O economista bengali Muhammad Yunus, Prémio Nobel da Paz, defendeu, no passado fim-de-semana, em Luanda, a criação de bancos especializados em Angola para a concessão à população rural de micro crédito, que considera ser um importante instrumento no combate à pobreza e na promoção da equidade social.

Conhecido no mundo e no seu país natal, o Bangladesh, como o banqueiro dos pobres, em virtude da sua acção em prol das pessoas mais carenciadas, sobretudo as mulheres, Yunus proferiu uma conferência sobre o micro crédito, que contou igualmente com a participação da Primeira-dama de Angola, Ana Paula dos Santos.

Na sua intervenção, Yunus destacou o sentimento de inutilidade, quanto ao futuro, que pode invadir um indivíduo pobre. “É necessário dar-se uma oportunidade a essas pessoas para que elas possam mostrar as suas aptidões”, sublinhou, antes de acrescentar que uma dessas maneiras é a criação de condições para serem pequenos empreendedores, através do micro crédito.

Segundo o Prémio Nobel da Paz 2006, 80% das mulheres em Bangladesh se autosustentam através do micro crédito concedido pelo banco que ele próprio criou, o Grameen. “Mesmo com algumas dificuldades de reembolso, o banco continua a gerar lucros em ritmos animadores, em função das políticas de gestão de risco que nós criamos”, destacou.

Mulheres são a maioria

O Banco Grameen é procurado fundamentalmente por mulheres rurais, que representam acima de 90% dos seus clientes, facto que Muhammad Yunus explica: “As mulheres são mais fiéis em honrar os seus compromissos de reembolso e, por outro lado, quando uma mãe assina o contrato, ela tem maior probabilidade de persuadir os filhos para também aderirem ao negócio”. “Isto tem mais a ver com o impacto que as mulheres causam na sociedade”, disse o banqueiro e professor de Economia.

Questionado sobre se, com as dificuldades que existem em Angola, é possível a criação de bancos virados exclusivamente para micro o crédito sem grandes riscos, o economista disse que o Bangladesh é um dos países da Ásia com maiores riscos de calamidades naturais, mas, mesmo assim, ele tem ajudado os pobres.

“Uma das maneiras de gerirmos os riscos é a criação de um fundo de calamidades, que nós constituímos em todas as agências. A outra é os bancos criarem as próprias empresas de produção diversificada em várias regiões”, apontou. Segundo ele, é condição fundamental para o sucesso que essas empresas não dependam do banco sede. “Se assim acontecer, terão muitas dificuldades”, alertou.

“Cada empresa ou agência deve criar a sua estratégia para sobreviver, porque o banco sede, neste caso o Grameen, não dá financiamento aos outros, nem às empresas. Apenas recebe deles. Por isso, realizamos um sistema de concurso para incentivar o crescimento de cada agência mediante um prémio estabelecido”, ressaltou.

Uma das soluções apontadas pelo professor, para que as dependências lucrem, é a captação de depósitos, que beneficiam de uma taxa de juro atractiva e de uma legislação bancária sobre o micro crédito. A seguir a isso, vem uma regulação para conduzir eficazmente a política de depósitos e concessão do mesmo.

Yunus indicou que o Banco Central não deve ser a entidade reguladora na concessão ao micro crédito, por se tratar de organismos extremamente diferentes. “Em Bangladesh, existe um instituto que regula o exercício do micro crédito nos bancos comerciais”, revelou.

Como ajudar

Além de ajudar os pobres, o micro crédito também pode beneficiar os deficientes físicos que pedem esmolas. “Se inquirirmos estas pessoas, veremos que cada uma delas tem aptidão para desenvolver alguma coisa e o local onde se encontra pode ser um sítio estratégico para desenvolver o seu pequeno negócio, e as pessoas, vendo isso, compram, ao invés de darem dinheiro de graça”, disse o professor.

Se os bancos assim procederem, Yunus acredita que no futuro muitos mendigos deixarão de pedir esmolas e passarão a dedicar-se ao seu próprio negócio. “Se os mutuários não honrarem o seu compromisso, não devem ser punidos, pois eles não são culpados, devem antes de mais serem traçadas estratégias entre o mutuário e o banco, para se solucionarem os problemas, e isso, por vezes, passa pela concessão de um outro crédito”, esclareceu o interlocutor.

Ana Paula dos Santos defende a criação de fundo de micro crédito em Angola

A Primeira-dama, Ana Paula dos Santos, uma das oradoras do certame, defendeu a necessidade de se criar um fundo de micro crédito destinado à mulher rural, em função da insuficiência na captação de recursos para este fim.

Segundo ela, que também é a presidente honorária do Fundo de Solidariedade Social “Lwini”, as três instituições bancárias que trabalham com o micro crédito, designadamente o Banco Sol (BS), o Banco Africano de Investimentos (BAI Micro Finanças) e o Banco de Poupança e Crédito (BPC), não têm conseguido satisfazer as necessidades das populações desfavorecidas.

Por esta razão, disse, o micro crédito está mais direccionado às populações do litoral. “Defendo a criação de um fundo de micro crédito, pois julgo que é um instrumento de combate à pobreza e a promoção da inclusão social”, sublinhou a esposa do Presidente da República.

De acordo com a jurista, desde 1997, ano em que se começou com a luta de combate à pobreza no meio rural, foram criadas várias correntes de ajuda, e, em 2006, esta campanha beneficiou cerca de 115 mil e 883 famílias.

Crédito agrícola

O ministro de Estado e da Coordenação Económica, Manuel Nuno Júnior, orador que encerrou a conferência, disse que, apesar do fim de guerra no país, ainda existe muita desigualdade social e muita gente a viver em desequilíbrio económico. Em virtude disso, destacou, o micro crédito tem um papel a desempenhar e representa um instrumento para o combate à pobreza até ao ano 2015.

Uma das dificuldades apontadas pelo ministro está na incapacidade interna da criação de poupanças em função do ciclo vicioso da pobreza que caracteriza a economia angolana.

“O micro crédito em Angola está ainda a dar os seus primeiros passos, o decreto de 03/2005, define o micro crédito como sendo a concessão de empréstimo de baixo valor a pequenos empreendedores e é louvável a prestação da banca comercial, que tem desempenhado este papel”, disse.

Segundo o economista, os bancos existentes no mercado que se dedicam ao segmento são parceiros do Governo na implementação do programa do micro crédito, virado sobretudo ao consumo da população do meio rural.

Manuel Nunes Júnior disse que uma das formas de o Estado apoiar estas instituições tem sido a bonificação da taxa de juro. Ele acrescentou que foi assinado em meados do mês passado, entre os ministérios das Finanças, e da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas, um acordo de micro crédito conjunto que aprova o financiamento agrícola, que servirá de base para o fomento da actividade no meio rural.

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