Angola apresenta as maiores taxas de inflação em comparação com os outros membros da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), revela um estudo elaborado pela Trading Economics, instituição sediada em Nova York (EUA), no qual baseou-se em informações precisas para 196 países, incluindo dados históricos para mais de 20 milhões de indicadores económicos, taxas de câmbio, índices de mercado de acções, rendimentos das obrigações do Governo e preços das commodities.

Na lista, Angola lidera (23,67%), secundada pelo Malawi com (7), a seguir vêm o Lesoto, Zâmbia e Moçambique com (
6%), respectivamente.
A Swazilândia está na sexta posição ao lado da África do Sul e da Namíbia com (5%) cada e Ilhas Maurícias com (4,20%), Tanzânia e República Democrática do Congo com (4). Zimbabwe, Seychelles e Botswana são os países que têm uma taxa de
inflação menor de (3).
A nível da CPLP, Cabo Verde e Timor Leste estão numa óptima posição com 0,80 por cento cada, acima da Guiné-Bissau que tem uma taxa negativa de 0,70. No conjunto, Angola lidera, a seguir vem São Tomé e Príncipe com 5,90, depois Moçambique com 5,65, Brasil com 2,95, Portugal com 1,50 e Guiné Equatorial com 0,13.
Sobre o estudo, o economista e docente universitário António Estote considera que o país deve melhorar os seus indicadores macroeconómicos, caso contrário, caminhará para um colapso (agravamento da economia), ainda mais quando Angola, no contexto das Nações, tem acordos de cooperação com várias organizações internacionais às quais faz parte, quer de carácter económico e de âmbito regional como a SADC, quer de carácter histórico-cultural e linguístico como a CPLP.
Na ciência económica, a inflação é um aumento sustentado dos preços dos bens e dos serviços. Uma taxa, por sua vez, é um coeficiente que exprime a relação entre duas grandezas. Por exemplo, um quilo de açúcar se custava 200 kwanzas em Janeiro e aumentou para 400 kwanzas em Fevereiro, a inflação mensal sobre esse produto foi de 100 por cento. Isso significa que os consumidores tiveram de pagar mais 100 por cento em Fevereiro em comparação com o valor pago em Janeiro.

Poder de compra
A inflação compromete o poder de compra das pessoas e enfraquece o salário. Havendo uma elevada taxa de inflação, o salário não permite comprar tantos produtos. Especialistas dizem que há vários factores para o surgimento de inflação. Quando ela ocorre, a procura, o sector produtivo não consegue adaptar a sua oferta à procura geral e, portanto, decide aumentar os seus preços.
Numa recente entrevista concedida ao Jornal de Economia & Finanças, o economista e investigador social, Filomeno Vieira Lopes, antevia uma hiperinflação para Angola, entendida como uma subida de preços de aproximadamente 1000 por cento por ano.
Se os preços subirem gradualmente, fala-se de inflação moderada. Quando a taxa aumenta de dois ou três algarismos por ano, está-se perante uma inflação galopante. Até finais de 2018, Angola prevê uma taxa de inflação anual acumulada de 28,7 por cento, acima dos 22,9 de 2017. Em 2016, a taxa foi de 42, e 2015 de 14,3, acima de 7,5 de 2014
e 2013 que registou 7,7.

Esforços
O Governo angolano definiu para 2018 no seu Plano de Estabilidade Macroeconómica (PME) como garantia a não aceleração da inflação e o seguimento de uma trajectória sustentável da sua redução.
Além disso, o Governo pretende melhorar a capacidade de previsão e gestão da liquidez, incluindo o fluxo de divisas e o asseguramento da autonomia do BNA na utilização dos instrumentos da política monetária.
Numa situação imaginária e desejada, as elevadas taxas de juro permitiriam um aumento líquido de capitais e, por conseguinte, um superávite da balança de pagamentos, no contexto actual, significaria entrada das almejadas divisas, segundo o economista António Estote.
“A política monetária angolana adopta um regime de taxa de câmbio fixa, como se preferiu chamar a estes tempos por banda cambial” e limita a liberdade e mobilidade de capitais, condição fundamental para que o aumento da taxa de juros corresponda ao influxo de capitais”, disse. Desta forma, o economista acha que o valor acrescentado da análise comparativa das taxas de juros e de inflação entre os membros da SADC e CPLP é residual, uma vez que em ambas organizações os membros adoptam políticas com características distintas, dentre as quais o regime de taxa de câmbio, mobilidade de capitais, regime regulatório, dentre outras. A título de exemplo, tem num extremo Portugal e no outro Angola.
A fim de compreender as razões das elevadas taxas de juro e de inflação, recorre-se ao dilema que o Banco Nacional de Angola enfrenta, entre manter o objectivo da taxa de inflação de 28 por cento para o ano de 2018, e garantir a cobertura de 5,6 meses de importação pelas Reservas Internacionais Líquidas - RIL (conforme proposta do OGE 2018).
O economista António Estote justenta afirmando que o BNA no intuito de reduzir o consumo excessivo das RIL tem desvalorizado o kwanza, provocando uma elevação da taxa de inflação nos meses posteriores.
Por sua vez, a taxa de inflação em relação ao seu objectivo 28 por cento ao ano exige que a taxa nominal de juros aumente mais do que proporcional.
Na sua óptica, o aumento da taxa de juros deveu-se, por um lado, à subida da taxa de inflação impulsionada pela desvalorização do Kwanza, influenciada por medidas para contrair a evaporação das RIL que nos últimos cinco anos reduziu a 51 por cento de 27 mil milhões em Janeiro de 2012 para 13 mil milhões de dólares em Dezembro de 2017.
Para reversão do cenário actual da política monetária, na qual a taxa de juro, inflação, câmbio e as RIL correlacionam-se e retroalimentam-se, o BNA deve definir uma estratégia de médio e longo prazo para a política monetária, caracterizada pela sua independência, mobilidade de capitais e um regime de taxa de câmbio flexível. Na óptica do economista, a implementação desta estratégia deve ser gradual, tendo em conta as condições objectivas da economia nacional, dado que o actual modelo não apresenta soluções sustentáveis, quer do ponto de vista de solvabilidade internacional, quer do ponto de vista de estabilidade dos preços.