Desempenho positivo da economia resulta no abrandamento acentuado dos índices de inflação, apesar de ser ainda muito pouco visível

O Banco Nacional de Angola (BNA) divulgou, recentemente, um relatório sobre o desempenho do circuito monetário e cambial do país durante o terceiro trimestre. De acordo com o documento, os depósitos em bancos e moeda em circulação, também designados por agregados monetários, continuam a ser dos instrumentos usados na política macroeconómica, com o fim de avaliar o crescimento e o desempenho da actividade económica.

Desta feita, e especificamente no caso da economia angolana, apesar de o nível de inflação não ser ainda o desejado pelas autoridades no país, já se começa assistir a um abrandamento, mesmo que pouco visível neste sentido.

Conforme os indicadores expressos no relatório, o rigor e a eficácia observados na condução da política monetária e cambial tem levado os agentes económicos a pouparem mais e a fazerem grandes investimentos, os quais aumentam a produção interna e estimulam o consumo. Esta prática contribui para a manutenção da taxa de inflação nos níveis desejado.

Depósitos

No que se refere aos depósitos, o documento indica que os totais se mantiveram praticamente inalterados ao longo do segundo trimestre, implicando uma desaceleração da taxa de variação homóloga na ordem dos 24,8 por cento registados em Março, para 14,4 por cento em Junho. Este comportamento reflecte um ligeiro aumento dos depósitos em moeda nacional de 2,7 por cento em relação ao primeiro trimestre, verificando-se uma aceleração da taxa de variação homóloga na ordem dos 13,1 por cento em Março, para 15,9 por cento em Junho, e uma queda dos depósitos em moeda estrangeira em menos 3,4 por cento.

Estas flutuações conduziram a uma desaceleração da taxa de variação homóloga situada em 39,9 por cento até Março, para 12,7 por cento em Junho do corrente ano.

No entanto, corrigido o efeito das variações cambiais, os depósitos em moeda estrangeira reduziram-se na ordem dos 14 por cento entre Dezembro e Junho, muito embora tenham apresentado uma ligeira tendência de subida desde o princípio de Abril.

Assim, os depósitos em moeda estrangeira deverão beneficiar da subida das receitas petrolíferas, bem como da regularização de dívidas por parte das autoridades às empresas estrangeiras e nacionais. Em Agosto último, assistiu-se a uma ligeira apreciação do kwanza face ao dólar, movimento que sofreu uma correcção no final de Setembro, o que também influenciará positivamente os depósitos em moeda estrangeira.

Crédito

Depois de uma aceleração do crescimento do crédito ao sector privado entre o terceiro trimestre de 2009 e o início de 2010, a taxa de variação homóloga do crédito ao sector privado deslizou de 65,3 por cento em Fevereiro, para 50,8 por cento em Junho, num ritmo de crescimento considerado bastante satisfatório.

Em consequência disto, o crédito continua a expandir-se a taxas superiores ao produto dos sectores não petrolíferos.

Assim, por sectores de actividades, o crédito a particulares permanece como a componente mais significativa da economia nacional, muito embora se tenha observado uma queda na ordem dos 14 por cento no segundo trimestre face ao primeiro e, em resultado disso, o seu peso no total diminuiu 9 pontos percentuais (pp), estabelecendo-se em 31 por cento.

No entanto, as componentes do comércio, as actividades imobiliárias, alugueres e serviços às empresas, registaram um crescimento na ordem dos 43 por cento e 46 por cento durante o mesmo período, o que conduziu a um aumento do seu peso de 6 pp e 2 pp, respectivamente.

O sector de construção manteve o peso de 9 por cento devido a um aumento na mesma proporção. Realce ainda para o aumento de 30 por cento do crédito ao sector agrícola, pese embora que a sua expressão na conjuntura nacional se mantenha ainda reduzida (cerca de 2 por cento do total).

Assim, a representatividade do sector de construção deverá estar subavaliada pelo seu peso de 9 por cento, na medida em que, considerando as características do crédito concedido a particulares, sendo marginal ou superior ao crédito ao consumo, na sua maioria o crédito a particulares reflecte uma exposição do sector da construção.

Esta evolução recente do crédito é positiva, pois permitiu a um desvio do crédito concedido de particulares para as actividades produtivas.

Emissões de títulos

Durante o terceiro trimestre manteve-se a emissão regular de Títulos de Banco Central (TBC’c), não se efectuando qualquer emissão de Bilhetes de Tesouro (BT). Entretanto, desde meados de Maio que as taxas médias praticadas nos leilões inverteram a tendência ascendente e sofreram um ligeiro declínio, situando-se agora entre 15 por cento e 21 por cento, consoante o prazo, face ao intervalo de 19 por cento e -24 por cento verificado até ao momento.

A maior estabilidade apresentada pelo mercado cambial contribuiu para que a pressão existente para a troca de dólar por kwanza, se desvanecesse permitindo a uma correcção em baixa das taxas de

colocação.

Assim, a taxa de rendibilidade dos TBC’s mantém-se acima da taxa de inflação e mantendo-se uma rendibilidade em termos reais positiva. Dada a rigidez da inflação nos níveis de 13 e 14 por cento, os prémios oferecidos pelo TBC encontram-se alinhados com padrões de risco de crédito semelhantes.

Prazos de maturidade

O prazo preferido pelo tesouro foi 364 dias (32 por cento), seguindo os de 91 e 182 dias (26 por cento e 21 por cento, respectivamente). Estas preferências deverão estar relacionadas com a maior facilidade de colocação devido a maior rendibilidade oferecida nos prazos mais longos e pala tendência da queda das taxas médias de colocação.

A procura por estes títulos mantém-se elevada, pois, face ao reduzido níveis de desenvolvimento do mercado financeiro e das alternativas de atribuição de crédito no país, os TBC’s mantém-se como refúgio para aplicação de excedentes de liquidez.

Inflação

A inflação no país mantém o seu andamento semelhante ao dos últimos meses girando em torno de um ponto médio de 13,75 por cento desde Janeiro de 2009. Se por um lado os últimos anos foram marcados por queda acentuadas de inflação, ultimamente a conjugação de diversos factores de natureza estrutural tem impossibilitado que a barreira de 13 por cento de referência para 2010 seja atingida.Assim sendo, em Agosto último, a variação homóloga subiu para 13,99 por cento, face a 13,70 em Junho, o patamar mais elevado desde o início do ano em curso.

Em termos mensais registou-se um aumento de 1.14 por cento em Julho e 1.12 por cento em Agosto, as duas maiores variações em cadeia registadas este ano.

Por trás deste comportamento da inflação esta a componente alimentação e bebida não alcoólicas que, com uma variação mensal de 1.46 por cento, contribuiu com o peso de 72,6 por cento para a formação de variação do índice geral de preços em Agosto último.

Por outro lado, a componente transporte apresentou a segunda maior taxa de variação mensal de 1.20 por cento, contribuindo com um peso de 9.3 por cento no índice geral.

Política monetária

No passado mês de Maio, a responsabilidade pela condução da política monetária passou do Banco Nacional de Angola (BNA), para a tutela do governo sob alegação da ineficácia do banco central em encontrar soluções para fazer a taxa de inflação descer para baixo dos 13 por cento.

Esta transferência de responsabilidade visa reforçar o empenho das autoridades na prossecução de uma política de estabilidade de inflação, nomeadamente, através do controlo das taxas de câmbio.

De facto, o Governo reiterou o seu compromisso com o objectivo de atingir uma inflação de um dígito em 2011.

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