O sócio gerente da Sociedade Associada em Associação Limitada começou a sentir algumas dificuldades financeiras, quando viu-se confrontado com a falta de dinheiro para pagar os salários aos seus funcionários e outras despesas correntes. A incredulidade era maior ainda porque até a empresa tinha um considerável património e, de acordo com os últimos registos contabilísticos, estava a gerar lucros.
Apesar da situação patrimonial aparentemente confortável, por inerência dos investimentos feitos na área do imobilizado, entretanto, o que era facto é que a empresa estava sem liquidez para honrar as suas obrigações.
[Vivências contemplativas em contexto de Konomia dya Kitanda (expressão em Kimbundu que procura traduzir o qualificativo Economia de Mercado)]
O Banco Angolano de Negócios e Comércio (BANC) decidiu abrir o capital social em até 49 por cento, viabilizando a potencial entrada de novos investidores, segundo notícias veiculadas em um jornal especializado em matéria económica. A decisão de abertura do capital a potenciais investidores foi tomada pelos accionistas e gestores da instituição e terá sido motivada pela recomendação do Banco Nacional de Angola (BNA) face à deterioração dos rácios regulamentares do banco.
Pese embora os dados contabilísticos, a data de 2015, apontem para um aumento do activo líquido em cerca de 36 por cento, e dos capitais próprios em cerca de 4,0 por cento, entretanto, em 2016, o banco começou a enfrentar dificuldades de liquidez, tendo recorrido a operações de tomada de liquidez no mercado monetário interbancário, para honrar a obrigação de reembolso de depósitos dos clientes.
A questão da liquidez é crucial para a actividade bancária, cuja escassez pode colocar em causa a credibilidade da instituição, já que dificuldade de liquidez significa literalmente “falta de dinheiro”, o que encerra um certo paradoxo, quando é exactamente nos bancos onde a economia vai buscar dinheiro para o seu financiamento.
Dentre as características da moeda refere-se que a moeda constitui liquidez por excelência, pelo facto de ela converter-se em outros bens e serviços sem quaisquer constrangimentos, ou seja, sem necessidade de qualquer “conversão” o detentor de moeda transforma imediatamente a moeda em bens ou serviços ou quita dívidas, contrariamente a outros activos, que passam por um processo de conversão para se transformarem em dinheiro.
Por exemplo, um imóvel é um activo, mas para o mesmo se converter em dinheiro efectivo terá de passar por um processo de negociação, algumas vezes longo, susceptível até de encaixar perdas. Daí resulta a constatação de que a liquidez possui duas dimensões: facilidade de conversão versus perda de valor. Qualquer activo pode ser convertido em moeda rapidamente, desde que se reduza suficientemente o preço. Todavia, se por um lado, a moeda é considerada como o activo mais líquido, por outro, é uma reserva de valor imperfeita principalmente em contextos de aumento generalizado dos preços na economia (inflação), em que o poder aquisitivo da moeda cai.
Resulta daí, o trade-off entre liquidez e rentabilidade, que deve constar da estratégia de crescimento de uma empresa (os bancos incluídos). Uma empresa pode até ter lucros e um considerável património, mas se não tiver liquidez para honrar as suas obrigações pode incorrer em delicadas situações de “default”, e desde logo, a continuidade da empresa pode ficar em causa, se ser forçada a desfazer-se de parte do seu património.
Por isso é que, de entre as peças que compõem as demonstrações financeiras de uma empresa constam para além do balanço patrimonial, as demonstrações de resultados, também as demonstrações de fluxos de caixa. E a diferença entre estas duas últimas peças contabilísticas está no facto de que nas demonstrações de resultados aplica-se o princípio da especialização e, portanto, fica evidenciada a potencialidade da empresa em gerar resultados, já nas demonstrações dos fluxos de caixa aplica-se o regime de caixa, o que significa que só são contabilizadas aquelas transacções que traduzem entrada e saída efectiva de dinheiro.
Provavelmente, a situação que o BANC e mais alguns bancos da praça financeira angolana estejam a atravessar resulta de alocação dos recursos de curto prazo (a carteira de depósitos dos bancos apresenta uma forte propensão em depósitos à ordem) em activos de médio e longo prazo (imobilizado) ou estejam “pendurados” em crédito mal parado.
No capítulo do imobilizado, o artigo 13.º da Lei de Bases das Instituições Financeiras (Lei n.º 12/2015 de 17 de Junho) estabelece o seguinte:“salvo autorização expressa do Banco Nacional de Angola, as instituições financeiras não podem adquirir imóveis que não sejam os indispensáveis à prossecução do seu objecto social, à sua instalação e funcionamento, salvo se, a aquisição resultar de reembolso de crédito próprio, caso em que os imóveis devem ser alienados no prazo de 2 anos”.
Isso significa que, ainda que o Banco fique na posse de um imóvel dado como garantia hipotecária de uma operação de crédito em que o mutuário não tenha reembolsado, mesmo assim, o Banco tem de desfazer-se deste imóvel no prazo de dois anos, salvo se reconverter o imóvel para uso próprio.
Portanto, a liquidez bancária é um elemento fundamental no desenvolvimento das actividades do Banco, cujo risco, o risco de liquidez, deve ser continuamente monitorado para evitar situações de desfasamento entre os fluxos de caixa resultantes de recebimentos e pagamentos, cujas consequências podem ser de perdas financeira e de credibilidade.
Normalmente, o Banco Central para evitar o efeito de contágio do sistema financeiro “oferece” as chamadas facilidades permanentes de liquidez, que podem ser de absorção (quando o Banco Central absorve a liquidez dos Bancos), ou de cedência (quando o Banco Central cede liquidez aos Bancos que manifestem dificuldades momentâneas de liquidez). É claro que as operações de cedência de liquidez realizadas com o Banco Central, na qualidade de emprestador de última instância, têm um custo para os Bancos.
Antes de colocar mão no parque imobiliário que reconhece, adquirido movido por mero impulso sem acautelar os critérios de racionalidade, o sócio gerente da Sociedade Associada em Associação Limitada procurou por soluções dentro do seu Banco onde tinha certeza havia de encontrar a liquidez para resolver parte dos problemas.
E nisto reside o dilema do economista, quando pensa ter o exclusivo da solução vem a kitanda cujos operadores ajustam-se às novas condições descativando a cláusula ceteris paribus (todo o resto constante).
Em se tratando de economia todos são especialistas, até os economistas, haja em vista a sua relação intrínseca com as questões da sobrevivência humana.Em contrapartida, na abordagem da Teoria do Caos constata-se que em sistemas complexos e dinâmicos apesar de rigorosamente deterministas, determinados resultados podem ser “instáveis” no que diz respeito à evolução temporal como função de seus parâmetros e variáveis. A formação de uma nuvem no céu, por exemplo, pode ser desencadeada e se desenvolver com base em centenas de factores que podem ser o calor, o frio, a evaporação da água, os ventos, o clima, condições do Sol, os eventos sobre a superfície e inúmeros outros. E por vezes acaba por não chover…

* Expressão em Kimbundo que significa Economia de Mercado