Nos tempos de infância no Huambo, as crianças da minha geração costumavam cantar uma “modinha”, como dizem os brasileiros. Uma música de autor desconhecido tão simples como um lápis e um copo com água. No recreio da escola as crianças indagavam: “O que faria o Faria se fosse o Faria”? Na inocência das crianças, o pasteleiro da Granja de Nova Lisboa era a pessoa menos indicada para resolver os problemas sociais. Anos depois, o saudoso Presidente Agostinho Neto afirmava que o “mais importante é resolver os problemas do povo”. Ou, como dizia o “próprio” povo: “Esse é o ‘prubulema’ que estamos ‘cum’ ele.” Pois é, Faria, o teu pão-de-ló e outras delícias era tão afamado que a pastelaria só fechava à noite, numa cidade com pouca população espalhada por uma vasta extensão, onde viviam muitos desconhecidos, na maioria angolanos, entre nacionalistas como o médico David Bernardino, a professora Zaida Dáscalos, o poeta Ernesto Lara Filho, primo de Lúcio Lara, e, entre outros, os membros da família Marcelino. Ah! E José Luciano, condenado no Processo dos 50, que contribuiu para o desencadeamento dos ataques a cadeias de Luanda na madrugada de 4 de Fevereiro. Esta acção é considerada o início da luta armada de libertação nacional de Angola pela Independência.
Então, o que faria o Faria se estivesse por cá e pedissem-lhe uma opinião para reconstruir o país e dar um pontapé para o desenvolvimento? Vamos imaginar. Ele diria: “Puto, eu não revelo segredos de pastelaria e culinária. Se queres saber como se faz o pão-de-ló, pergunta à tua mãe?” Cá está a resposta adequada para quem, no seu legítimo direito, como cidadão, quer saber com quantos “paus se faz uma canoa” com a dimensão de Angola. Chegado aqui, apetece-me dizer como o Bratt Simpson, personagem de uma série de “bonecos animados” que passa diariamente num canal de televisão por satélite, “ay, caramba!” De facto, qualquer miúdo inteligente percebe que o desenvolvimento de Angola não pode assentar numa matéria-prima fóssil finita como o petróleo bruto. Com os recursos naturais existentes no país, qualquer flibusteiro não hesitaria em pedir um visto ordinário para vir garimpar na nossa terra. Aliás, são centenas, ou mais, os estrangeiros deportados por entrada e exercício de actividade ilegais, ávidos
das riquezas que estão à vista de todos. Terra fértil, água - cada vez mais escassa no Mundo - florestas, minérios, mar e recursos humanos com habilitações profissionais, formação cultural e assistência médica são o sustentáculo do desenvolvimento económico de um país. O que faria o Faria se não fosse egoísta? Expandia o negócio do pão-de-ló, com a abertura de lojas na cidade e, mais tarde, em outras províncias. Assim, gerava emprego, de que a maioria dos angolanos está necessitada e punha a funcionar um negócio noutras cidades. Não era só o resmungão que ganhava com isso. Mais clientes, empregados, fornecedores e produtores seriam beneficiados. Depois do pão-de-ló, Faria podia ter outros objectivos, como por exemplo, uma geladaria. As crianças adoram produtos açucarados, tal como muitos pais. O negócio, certamente prosperava rapidamente, mesmo numa cidade de clima temperado, como o Huambo, onde o Cacimbo é rigoroso. “Se o sorvete rende, porque não vender outros produtos lácteos”? - Pensou o Faria. Daí ter decidido pedir um empréstimo bancário para desenvolver uma produção agro-pecuária e ampliar a sua rede comercial, que lhe foi concedido, tendo em conta os bons resultados financeiros, sem falcatruas. Há vezes em que uma ideia súbita parece disparatada. Não é o caso nesta história inventada. A produção e venda de leite, queijo e manteiga prosperou, a tal ponto que o negócio ultrapassou fronteiras. Num Mundo perfeito, empreendedores como o Faria podiam ser o exemplo do “self made man” angolano - o homem que subiu na vida à sua custa e com esforço pessoal, contra “ventos e marés”. Em Angola, infelizmente, muitos empreendedores com ideias e vontade de montar um negócio “morrem na praia”, depois de “encalharem” nos meandros da burocracia e teias da corrupção. Então, o que faria o Faria perante esta situação? Diria, com enfado e sotaque estrangeiro: “Vocês não olham à vossa volta? Não conhecem o vosso país? Estão à espera de quê para criar riqueza para o vosso povo. Agora é que vêm com essa conversa tola da diversificação da economia? Eu tenho uma horta no meu quintal! Planto couve, tomate, cebola e alface. Em minha casa nunca falta uma sopa para a família. Vão mas é trabalhar!” Pois é, Faria. Tocou a sirene de alarme no Quartel de Bombeiros e agora todos correm para “apagar o fogo” e clamam que é a altura de diversificar a economia. Durante anos, a economia nacional dependeu das receitas comerciais e fiscais da exportação de petróleo e em menor escala do diamante. A desvalorização e/ou redução dos preços destas “commodities” abalou a estrutura económica, a tal ponto que o Estado enfrenta problemas de liquidez - leia-se, falta de dinheiro - para pagar salários e fazer face aos elevados encargos da administração pública. Se o Faria andasse por cá e tivesse “voto na matéria”, caso lhe perguntassem, aconselhava os políticos a pouparem na despesa pública, sem afectar áreas “sensíveis” como a Educação, Saúde, Defesa e Segurança. E acrescentaria: “Poupar no açúcar, farinha, fermento e manteiga não é bom para o pão-de-ló. Mas podem diminuir a despesa em bens supérfluos.” Palavras sábias do Faria. E se não fosse ele, quem teria a coragem de o dizer?