a estratégia do desenvolvimento do sistema financeiro, no país, tem como objectivo incentivar a criação de instituições que concedam empréstimos a médio e longo prazos e de outras entidades que propiciem a integração social económica das populações para o aumento da sua participação na formação do Produto Interno Bruto (PIB).

“Convém recordar que o processo de transformação do sistema financeiro angolano está a ser implementado através de uma acção coordenada em coerência com os objectivos globais do

desenvolvimento económico e social do país”, disse Abraão Gourgel.

Dentro deste contexto, acrescentou, o BNA está dotado de poderes para intervir rapidamente, acompanhando a natural dinâmica do sistema, regulando e harmonizando o mercado financeiro nacional.

“Na verdade, essas medidas fazem parte de uma estratégia de política económica do Executivo, visando alcançar no curto e médio prazos uma taxa de inflação que permita cumprir com a meta de integração regional da SADC e obter uma inserção competitiva da economia angolana na região”.

Dados divulgados mostram que as perspectivas económicas de Angola para os próximos anos são promissoras, o PIB deverá voltar a crescer em ritmo acelerado, a produção de petróleo continuará em expansão e as actividades industriais, comerciais, agrícolas e pecuárias ganharão uma importância cada vez maior.

Incentivo à poupança

O governante fez lembrar ainda que o BNA continuará a conduzir a política monetária de modo a regular a liquidez da economia, “sendo importante esclarecer que o hábito da poupança em moeda nacional é um factor essencial para a consolidação no processo de desenvolvimento social económico”segundo anatou.

Mas, para que haja poupança, é necessário que exista, antes, rendimentos. “É por isso que, no quadro de diversificação da economia, o Governo está a incentivar a criação de pólos de desenvolvimento industrial e agrícola, em várias províncias do país, por serem geradores de emprego e de rendimentos, pré-condição para uma cultura de poupança interna sólida”, esclareceu.

“Estamos convictos de que a “Educação financeira” é uma das formas de fazer a população envolver-se mais decididamente nessa cultura de poupança e de elevação dos seus rendimentos, constituindo por sua vez um dos factores de desenvolvimento do sector financeiro angolano”.

Para o governador do BNA, um programa de educação financeira bem sucedido é um bom catalizador indirecto para o crescimento económico do país e é uma forma de divulgar e informar a população, com o objectivo de esclarecer como aderir aos serviços bancários, influenciando-a a mudar de atitude.

“Para ilustrar, devemos educar a nossa população munindo-a de conhecimentos suficientes, para dar respostas a questões tão simples como quais são os seus direitos e obrigações nas operações financeiras bancárias, quais as funções dos bancos comerciais e central, que serviços oferecem, quais são os diferentes tipos de contas existentes, o que é um crédito, que vantagem devem tirar ao aderir a um determinado tipo de crédito e quem pode ter acesso ao mesmo e suas modalidade de pagamento”, exemplificou.

As respostas a essas perguntas, segundo Abraão Gourgel, poderão alterar o comportamento da população. “Por este motivo, disse, reitero aqui a necessidade imperiosa da divulgação da educação financeira às populações quer, seja pelo Executivo, bancos, quer financiadores. A poupança é o caminho mais curto e certo para um futuro económico melhor”, sublinhou.