No Sambo, comuna do município da Chicala Cholohanga, onde nasceu, há 75 anos, aprendeu a sabedoria de “falar” com e de terras agricultáveis.
José Maria Dumbo, figura incontornável do agro-negócio, é, passados 44 anos desde a ascensão do país à Independência, um homem “infeliz” com o estágio e destino da nossa agricultura.
E, como conhecedor, o pressentimento é de alerta: É preciso começar a produzir para aguentar, daqui há mais dez anos, o crescimento demográfico da população.
Em tempo de reflexão sobre o 11 de Novembro, dia consagrado à Independência, José Maria Dumbo apontou, em entrevista ao JE, a aposta na construção de fábricas de fertilizantes como o único caminho para se dar um salto quantitativo e qualitativo no desenvolvimento sustentável, em grande escala,da agricultura no país.

Falta fábrica de fertilizantes
“Sem fábricas de fertilizantes, não iremos sair dessa situação. Os adubos, fertilizantes químicos, os agroquímicos, as insecticidas e fungicidas têm que ser fabricados no país, se quisermos ter, de facto, uma agricultura sustentável. Agora, a importar é impossível desenvolver a agricultura no país. Sem estas fábricas não se pode fazer políticas agrárias”, afirma.
O também presidente da Câmara dos Agricultores e Criadores do Huambo assevera que foram e têm sido traçadas, ao longo desses anos de Independência do país, excelentes políticas agrárias, mas, lamentou, esbarram no momento da sua aplicação prática, devido a factores como “a gula pelo dinheiro” e pelos “inimigos” do impasse na agricultura, que são os importadores de fertilizantes e adubos.
“O primeiro factor de estrangulamento da agricultura no país está na gula pelo dinheiro. Programa-se uma coisa e fazem outra. O outro ‘inimigo’, para este não desenvolvimento, é o importador. Não há uma política clara. O indivíduo que lança os projectos e aprova é o mesmo que está na importação, automaticamente alguma coisa tem de que falhar”, apontou.
Sublinhou que, apesar de todas as dificuldades, há fórmulas de se sair dessa situação, que passa, justificou, por um maior espírito nacionalista, por parte das pessoas que, em diversos organismos, tratam dos processos de financiamento e avaliação de projectos, que “quando chega na altura de desembolsar as quantias” colocam entraves.
“Tem que haver um pensamento nacional. O nacionalismo tem que actuar sobre todos estes impasses. As pessoas falam uma coisa e fazem outra. É difícil e complicado. O Governo tem boa vontade, lançou boas políticas para fins agrários, mas não está a se pôr em prática. O Governo diz que não tem dinheiro. Se não tem dinheiro não pode programar ou fazer programações de actividades agrárias ou outro campo,
como comércio e indústria”.
José Maria Dumbo faz, nesta entrevista, um recuo ao período colonial para, sem assono nostálgico, exemplificar como era traçada a política do sector da agricultura, em que, diz, tudo funcionava em cadeia com outras indústrias produtivas e “nada parava” para abastecer o mercado local e da ex-colónia.
“A agricultura, antes de 1975, era aquilo que o governo português traçava. Portugal tinha as colónias e exerciam as suas políticas económicas bem definidas: há produtos que tinham de ser produzidos nos países colonizados e outros somente Portugal, no caso, a uva. Não se poderia trabalhar, nas colonias, na vinha, porque quem trabalhasse na vinha em Portugal ficaria sem produção de vinho”. Tudo se poderia fazer, mas menos aquela agricultura dos produtos que são políticas de Portugal atribuídas no tempo colonial”.
A política traçada por Portugal, à época, contribuiu, disse, para o crescimento e estruturação da agricultura do então colonizador, porque, realçou, as fábricas de produção de fertilizantes estavam sob seu controlo. Mas, com o alcance da Independência, este processo não foi devidamente acompanhado, porque, recordou, as palavras do primeiro Presidente da República, António Agostinho Neto, de que “a agricultura é a base e a indústria o factor decisivo”, não
terem sido seguidas à letra.
“Agostinho Neto foi médico, mas sabia aquilo que estava a dizer. Primeiro é agricultura, depois vem a indústria. A agricultura e a indústria, que agora se chama agro-indústria, estão ligadas na transformação dos produtos das fazendas, que aparecem enlatadas nas prateleiras dos supermercados. O campo produz e a indústria transforma”, elucidou.
O presidente da Câmara dos Agricultores e Criadores do Huambo assegura que foi esta indefinição de políticas agrárias que provocaram a estagnação do sector, afirmando que, em 44 anos, o país ainda não conseguiu acertar o que é agricultura económica. “Dá-me impressão que temos cinco fábricas de cimento e não temos nenhuma fábrica de fertilizantes, com a importação não se pode fazer políticas agrárias.
Não há hipótese!”, destacou.
“Aquilo que se diz, desde 1975, sobre a política agrária, é que se está, precisamente, a ver-se até agora. Imagine, se nós tivéssemos quatro fábricas de fertilizantes e não tivéssemos de cimento: quem conseguiria construir uma cubata. Ninguém! E, precisamente, a diferença está neste capítulo. Fala-se da agricultura, mas ainda não se acertou” disse.