O docente Rui de Sousa Malaquias entende ser preciso coragem para liberalizar o câmbio num país ainda cronicamente importador, sem produção nacional e com uma dimensão desconhecida da economia informal. Reconhece que as reformas estão em andamento,  e que, no caso do BNA, a liberalização cambial é para ficar.  Na entrevista, diz esperar que haja o tão aguardado “match” entre a taxa de câmbio formal e a informal, para depois disso ver-se os dólares e euros a circularem dentro do sistema e deixem as mesmas moedas de não pressionar as Reservas Internacionais.

Como encarou a decisão do BNA de soltar o controlo cambial para a esfera da auto-regulação do mercado?
Claramente que foi acolhida com muita apreensão, mas não pelo facto de a medida ser tomada, até porque é sim o caminho certo, mas porque acreditamos e o próprio governador do BNA admitiu que a economia teria mais kwanzas em circulação do que seria normal. Por outro lado, era evidente a dificuldade do BNA em controlar a massa monetária, por causa da dimensão do mercado informal e ao facto de nos anos anteriores ter sido possível muitos agentes económicos acumularem muitos kwanzas sem os colocar no sistema. E esta situação, numa economia como a nossa de matriz importadora, é fatal para o poder de compra das empresas e das famílias.

O que vem a seguir com a liberalização cambial?
O que vem a seguir depende da sagacidade do BNA no controlo da base monetária, em entender os momentos de enxugar e injectar a moeda nacional e, principalmente, a forma como disponibiliza as divisas para o mercado. Pelo que temos visto, a taxa de câmbio tem estado a descer (estamos a pagar menos kwanzas por um dólar ou euro), ou seja, o kwanza tem-se estado a valorizar o que resulta de uma das duas razões:
1. O BNA conseguiu controlar a massa monetária em kwanzas em circulação e está a enxugar sempre que necessário, mantendo a oferta aos níveis reais do mercado fazendo com que a taxa de câmbio actual seja a verdadeira taxa de equilíbrio;
2. Ou que o BNA não ainda não controla a base monetária em circulação e está a injectar mais e constantemente moeda estrangeira para manter o câmbio estável.
Sinceramente, somos mais voltados para a primeira razão, porque as Reservas Internacionais Líquidas (RIL) não têm crescido, e assim sendo, o BNA deve estar a ganhar a batalha que trava com as forças de bloqueio que falaremos mais abaixo.

Este acto tido por alguns círculos como de bastante coragem da autoridade monetária e cambial não pode ser a “morte” do paciente mercado?
De facto, é preciso coragem para liberalizar o câmbio num país ainda cronicamente importador, sem produção nacional e com uma dimensão desconhecida da economia informal, mas a verdade é que as reformas estão em andamento, no caso do BNA a liberalização cambial é para ficar e esperemos que assim continue, e que haja o esperado “match” entre a taxa de câmbio formal e a informal e assim os dólares e euros circulem dentro do sistema e não pressionem as Reservas Internacionais Líquidas (RIL).

Com o “Mártires” e o “São Paulo” a comandarem as operações, o que se pode esperar em termos de estabilidade?
É falso dizer que o Mártires e o São Paulo comandam as operações, até é mesmo ofensivo, se formos ver os volumes transaccionados no mercado informal não se comparam aos volumes do mercado formal, só pra termos uma noção, todas as importações do país são feitas no mercado formal. O mercado informal é sim marginal, a questão é que há agentes económicos que conseguem retirar moeda estrangeira do formal para o informal, prejudicando quem recorre ao formal, obrigando estes agentes a irem para a rua, este sim é o problema que deve ser combatido.

Que consequências imediatas para as famílias e as empresas?
As consequências para as famílias e para as empresas de um mercado informal encolhido ao mínimo possível, como vivemos na época do saudoso câmbio de 100,00 em que as quinguilas haviam desaparecido da rua, são imensas as vantagens, se nos lembrarmos foi nesta altura em que tivemos a menor taxa média de inflação da nossa história 7,8% em 2014.
Com uma taxa de câmbio estável a inflação é imediatamente controlada e o cidadão e as empresas sentem a estabilidade no bolso, isto é, quando se recebe o salário e se percebe que, o que se compra em janeiro é o mesmo que este salário poderá comprar em dezembro, e caso houver algum desgaste neste poder de compra, os salários podem ser actualizados sem causar problemas aos empregadores.

Este é o melhor cenário para a desvalorização da moeda prevista para a partir de Janeiro e 2020? Qual seria o cenário ideal para recuperar a confiança no sistema financeiro?
Acredito que o melhor cenário vai depender do desenrolar do mercado, pois a liberalização é justamente para deixar o mercado se ajustar, mas o BNA tem claramente um papel decisivo no controlo da base monetária e na estabilização e supervisão do mercado bancário, tratando para que apenas os bancos que tenham condições reais de emprestar a economia sobrevivam.
Entendemos também que o melhor cenário deverá advir do facto do BNA conseguir restituir a confiança no sistema, as famílias e as empresas devem voltar a ter confiança no sistema financeiro nacional, ou seja, temos que ter a capacidade e a coragem de voltar a fazer poupança em kwanzas e deixar de acumular as poupanças em moeda estrangeira.
E esta confiança só se restabelece se for possível garantir que há divisas e notas sempre que se precisar, ou seja quando se deixar de ter a sensação que as divisas são escassas, a procura por elas deve baixar, e estabilizará a taxa de câmbio e o poder de compra das famílias e empresas. Em poucos dias desta decisão a taxa cambial atingiu os 600,00 kz por cada nota de dólar.

 É mesmo isso que se pretende?
Não, o que se pretende é que se encontre o preço ou a taxa de equilíbrio de mercado, sem interferências externas, sem forças ocultas, pois o que sentimos é que estavam a ser injectados kwanzas no sistema financeiro e estavam a causar a desvalorização do kwanza sistematicamente.
Com esta medida, procura-se encontrar a taxa de câmbio de equilíbrio para que ninguém recorra mais a rua para comprar moeda estrangeira (acabando com os incentivos de para desviar dinheiro do sistema), manter o dinheiro no sistema para proteger as RIL, bem como para que as nossas exportações ou serviços prestados por nós sejam mais tão competitivos como os dos outros países.

Os mercados financeiros reagem mal às notícias de pânico. Não há como acalmar os mercados?
Pensamos que não há pânico algum, porque a taxa de câmbio tem estado a se ajustar à oferta real de kwanzas e o BNA tratou, e está a tomar todas a medidas, para que os agentes tenham acesso facilitado à moeda estrangeira sem restrições, desde que devidamente justificada. Estas medidas eliminam a incerteza quanto ao acesso à moeda estrangeira e desencorajam às transacções fora do sistema.   

Quem põe dinheiro no Mártires, em termos de estimativa que somas de kwanzas, dólares e euros devem ser movimentadas ali diária ou no mensalmente?
Pensamos que o que alimenta o Mártires e todo mercado informal é uma extensão e consequência da nossa economia informal, pois existe moeda nacional a circular no mercado informal que não entra para o sistema financeiro e este facto se traduz num incentivo para que os estrangeiros (que recebem em moeda estrangeira), alguns funcionários bancários e de funcionários de empresas que remuneram os seus funcionários em moeda estrangeira, coloquem as notas na rua. Na rua circulam notas saem do sistema e são ai transaccionadas,