Oual a sua visão sobre a organização contabilística das empresas nacionais?
As empresas nacionais utilizam a contabilidade apenas para efeitos fiscais. Sabendo que a legislação fiscal obriga as empresas a terem contabilidade organizada (Grupo A ou B), os gestores na maior parte das vezes preocupam-se em cumprir com os pagamentos dos impostos dentro dos prazos estipulados e com a apresentação do relatório anual de contas (Modelo 1) em Abril ou Maio.

A falta de contabilidade é suficiente para travar os processos de admissão das propostas de crédito feitas aos bancos?
Com certeza. Os bancos precisam que as empresas candidatas a crédito possuam uma contabilidade organizada com um historial de 3 anos pelo menos, para que se possa fazer uma análise económica e financeira das empresas. Além das garantias reais e não reais exigidas pelos bancos, as instituições financeiras precisam de analisar a estrutura de custos da empresa, nível de solvabilidade, prazo médio de recebimento de clientes, análise de tesouraria por rúbricas financeiras (Investimento, financiamento e operacional) e outros indicadores. Toda a informação supra citada só é possível com uma escrita organizada e uma gestão eficiente que produza relatórios financeiros.

Que ferramentas de gestão deveriam ser operacionalizadas para dar estabilidade às empresas?
Uma das grandes lacunas nas empresas nacionais é a pouca utilização de programas informáticos devidamente certificados para processar a informação financeira. Os gestores ainda encaram esta ferramenta como um custo e não como investimento, o que dificulta a análise de informação financeira em tempo real. Informações como, valores a receber de clientes e valores a pagar a fornecedores, níveis de stock e prazos de validade, salários processados e devidos descontos, investimentos em equipamentos e balancetes contabilísticos, só são obtidos no final de cada ano. Esta prática não permite que o gestor tome decisões importantes em tempo oportuno.Outras ferramentas pouco utilesizadas são o planeamento financeiro através de um orçamento e marketing. Enquanto que uma empresa sem orçamento anda ao sabor do vento, sem ter meios de se proteger contra adversidades, a falta de marketing torna a empresa desconhecida perante o mercado, dificultando o crescimento da mesma.

As actuais taxas tributárias ajudam as empresas nacionais?
Neste momento temos uma carga fiscal elevada, o que dificulta a obtenção de lucros e investimentos por parte das pequenas e médias empresas (PME). Compreendo a necessidade do executivo em obter maior receita fiscal para fazer face às necessidades da população, mas não nos podemos esquecer que as PME empregam a maior parte da população e são o motor da economia nacional. O Executivo deve criar um ambiente de negócios favorável que permita as PME obterem rendimentos de forma sustentável, pois só com lucros e rendimentos é que poderemos pagar impostos.

De que forma as empresas estrangeiras deveriam operar no mercado interno?
As empresas estrangeiras devem operar no nosso mercado, respeitando as leis do país. O Executivo deve também criar condições no sentido de proteger os recursos humanos nacionais que trabalham nestas empresas. Devemos criar mais leis que permitam aos quadros nacionais obterem toda a formação necessária por parte destas empresas, evitando deste modo o excesso de trabalhadores expatriados no nosso país.

Como é que vê a organização das empresas e seus gestores no que respeita a fiscalidade?
Devido a reforma fiscal em vigor desde 2015 e a maior agressividade da Administração Geral Tributária (AGT) na cobrança de impostos, os gestores angolanos ficaram mais sensibilizados com a necessidade de pagar impostos. O perdão fiscal que houve em 2012, permitiu também as empresas reverem os seus planeamentos fiscais e programar melhor o pagamento de impostos. A conjutura económica e o ambiente de negócios neste momento é bastante adverso, dificultando o pagamento de impostos dentro dos prazos estipulados, devido a falta de liquidez. Os gestores no final de cada mês têm sempre três despesas inevitáveis (Impostos, salários e custos operacionais); a decisão de qual deve ser pago primeiro, tira o sono a muitos empresários.