Ainda sob o alvoroço dos ventos efusivos proporcionados pela Independência Nacional, proclamada perante a África e o Mundo na madrugada do dia 11 de Novembro de 1975, era anunciada a substituição da moeda colonial por uma moeda genuinamente nacional, nas primeiras horas do dia 8 de Janeiro de 1977, numa operação montada no mais absoluto sigilo, muito em conta da situação que o país vivia, fragmentado por uma guerra invasora.
De facto, pese embora a moeda nacional tivesse sido criada ao abrigo de um diploma com data de 11 de Novembro de 1976 (Lei n.º 71-A/76, publicado no Diário da República n.º 266- 2.º Suplemento), no entanto, só na véspera da operação foi estampado para o público o referido suporte legal. Esta operação consistiu na substituição do escudo colonial pelo kwanza, e teve lugar nos dias 8, 9 e 10 de Janeiro de 1977, das 7 às 18 horas. A troca foi efectuada ao par até ao limite de vinte mil Kwanzas por agregado familiar. Os montantes que excederam este valor ficaram depositados no Banco Nacional de Angola.
As notas representativas do kwanza foram de vinte, cinquenta, cem, quinhentos e mil, e as moedas metálicas cunhadas em valores expressos em um, dois, cinco e dez, e como fracção do kwanza, o lwei, cuja moeda era de cinquenta.

Mudanças
Face aos graves desequilíbrios estruturais de que padecia a economia angolana, acossada por uma desgastante guerra, o kwanza foi substituído em Setembro de 1990 por uma nova denominação, o novo kwanza (Lei n.º 12/90 de 22 de Setembro). A troca do kwanza pelo novo kwanza ocorreu no período de 22 a 29 de Setembro de 1990, através de uma redução da quantidade de moeda em circulação na economia, mediante a cativação de parte do valor em circulação, ou seja, apenas 5 por cento da moeda apresentada nos locais de troca foi entregue imediatamente. Os restantes 95 ficaram depositados no Banco Nacional de Angola, contra a promessa de entrega de títulos, o que não veio a acontecer, sendo o mesmo reembolsado dois anos depois da operação de troca.

Troca da moeda
O novo kwanza teve uma vigência de quase cinco anos, quando em Julho de 1995 foi destronado pelo kwanza reajustado. A denominação monetária kwanza reajustado, abreviadamente KzR, foi criada pela Lei n.º 4/95, de 1 de Julho, ao extinguir o novo kwanza com o corte de três zeros nesta denominação. Ao contrário das operações anteriores, a denominação extinta, o novo kwanza, manteve o seu poder liberatório até ao dia 31 de Dezembro de 1995, obedecida a equivalência de mil novos kwanzas por kwanza reajustado. As moedas metálicas deixaram de ter curso legal e poder liberatório, tendo sido objecto de troca naquela proporção. As notas representativas do kwanza reajustado caracterizadas na Lei n.º 5/95, de 1 de Julho, entraram em circulação no dia 3 de Julho de 1995, inicialmente com as seguintes denominações: mil, cinco mil e dez mil kwanzas Reajustados.
Este conjunto de notas rápido viu o seu poder aquisitivo diluído pelo caudal da inflação que atingiu em 1995 a taxa de 3.783,93 por cento, numa média mensal de cerca de 30 por cento. Em 1996 a taxa de inflação acumulada situou-se em 1 650,11. Portanto, a inflação corroía a passos galopantes o poder aquisitivo das notas então emitidas.
Face ao reduzido poder aquisitivo das notas em circulação, o recurso foi, uma vez mais, pelo aumento do valor facial das notas, por forma a tornar a moeda mais funcional e prática no processo de intermediação das trocas.

Circulação de notas
Assim, nos termos da Lei n.º 10/96 de 26 de Abril, da Assembleia Nacional, foi o Banco Nacional de Angola autorizado a emitir e pôr em circulação as notas de valor facial de cinquenta mil, cem mil, quinhentos mil, um milhão e cinco milhões de kwanzas reajustados.
Todavia, este recurso foi de pouca duração dado o contínuo aumento dos preços e de acentuada depreciação cambial. Só de referir que a nota de maior valor facial, a de cinco milhões de kwanzas reajustados, equivalia a pouco mais de um dólar norte-americano, o que desde logo pode-se inferir quão difícil era efectuar pagamentos, mesmo de pequenos montantes.
Uma vez que o kwanza reajustado estava de certa forma “desfocado” das suas funções pela quantidade excessiva de dígitos, o que dificultava os procedimentos contabilísticos, e pelo seu valor facial reduzido, o que não o tornava funcional, foi decidida a sua substituição por novo padrão monetário, retornando assim à denominação inicial, o kwanza, mediante o corte de seis zeros da anterior denominação.

