A falta de autonomia financeira de muitas mulheres em Angola e não só, a crescente desigualdade de mulheres em relação aos homens e os casos de mulheres que se endividam para fazer compras supérfluas, levaram a especialista em Economia e Gestão de Complexos Agro-industriais, Natália Silva, a pensar na criação do Contas no Feminino.
O dia-a-dia de Natália Silva tem sido orientar muitas mulheres no país a terem maior responsabilidade e cuidado com as suas finanças. Desde a sua criação, há aproximadamente dois anos, várias mulheres já foram contempladas com as suas acções de formação, feitas por meio de consultorias, treinamentos, acompanhamentos e outras acções.
Em entrevista ao Jornal de Economia & Finanças, Natália Silva falou do seu percurso com finanças, e as grandes razões que a levaram a criar o seu projecto.
Durante alguns estudos que realizou em Angola, a economista revelou que identificou mais de 40 principais problemas financeiros que enfrentam as mulheres angolanas, entre os quais a falta de educação e orientação financeira, que na sua perspectiva, afigura-se como uma das principais razões.

O que é o Contas no Feminino?
Na verdade, é uma iniciativa de empreendedorismo social que ajuda, orienta e encoraja as mulheres a tomarem maior responsabilidade na sua vida financeira. Por meio disso, desenvolve-se algumas acções como palestras, cursos, workshops, seminários, todos voltados à Educação Financeira para as mulheres.
O Contas no Feminino também está voltado a orientar mulheres na criação de pequenos negócios, para o seu empoderamento. Para aquelas mulheres que já trabalham, o Contas no Feminino orienta a terem uma renda extra, para o alcance da sua liberdade financeira. E para aquelas que não trabalham, orientamos no fomento de pequenos negócios.
Educamos igualmente as mulheres a terem maior noção de como economizar o seu dinheiro, cortar despesas desnecessárias, evitar endividamentos, entre outras acções.

Como foi que surgiu a iniciativa ?
A história em parte tem muito a ver com a forma rigorosa com que via e ouvia a minha mãe a falar e a fazer com o dinheiro. Isto fez com que ao longo da minha vida, estabelecesse uma relação cautelosa com o dinheiro.
Mesmo já adulta, quando conversava com algumas mulheres, entre amigas, familiares e colegas de trabalho, sobre a vida financeira delas, percebia que eram descuidadas com as suas finanças.
Escutava as seguintes frases. “Ah, ganho pouco, não consigo poupar”, “Gosto de comer e vestir-me bem”, “Eu não sei investir”. Isto deixava-me perplexa e a reflectir bastante.
Por outro lado, outros factores que me motivaram a criar este projecto foi o facto de que em 2003 e 2004, fui co-autora de um estudo que decorreu nas províncias de Luanda, Benguela e Zaire, sobre a “A vida sócio-económica das pessoas da terceira idade”, e concluiu-se que as mulheres eram mais vulneráveis.
Umas porque atingiam a terceira idade como domésticas, outras porque não chegaram até ao fim da carreira no funcionalismo público, deixaram de trabalhar muito cedo.
O facto também de, por razões pessoais, ter vivido em São Paulo, no Brasil, durante três anos, foi um aprendizado e tanto, para controlar os gastos criteriosamente, diante das tentações brasileiras de consumo, precisava ser fiél ao dinheiro que a minha família me enviava, afinal eu não tinha nenhuma fonte de renda.
Aliando os meus conhecimentos e especialização na elaboração e avaliação de projectos de investimento no âmbito do Banco Mundial, em micro-finanças, economia, contabilidade e experiência na geração de pequenos negócios, achei que era hora de pôr em acção este projecto para ajudar as mulheres em Angola.

Qual é a importância de buscar uma consultoria financeira?
São inúmeras, pois que ela orienta, acompanha e ajuda bastante na questão do auto-conhecimento, planeamento e disciplina para uma boa vida financeira.
Até para as mulheres que praticam pequenos negócios, elas podem solicitar uma consultoria financeira. Mas temos aqui um grande problema, muitas mulheres acham que a consultoria financeira vai cobrar-lhes muito dinheiro ou intrometer-se na sua vida financeira, e outro problema mais grave ainda é que não existe a cultura das mulheres solicitarem orientação e consultoria financeira, comparativamente aos homens. E nós pretendemos igualmente educar as mulheres neste sentido.

Será que procurou alguma consultoria para fazer a abertura deste projecto?
Sim, tive inúmeras consultorias e mentorias de “experts” angolanos e estrangeiros de várias áreas. Entre elas, economia, gestão, finanças pessoais e empresariais, coaching, inteligência emocional, programação neurolinguística e tantas outras.

Pode apontar algumas das razões que levam muitas mulheres a continuarem a viver em condições de dependência financeira?
Sim, e são várias, das 40 razões identificadas vou enumerar as que mais contribuem para essa situação. A falta de aconselhamento financeiro, a falta de planeamento na economia doméstica, a falta de hábito de economizar, os gastos supérfluos e desnecessários, entre outras razões.

Que importância vê no fomento de pequenos negócios para as mulheres?
Os pequenos negócios são bastante importantes, porque eles ajudam as mulheres a terem uma renda extra, mesmo aquelas que já trabalham devem aprender a importância de praticar pequenos negócios.

Qual é a importância do planeamento na economia doméstica?
A economia doméstica deve ser organizada, pois tem um peso bastante significativo nas famílias. As contas de casa devem ser muito bem calculadas. Os gastos com água, alimentação, energia eléctrica, transportes, recargas telefónicas e outras, devem ser bem organizadas, e na maior parte das famílias, são as mulheres que cuidam destes orçamentos, por isso, a nossa intenção é despertar as mulheres a lidarem melhor com as finanças.

Quando conversa com as mulheres, quais têm sido as grandes preocupações no que toca ao dinheiro?
Inúmeras, mas há uma grande preocupação, que é a falta de hábitos de poupança. Já vi casos de mulheres com salários avaliados em mais de 400.000 que dizem não conseguir fazer poupança, preferindo ficar na sua zona de conforto. E para dar solução a problemas desta natureza, são necessários vários esforços, onde o primeiro passa por alertar as mulheres a auto-conhecerem-se e quebrar as crenças limitantes sobre o que ouviam na infância a cerca do dinheiro.

Perfil

Idade: 57 anos.

Estado civil: casada.

Formação: Mestre em Economia e Gestão de Complexos Agro-industriais.

Carreira profissional:Natália Silva já foi chefe do Departamento de Estatística do Comércio Externo no Instituto Nacional Estatística (INE) de 1994 a 1999.  Também é co-fundadora e pesquisadora no Instituto Angolano de Pesquisa de 2000 a 2005, na vertente de investigadora socioeconómica.
De 2007 a 2014, dedicou-se à docência universitária.