No dia oito de Janeiro de 1977, a vida das pessoas em toda a extensão do “território Angola” mudou completamente. A sua relação com o mercado e as instituições tiveram de adaptar-se ao novo momento.
Para comprar ou vender já não mais se aceitava o escudo português como moeda de troca. Era a hora e a vez do kwanza, moeda angolana, cuja série de 11 de Novembro de 1976 trazia em inscrição valores faciais de 20, 50, 100, 500 e 1.000 kwanzas. Nas inscrições saltava à vista a figura do “camarada, Dr Agostinho Neto”, como o símbolo da nova era.
E assim se deu a primeira troca da moeda na Angola independente, um acontecimento que seguiu à tomada da banca ocorrida em Agosto de 1975.
As transformações políticas e económicas iniciaram-se, sendo que em 1979 dá-se a indicação de um novo Presidente, após morte prematura do então Chefe de Estado.
Esse cenário perdura até Janeiro de 1984.
Nessa altura, é emitida uma nova série do Kwanza, a de 7 de Janeiro de 1984, agora com duas figuras entre os rostos da moeda: Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos partilham a efígie (representação de uma pessoa numa moeda) das notas de 50, 100, 500 e 1.000 kwanzas.

Multipartidarismo
Em 1991 cai o histórico “Muro de Berlim” e com ele o bloco socialista do qual Angola era aliado histórico e emerge um capitalismo com a promoção do multipartidarismo e da democracia como formas de governo dominante. Mais uma vez, o cenário político traz novos desafios às relações económicas e de trocas. Muda-se a moeda e é emitida a série de 4 de Fevereiro de 1991, desta com notas em valores faciais de 100, 500, 1.000, 5.000, 10.000, 50.000, 100.000 e 500.000 kwanzas. Os presidentes Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos continuam na partilha em paridade como os rostos de identificação da moeda. No verso das notas ressaltavam as belezas e as riquezas da fauna (animais) e flora (vegetação) angolanas.

Kwanza Reajustado
O que se seguiu foram as primeiras eleições, em Setembro de 1992, e o início de um regime multipartidário e democrático. A série de 1991 apenas aguentou quatro (4) anos. Em Maio de 1995 tudo teve de ser reajustado, incluindo a moeda - o kwanza.
Notas faciais de 500, 1.000, 5.000, 10.000, 50.000, 100.000 e 1.000.000 entraram em cena.
Tal foi a corrida aos bancos na altura (BPA, BCI e BNA) para a troca da moeda que, nos dias de hoje, ainda ouve-se de quem perdeu milhares de notas ao não ter conseguido tal substituição em tempo útil.
Nessa altura, já estava-se tão aberto ao mundo que redes de contrafacção (falsificação) de moeda também entraram em cena. Fosse esta ou não a razão, a verdade é que em Agosto do mesmo ano (1995) as notas de 500 kwanzas tiveram de ser reemitidas numa nova série.
Tais pressões à moeda apenas duraram novos quatro (4) anos.
Em 1999 caiu o “Kwanza Reajustado” e reergueu-se um “Novo Kwanza” com valores faciais de 1, 5, 10, 50 e 100, numa série datada de Outubro de 1999. As notas de 5 e de 10 kwanzas foram reemitidas em Janeiro de 2011. A ocasião serviu também para fazer-se entrar no sistema monetário as notas de 5, 10, 50, 100, 200, 500, 1.000 e 2.000 kwanzas.
A Nova Família do Kwanza, actualmente em circulação, data de Outubro de 2012 e trouxe para as trocas comerciais e monetárias um total de nove (9) moedas-papel, além de  metálicas. As moedas-papel, que mantêm até hoje na sua efígie (representação de uma pessoa numa moeda) os ex-presidentes Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos, e são em valores faciais de 5, 10, 50, 100, 200, 500, 1.000, 2.000 e 5.000 kwanzas, respectivamente. Umas desaparecidas por envilhecimento e não reemissão e outras vencidas pela preferência dos usuários, a moeda-papel em circulação continua ser o principal objecto de troca nas realações comerciais do mercado, embora coexistam outras formas de pagamentos, caso dos cartões bancários, cheques e transferências.

Novas notas em Janeiro
Recentemente, o Conselho de Ministros aprovou e autorizou o Banco Nacional de Angola (BNA) a emitir e pôr em circulação, a partir de Janeiro de 2020, uma nova família do Kwanza, sem contudo especificar que alterações a mesma deverá trazer.
Ainda assim, é notável que o Kwanza, nome dado a moeda nacional em homenagem ao maior rio de Angola, liga-se às transformações socio-políticas e económicas que têm ocorrido em Angola.

