Angola tem se revelado um viveiro de talentos em várias áreas do saber. A capacidade criativa, inventora e inovadora dos angolanos, tem sido patente em eventos de cobertura nacional e internacional. Silvestre Cassa Iombo, jovem engenheiro de petróleos, natural da província de Cabinda e formado nos Estados Unidos da América, inventor da calculadora digital OFC-2000, com aplicação no mercado petrolífero, fala em entrevista ao JE.

Explique-nos de que forma inventou a calculadora?
A nossa calculadora é designada OFC 2000. É para projecção de infra-estruturas petrolíferas e estimação de custos. Após a descoberta de um jazigo de petróleo, os dados geológicos precisos como reservas são introduzidos na calculadora que logo a seguir faz um perfil de produção e depois estima o número de poços que precisam de ser perfurados.
Seguidamente, a calculadora estima de forma rápida os custos de perfuração, de instalação de produção após projectada, para fazer o processamento do óleo. A nossa calculadora faz tudo isso num curtíssimo espaço de tempo. É uma invenção que temos patente com a qual o país só tem a ganhar.

O que lhe levou a desenvolver esse projecto?
Desenvolvi o projecto porque percebi que a tomada de decisão era muito morosa e havia então a necessidade de se criar uma calculadora que fizesse cálculos rápidos , ou seja, fácil de uso e cálculos rápidos. É evidente que existem outros softwares que fazem isso, não discordo, mas a minha é a primeira calculadora, pois serve para a estimação rápida.

A calculadora é mesmo uma invenção e não uma inovação?
Com certeza é uma invenção porque é o primeiro produto do género.

Qual tem sido a receptividade dos agentes envolvidos no sector petrolífero?
Já tivemos algum apoio do executivo. É de louvar o Senhor Presidente da República que nos deu algumas luzes. No entanto existem desafios junto das petrolíferas em reconhecerem a validade do produto porque eu sou angolano. Veja que estivemos numa grande multinacional, onde fizemos os cálculos e foram exactamente iguais aquilo que eles tinham na sua base de dados. Eles tiveram muita dificuldade em acreditar nos dados, mas contra factos não há argumentos, e esta invenção vem provar que os angolanos são capazes de fazer coisas louváveis.

Que outras vantagens oferece a calculadora?
Uma das grandes vantagens é o facto de ter linguagem portuguesa, o que é raro na industria petrolífera. É evidente que também tem opção inglês, logo a barreira da língua está fora de questão.

Teve alguma experiência anterior no campo profissional que lhe impulsionou a criar o projecto?
Sou engenheiro sénior na área petrolífera. Tenho uma empresa constituída que opera no mercado. Nos Estados Unidos onde estudei há dezoito anos atrás, na Faculdade de Engenharia de Petróleos em Luziana, foi onde comecei a materializar a ideia. Quando cheguei cá e fui integrado em vários projectos de desenvolvimento de um campo, comecei a desenvolver habilidades para o fazer, pois que já tinha a ideia concreta do que queria. Eu tenho experiência multissectorial como no domínio de reservatórios, infra-estruturas petrolíferas, equipamentos de produção, todo esse adequado, fui adquirindo dentro das petrolíferas. Foi o acumular de toda essa experiência que evidenciou a criação dessa calculadora.

O que fez com que até agora o projecto não tenha merecido acolhimento principalmente das empresas angolanas?
Eu quero fazer um apelo ao nosso Executivo que só tem a ganhar. Nós estamos a acolher tecnologia de fora e investidores. Mas temos aqui um inventor que tem capacidade e que criou algo que pode incentivar os investidores a virem para o país.

A utilização de meios técnicos locais ajudaria as empresas a diminuir custos?
Com certeza. Comparado aos equipamentos estrangeiros, a nossa calculadora proporciona uma economia considerável. Para uma licença de um ano o nosso preço ronda os 50 mil usd, o que não representa nada comparado aos cerca de 200 mil usd cobrados para a utilização de equipamento estrangeiro. Se considerarmos que o equipamento vai ser usado para fazer cálculos de dois ou três biliões de dólares, o custo é até irrisório.

A patente está já registada?
Estamos neste momento no fim do registo da patente.

Para quando a exposição da calculadora em feiras internacionais?
Nós pensamos ir para a OTC (Offshore Technology Conference) este ano, escrevemos para a Sonangol e para o executivo mas não fomos nem tidos nem achados. Não recebemos qualquer tipo de ajuda o que condicionou a nossa participação nessa feira internacional de engenharia, evento em que seríamos os primeiros angolanos a marcar presença.

A Angotic não seria a montra ideal para mostrar a OFC-2000?
Já pensamos nisso. Estamos a trabalhar no sentido de participarmos na exposição mas os custos são muito altos. Tentamos junto da organização negociar na base da troca de serviços. Nós desenvolvíamos uma calculadora para gestão de eventos e em contrapartida teríamos abertura para participação nas feiras, mas infelizmente a nossa proposta não foi aceite.

Qual tem sido a participação do Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação no apoio e divulgação do projecto?
Em 2017, nós tivemos uma audiência com a anterior ministra para mostrar a nossa aplicação, mas fomos simplesmente ignorados. Recorremos igualmente ao Ministério da Indústria que também nos abandonou alegadamente por falta de dinheiro.

Uma das grandes dificuldades dos inventores angolanos é a industrialização e comercialização dos produtos. O que nos pode adiantar?
Eu tenho muitas reticências em relação ao desenvolvimento desse país se continuarmos assim. Para alavancar a economia, é necessário que o angolano confie no outro angolano, o que infelizmente não acontece. Eu se fosse europeu, a história seria outra, mas como sou angolano criam barreiras. Temos que mudar a consciência para desenvolver o nosso país.