Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional afastam instabilidade iminente apesar de as Nações Unidas apresentar quadro negativo.

A Organização das Nações Unidas (ONU) alerta para um abrandamento da economia mundial e afirma que a resposta de alguns países, consubstanciada na austeridade orçamental, terá um resultado contrário ao pretendido, na medida em que vai travar o crescimento. No seu relatório “Trade and Development 2011” (Comércio e Desenvolvimento 2011), divulgado pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e o Desenvolvimento (CNUCED ou UNCTAD, na sigla inglesa), a organização nota que a consolidação das finanças públicas apenas responde aos “sintomas do problema” e não às suas causas profundas.

Para a Cnuced, os elevados rácios de dívida pública são uma consequência da crise, e não a sua causa e, por isso, “a ideia de que um aperto orçamental reduz os défices e a dívida pública, e traz de volta a confiança aos mercados financeiros, irá ter o resultado contrário ao pretendido, ao afectar o crescimento do PIB e ao reduzir as receitas provenientes de impostos”.

A organização vai mais longe e diz mesmo que a austeridade constitui “um risco significativo de gerar um período prolongado de crescimento medíocre nas economias desenvolvidas – se não mesmo de contracção”. A alternativa é uma política orçamental que fomente o crescimento, o que, para as Nações Unidas, ajudaria a reduzir mais o défice e a dívida do que uma política orçamental restritiva. E, se tal não for possível, defende, é preferível optar por uma reestruturação da dívida do que pela via da austeridade.

A instituição internacional coloca mesmo de parte o argumento usado para justificar os pesados esforços de consolidação orçamental que vários países estão a empreender, como é o caso de Portugal: a necessidade de se restaurar a confiança dos mercados internacionais.

“À luz do comportamento irresponsável de vários actores do mercado financeiro, que obrigaram a intervenções caras dos governos para prevenirem o colapso do sistema financeiro, a opinião pública e as autoridades não devem voltar a confiar nestas instituições, incluindo nas agências de rating, para avaliar o que são políticas macroeconómicas sustentáveis e uma gestão saudável das finanças públicas”.

Recuperação ameaçada

O relatório da Cnuced alerta ainda que o enfraquecimento da procura interna e as políticas de austeridade estão a ameaçar a recuperação económica. A organização projecta que a economia mundial cresça três por cento este ano, depois dos quatro por cento em 2010, um enfraquecimento que está a ser provocado pela situação dos países desenvolvidos.

Estas economias deverão crescer 1,5 a dois por cento este ano, o que será compensado pela boa performance das economias emergentes, que voltarão aos ritmos de expansão antes da crise e deverão crescer seis por cento em 2011.

Mas mesmo o mundo emergente não está isento de riscos. A Cnuced alerta que também estas economias “podem vir a deparar-se com a instabilidade financeira e fluxos especulativos de capital gerados nas economias desenvolvidas e não serem poupadas à nova recessão no Norte”.

Efeitos negativos

A crise nos países desenvolvidos começa a afectar as principais economias emergentes e tende a ser sentida principalmente no Brasil, China e Índia, aponta o relatório da Comissão Económica para América Latina e Caribe da ONU (Cepal).

“Pode-se esperar para 2012 um menor ritmo de exportações para a Europa e Estados Unidos, de modo que as economias com maior orientação exportadora, voltadas para estes mercados, verão afectado o dinamismo das suas vendas”, observa o relatório divulgado recentemente pela Cepal na sua sede em Santiago do Chile. As nações mais afectadas, segundo a entidade, serão as sul-americanas, cuja previsão de crescimento, considerada separadamente, passou de 5,1 para 4,8 por cento em 2011.

Recessão à vista

Enquanto isso, a directora-geral do Fundo Monetário Internacional, a francesa Cristine Lagarde, expressou, em entrevista à revista alemã “Der Spiegel”, o receio de a economia mundial poder estar na “iminência” de entrar em recessão, partilhando a opinião recentemente expressa pelo director-geral do Banco Mundial sobre o risco de “uma forte desaceleração” do crescimento económico global.

“Ainda podemos evitar esta situação. Se os diferentes bancos centrais, governos e as organizações internacionais trabalharem em cooperação, poderemos evitar uma recessão”, disse. Na Europa, Lagarde recomenda que os países mais atingidos pela crise da dívida aumentem os capitais próprios dos bancos com o objectivo de os fortalecer.

A diretora-geral do FMI defende que tanto os EUA como a Europa devem pensar em políticas de estímulo para as economias, caso a situação o permita, para combater a crise de confiança que se verifica a nível global.

Banco Mundial rejeita

O presidente do Banco Mundial (BM), Robert Zoellick, descartou que as economias norte-americana e europeia estejam a caminho de uma nova recessão. As declarações do responsável surgem numa altura delicada dos mercados financeiros. “Eu não acho que os Estados Unidos da América e o mundo vão entrar em uma segunda recessão”, afirmou Zoellick, durante uma conferência de imprensa, em Singapura.

Para o responsável máximo do Banco Mundial, uma das formas que a Europa tem de combater a crise é aumentar a unidade e a cooperação financeira. A posição de Robert Zoellick surge numa altura delicada para os mercados financeiros, na sequência de quedas abruptas das bolsas.

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