Voz do cidadão
Consumidores apreensivos com entrada em circulação de novas notas do kwanza “série 2020”

A emissão de novas notas de 200, 500, 1.000, 2.000, 5.000 e 10. 000 kwanzas anunciada, recentemente, pelo Executivo, com a qual autoriza o Banco Nacional de Angola (BNA) a pô-las em circulação já a partir de janeiro de 2020, na que se vai designar “série 2020”, divide opiniões dos interlocutores ouvidos pela reportagem do JE.
O antropólogo Samuel Paulo, por exemplo, não está de acordo com esta medida e diz ser um sinal de desvalorização da moeda, o que na sua visão pode tornar a vida cada vez mais difícil.
“Isto será um caos e receio que pode vir aumentar a inflação”, realçou.
Sobre a possibilidade de alterações das características do kwanza, Samuel Paulo entende ser relativo, “mas se acontecer, o BNA pode introduzir rostos de figuras históricas como Kimpavita, Rei Mandume, Rainha Njinga e outros heróis da história do país, como sinal de reconciliação nacional”.
Belmiro dos Santos, jurista, considera a medida assertiva, sobretudo a introdução da nota de 10 mil kwanzas, acrescentando que vai garantir maior segurança às notas em circulação e evitar a contrafacção. Em relação as troca de figuras que constam no actual kwanza, afirma que já deviam ter sido substituídas por outras figuras que travaram a luta anti-colonial.
Por sua vez o professor de Gestão Altino da Silva,  entende que a entrada da nova família do kwanza é bem-vinda, porque visa garantir segurança à moeda nacional e, possivelmente, pode vir a ocorrer uma troca dos rostos actuais.
“Faz mais sentido a introdução de reis e rainhas nestas novas séries de notas”, rematou.
Para o estudante de Gestão de Empresas da Universidade Lusíada de Angola, Edivaldo Diogo, a medida de eventual troca das figuras nas notas de kwanza é de aplaudir, mas não concorda com a introdução de notas de 10 mil, sob o receio de haver alguma especulação nos preços por
parte dos agentes económicos.
Já Aldenir de Almeida, estudante de Economia, defende que não haver necessidade de se ter notas de maior valor facial com muitos zeros, sendo que para o caso da nota de dois mil kz é aceitável.
Na visão do jornalista Augusto Arismendes, quanto maior for o valor facial maior é a inflação.
“O facto de ser alto, vai implicar falta de trocos e daí a especulação sobre os preços dos produtos”, acentuou.
Para o professional da comunicação, um facto relevante será fazer desaparecer a
imagem dos ex-presidentes.
No que toca à segurança das notas, “presumo que o Governo vai trabalhar com os Estados Unidos da América (EUA) de modo a introduzir novos mecanismos que dificultem a falsificação”, disse.
Eliel Ferreira, estudante de Economia, entende ser esta medida fundamental, uma vez que há muitas notas já cansadas e sujas ainda em circulação.
Apela ao BNA realizar campanhas de sensibilização no modo em como as pessoas devem cuidar das notas nas transacções comerciais. “Será que as coisas vão baixar com estas novas notas? ou podem provocar mais inflação no mercado cambial?”, questiona.

Quanto valerá
a nota de mil kwanzas

Até ontem, quinta-feira (17), de acordo com a plataforma Forex Oanda, uma nota de mil kwanzas equivalia a 2,36 dólares; 2,14 euros; 1,84 libras esterlina; 8,68 dirham dos Emirados Árabes Unidos; 16,36 yuan chinês; 3,12 dólares canadiano; 35,33 rand sul africano; 4,18 marco alemão; 282,5 dinar argelino; 35,33 dólar namibiano; 235,9 escudo caboverdiano e 9,85 real brasileiro, só para citar estas.
No início deste ano, um estudo divulgado por certa agência posicionava o kwanza como das quatro moedas que mais foi sobrevalorizada.
Já no II semestre de 2018, de acordo com dados de instituições financeiras consultados pela Lusa, o kwanza  já não figurava das listas de moedas mais sobrevalorizadas do mundo.
Recentemente, num artigo publicado pelo semanário angolano “Valor Económico”, ficou assente ser o kwanza a segunda moeda da SADC que mais perdeu valor nos últimos cinco anos face ao dólar norte-americano. No período em análise, de acordo com cálculos do Mercado, a moeda nacional perdeu 73,24% face ao dólar, uma desvalorização apenas superada pela moeda do Zimbabwe, que conta com um recuo de 91% desde 2014.
A taxa de câmbio oficial passou a ser formada, neste modelo, nos leilões de compra e venda de moeda estrangeira, nos quais os participantes, caso dos bancos comerciais, indicam o preço (taxa de câmbio) para a compra ou venda de moeda estrangeira.