Novas alterações
O kwanza foi criado pela Lei n.º 11/99, de 12 de Novembro, passando a equivaler a um milhão de kwanzas reajustados e tendo como fracção divisionária o Cêntimo. As notas representativas do padrão monetário kwanza apresentavam os seguintes valores faciais: um, cinco, dez, cinquenta e cem kwanzas, e as moedas metálicas com os valores nominativos de um, cinco e dez kwanzas, e as moedas divisionárias de dez e cinquenta cêntimos. Todavia, as notas e moedas metálicas representativas do kwanza só entraram efectivamente em circulação no dia 13 de Dezembro de 1999.
Devido ao efeito corrosivo da inflação houve a necessidade de se aumentar o valor facial das notas, para se conferir maior comodidade e segurança na realização das transacções, Foi assim que o Banco Nacional de Angola foi autorizado, ao abrigo da Lei n.º 30/03, de 30 de Dezembro, a emitir e colocar em circulação notas de maior valor facial, mais concretamente, notas de duzentos, quinhentos, mil, dois mil e cinco mil kwanzas. Este diploma previa ainda a emissão da nota de dez mil kwanzas, que, entretanto, não chegou a entrar em circulação.
Decorridos quase nove anos, este conjunto de notas e moedas metálicas foi substituído por uma nova família de notas e moedas metálicas, nos termos da Lei n.º 20/12, de 30 de Julho. Posteriormente, foram acrescentadas moedas metálicas de vinte (Lei n.º 4/14, de 17 de Abril), cinquenta e cem kwanzas, estas duas últimas sob chancela da Lei n.º 17/2015, de 21 de Agosto.
No seu percurso de país independente Angola conheceu os seguintes padrões monetários: kwanza (8 de Janeiro de 1977 a 22 de Setembro de 1990), novo kwanza (22 de Setembro de 1990 a 3 de Julho de 1995), kwanza reajustado (3 de Julho de 1995 a 12 de Novembro de 1999) e, novamente, o kwanza que monetiza as transacções efectuadas na economia desde 12 de Janeiro de 1999.

Firmeza
Decorridos 40 anos desde a entrada em circulação da primeira denominação monetária, o kwanza, no dia 8 de Janeiro de 1977, pese embora a sinuosidade observada ao longo do seu percurso, em meio algumas transmutações, no entanto, não perdeu a sua génese, porque representa o símbolo de soberania de uma nação.As transmutações observadas em torno da moeda nacional nesta estirada, qual fénix que renasce das próprias cinzas, decorrem da natureza intrínseca e universal da moeda, nas suas vestes funcionais de intermediária das trocas, unidade de conta ou medida de valor e reserva de valor.
O valor de uma moeda depende do seu poder aquisitivo e este, por sua vez, oscila em função das intempéries resultantes do processo inflacionário. Altos níveis de inflação, por efeito de arrastamento, derrubam o poder aquisitivo da moeda. E foi isso que ocorreu com o Kwanza nas suas várias etapas, fortemente assolado pelo efeito caudaloso do aumento generalizado dos preços.
Entretanto, em algumas etapas deste percurso, o Kwanza chegou a evidenciar alguma firmeza. Depois da relativa estabilidade dos preços, com índices de inflação de um dígito (2012, 2013 e 2014), aliás assistia-se a uma curva de desaceleração desde 2010, o cenário alterou-se substancialmente em 2015 (inflação anual arrolada em 14,27 por cento), considerado como annushorribilis, e de antecâmara das intempéries que se abateram sobre a economia angolana no percurso do ano de 2016, que até ao mês de Novembro, os preços, em termos acumulados, já tinham galgado até aos 38,93 por cento.
A inflação acumulada computada até Novembrode 2016 representa a mais alta dos últimos doze anos (em 2004 a inflação acumulada foi de 31,02 por cento). Fica, assim, lançado o repto em repor os níveis de confiança na moeda nacional, que passa indubitavelmente pelo controlo da inflação, na medida em que os preços sobem, não porque as coisas valham mais, mas porque a unidade onde o valor é medido vale menos.
Este desafio mais do que complexo requer um acentuado esforço de concertação, sintonia fina e rigor na aplicação da terapia adequada, pois, diversos factores influenciam o aumento generalizado dos preços em Angola, sejam os resultantes dos fenómenos monetários e sejam os dos fenómenos estruturais.
Os persistentes desequilíbrios estruturais da economia angolana levaram a uma forte dependência ao sector externo e, logo, o impacto positivo ou negativo dos ciclos do preço do petróleo é transmitido à economia através do aumento ou redução das receitas em divisas resultantes das exportações do petróleo. E como a economia depende em larga escala das importações, ganha relevância a âncora cambial na formação de preços em Angola.
O encadeamento sequencial das premissas estruturantes da política económica, nomeadamente, estabilidade de preços, crescimento económico, nível de emprego e solvabilidade externa podem ajudar para o fortalecimento da moeda nacional.