A renascer dos efeitos demolidores da guerra que durante décadas assolou o país, a província do Bié, uma das mais destruídas, aposta hoje fortemente no incremento da agricultura e da indústria, no sentido de tornar real o slogam de que a primeira constitui a base e a segunda o factor decisivo do desenvolvimento económico e social de Angola.

Os esforços em curso e os projectos existentes visam, em primeiro lugar, a garantia da segurança alimentar das populações, através da produção de bens agrícolas de consumo imediato, bem como do processamento industrial dos excedentes. Numa perspectiva de médio e longo prazo, a intenção é produzir igualmente para a exportação dos produtos do campo, num esforço de diversificação das fontes de receitas e criação de renda para os produtores.

Vale sublinhar que, no que à agricultura diz respeito, antes da independência, a província do Bié contribuía grandemente nos esforços com vista à conquista da auto-suficiência alimentar no país. Nessa altura, as exportações agrícolas angolanas representavam cerca de 60 por cento, e eram compostas fundamentalmente de café (48), sisal (5) e milho (2), além de vários outros produtos alimentares, como banana, tabaco, algodão, feijão, açúcar e óleo de palma.

Já no período da independência nacional e ultrapassada a guerra que fustigou o país, o Governo da província do Bié pretende que a região retome a produção de alimentos em grande escala, com a mira da exportação dos excedentes, logo que esteja garantida a segurança alimentar interna.

Produção de arroz

Uma das primeiras apostas do Governo local, além do milho e o feijão, passa pelo incremento do investimento privado na produção de culturas praticadas em pequena escala e de alto rendimento comercial, como o arroz e o café.

Estima-se que o Bié possua uma média de 5.700 hectares de área cultivável de arroz nas localidades do Rigoma, em Camacupa, Chitembo, Kuemba e Chanhora, no Kuito. O Governo provincial lançou um repto de incentivo da produção de arroz, numa área de cerca de 900 hectares, no município de Camacupa, além de outros 400 hectares em cultivo, a cargo dos camponeses das diferentes localidades da região.

Assim, 50 hectares estão a ser trabalhados no município do Kuemba, numa produção experimental promovida por técnicos da Direcção Provincial da Agricultura do Bié. A acção visa apoiar tecnicamente os camponeses, que, utilizando a tecnologia tradicional, apenas colhem uma tonelada de grão por hectare cultivado, quando podem chegar aos cinco mil quilogramas, com métodos e técnicas mais modernas.

Em entrevista ao JE, o director provincial da Agricultura, Desenvolvimento Rural e das Pescas, Marcolino Rocha Sandembo, disse haver empresários e instituições interessados na produção de arroz. A fonte acrescentou que, para o sucesso do projecto, é necessária a criação de estruturas integradas, para se levar a cabo a produção de uma forma sustentada.

“Os camponeses já estão a produzir quantidades consideráveis de arroz, o que falta é o mercado para a absorção do produto”, disse o responsável. Segundo ele, muitos camponeses se alimentam quase exclusivamente de arroz e o excedente fica armazenado em silos com poucas condições de conservação.

Marcolino Sandembo defende a instalação de uma pequena indústria na província para o processamento e transformação de arroz, com vista a proporcionar uma qualidade aceitável do produto tirado do campo.

Preparados 350 mil hectares para a produção de milho e feijão

Para este ano, está prevista a colheita de 578 mil toneladas de milho e 348 mil de feijão, como resultado de 350 mil hectares preparados para o cultivo nesta campanha agrícola.

Ao mesmo tempo que foram distribuídos pela província mais de 100 técnicos médios e superiores para prestarem assistência técnica aos camponeses, 408.506 famílias beneficiaram de materiais agrícolas.

As autoridades governamentais provinciais avaliam que, com a assistência técnica, os camponeses estão a colher bem melhor que anteriormente, chagando mesmo às duas toneladas de grão por hectare.

Além do milho e o feijão, a província também é uma grande produtora de bata rena, alimento de que se espera este ano uma colheita de mais de um milhão de toneladas.

Produção de café

A província está a incentivar a produção do café, sobretudo a variedade “mabuba”, nos municípios de Andulo e Nhareia, numa área de 250 hectares. No âmbito do programa, foram distribuídas três mil mudas de café aos produtores da aldeia de Lucucu, no Andulo. As estimativas apontam para uma colheita de cerca de 100 toneladas do grão.

O problema reside no facto de muitos produtores não encontrarem formas de escoamento do produto do campo, situação agravada com os baixíssimos preços praticados. Dados disponíveis apontam no sentido de que todos os anos se estraguem no campo cerca de 30 toneladas de café.

Aliás, a falta de mercados não afecta apenas a produção cafeícola. O mesmo sucede com outros produtos, como as hortícolas, batata rena e cenoura. Calcula-se que 500 toneladas se deteriorem anualmente, devido a inexistência de compradores e de meios para a sua transportação para os maiores centros de consumo. Para tentar minorar as perdas, as autoridades governativas locais criaram mercados rurais ao longo das estradas, onde os camponeses vendem a sua produção.

O Bié conta com 216 criadores de bovinos, 350 de caprinos e cerca de 500 de suínos, sendo que, ao todo, a densidade animal provincial está estimada em mais de um milhão e 500 mil cabeças.

Na perspectiva de se aumentar a carne, o Governo vai construir um centro de produção e multiplicação de aves no município de Catabola, num financiamento do Fundo de Apoio ao Desenvolvimento Agrícola.

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