A gajajeira é famosa pela sua história. Por estar no coração do Rangel, distrito urbano da cidade de Luanda, e donde saiu gente de reconhecido mérito na cultura, no desporto e na política, este “mercado” ao ar livre durante anos foi referência e sustentou famílias com a venda informal.
O que não é menos verdade é que o passar dos tempos, envelheceu o bairro, cresceu a desordem e amontoados de lixo começaram a pôr em risco pessoas e bens perecíveis. Todos faziam do espaço o seu local de trabalho, mas a salubridade é condição indispensável para o bom desempenho de qualquer actividade.
Foi, exactamente, nesse espírito e já no âmbito da “Operação Resgate” que a Comissão Administrativa da Cidade de Luanda orientou aos órgãos da fiscalização para pôr fim ao local de venda informal. Tal medida foi executada e segundo relatos com algum tom de uso excessivo da força, versão negada pela polícia, que todavia, admite, que a retirada de bens das famosas casas de processos deveriam obedecer a outros critérios.
A informática Argentina Pacheco, moradora da zona do São Paulo há mais de 15 anos, disse que as medidas traçadas para desactivação dos mercados informais vêm acompanhadas de uma realidade social que o país vai viver. Para ela, a proibição da venda nas ruas ou em mercados informais visa travar muitos actos que não coadunam com os bons hábitos de uma cidade.
Já a dona de casa Mavinga Madaleno, há muito que já não tinha “paz de espírito” devido ao grande aglomerado de pessas que se faziam àquela zona no período das 5h30 às 22 horas, e quando mais com gritaria.
Por seu lado, a funcionária pública Yanileidy Capindisse afirma que a insuficiência financeira das famílias face à crise afectou drasticamente as suas receitas, até mesmo para pessoas que têm um emprego público. Por esta razão, justifica, os vendedores ambulantes chegavam mesmo a dar apoio a muitos na hora da procura dos bens mais baratos. Por se tratar de uma operação de grande amplitude, a iniciativa de resgatar deve-se à necessidade das autoridades criarem ética, ordem e disciplina na venda e organização dos bairros e cidades.
Por sua vez Maria António relata que antes era quase impossível caminhar pela zona da Gajajeira, que se transformara num verdadeiro “pandemónio”. “O alvoroço que as vendedoras ambulantes criavam era até certo ponto de arrepiar”, disse.
A moradora Vívia Manuel acredita que as pessoas têm noção que devem cumprir com as medidas que foram tomadas pelo Governo e que estas são de grande valia para o país. Todavia, a consumidora admite que o problema só está no hábito de as pessoas terem feito desta prática o seu sustento e, por tal razão, vão enfrentar de início alguma dificuldade.
A estudante Bernardina Capaia entende que as autoridades têm estado a usar métodos radicais muitas vezes. “A forma como elas foram retiradas é pouco ética e as que conseguiram espaço no vulgo mercado da “chapada” são menos de 300 vendedoras”, disse.
No meio de reclamações e lamentos de quem se vê prejudicada com a medida de dispersão vem a “boa nova” que haverá mercado para todos os que quiserem vender em locais ordeiros. A medida do Governo visa ordenar o comércio e elevar os contribuintes fiscais.