Num contexto de crise igual ao que Angola está a viver, com fortes sinais de uma actividade industrial em desaceleração nos últimos anos, com taxas de crescimento negativas, como o reflexo do baixo nível de produção diante da dificuldade de importação de matérias-primas, assessórios e equipamentos, o JE, nesta perspectiva, procurou ouvir Claudmir Vaz Lopez, especialista em Gestão e Administração Pública, e autor do livro Inovação Industrial: na micro, pequena e média empresa, para saber como as organizações podem pôr a inovação ao serviço da substituição de insumos e inputs importados pelos de produção local.

O que é a inovação industrial e que diferença faz às empresas nos dias de hoje?
A inovação industrial é a implementação de um bem ou serviço novo ou melhorado, quer no produto ou no processo. Pode ser ainda, em muitos casos, um novo método organizacional ou de marketing, que constitui nos dias de hoje o factor crítico para o crescimento e a sobrevivência de muitas empresas e das economias de um modo geral.

Como acha que as empresas devem aproveitar a inovação para maximizar as suas actividades e os seus lucros?
A inovação é toda alteração gradual ou radical que ocorre a nível da concepção do produto, do processo, do marketing ou organizacional que traga à empresa ganhos financeiros, eficiência produtiva ou alteração do posicionamento da empresa no mercado. Nesse sentido, a melhor forma de maximizar as suas actividades com base na inovação, é por meio da adopção de uma cultura organizacional virada para a produção de ideias inovadoras. Isso implica criar condições para que todos os funcionários possam contribuir para a melhoria dos processos críticos da empresa, por um lado e por outro, a interacção com as principais fontes de produção de novas coisas e ideias geradas dentro e fora da empresa.

E que diferença faz às empresas actualmente?
Os investimentos em inovações são sem dúvidas, essenciais para a promoção da imagem de uma empresa além da actualização no mercado. Uma empresa que não se actualiza e não inova costuma produzir sempre o mesmo do mesmo jeito, desta forma não expande o público alvo e torna-se banalizada e ultrapassada.

Somos um país subdesenvolvido do ponto de vista industrial e tecnológico. Como reverter essa situação?
Não temos voltas a dar senão abraçarmos o caminho da formação intensiva do nosso capital humano, privilegiando a formação técnico-profissional com a introdução de algumas metodologias, tais como a construção de protótipos e engenharia reversa para mudar o quadro vigente. Como dizia Adam Smith, a especialização do factor humano através do aprender-fazendo traz consigo o crescimento económico, aumentando o produto por trabalhador. É desta forma que países como a China e Índia crescem todos os dias.

Qual deve ser o papel do Estado no processo de inovação?
Deve-se olhar para a inovação como um sistema onde intervêm vários actores e cada um deles com o seu papel específico, nomeadamente as empresas, as instituições de ensino e de investigação científica e o próprio Estado claro, à quem cabe o papel de providenciar e fomentar a inovação como factor principal de crescimento da economia através de criação de condições para que haja capital humano preparado nas áreas técnico-profissional. É preciso que haja investimento sério neste sentido, com a criação de pacotes de financiamento em projectos de investigação científica, que visem solucionar os problemas sociais, e de fomento ao surgimento de estruturas de apoio empresarial que olham para esta questão como factor de desenvolvimento industrial.

Quase todas empresas angolanas não têm orçamento para a Inovação. Por que as nossas empresas inovam pouco ou quase nada?
A questão de inovar muito ou pouco é relativo. Porque há realmente alguma inovação a nível das empresas, apesar de ser mais dirigida à inovação em marketing organizacional e de processo, através da concessão de licenças de equipamentos e outras vias. Mas a nossa atenção deve recair para o que as empresas em Angola fazem para chegar à inovação. Ela é consequente ou acidental? E se nos orientarmos por aí veremos que poucas empresas têm a inovação como consequência e por conseguinte não dedicam orçamento nem outros recursos para a inovação. Nesta obra trazemos uma observação aos indicadores de inovação, que significa aquilo que as empresas fazem para inovarem.

Elas também não aproveitam os inventores nacionais. Por que será?
Acho que a questão deve ser colocada de forma contrária, por que os inventores não conseguem convencer as empresas? Para dizer que as empresas estão viradas para o negócio, este deve ser o mesmo princípio que os inventores e criadores devem seguir, desenvolver as suas obras com foco no mercado, propondo soluções para problemas locais concretos.

Num contexto de crise, quais são os feitos mais recomendáveis?
O recomendável é pôr a inovação ao serviço da substituição de insumos e inputs importados pelos de produção local. É tão simples assim? Obviamente que não, mas é aqui que é chamada a intervenção dos órgãos competentes do Estado. E para os empreendedores é uma oportunidade de virarem a sua produção para as necessidades reais que o mercado industrial oferece. Agora, é preciso que as empresas invistam forte e sério na inovação industrial para maximizar os lucros.