Numa altura em que cresce a corrida para a obtenção da casa própria, em Luanda há condomínios construídos há mais de 10 anos mas quase “desabitados”.
É o caso do imponente condomínio “Acquaville Residencial”, localizado na Avenida Pedro de Castro Van-Dúnem “Loy”, em Talatona onde, apesar da sua arquitectura despertar a atenção de quem circula por aquela área, está praticamente às “moscas”.
De pintura acastanhada, o “Acquaville Residencial” tem oito torres, com 128 apartamentos. A sua área total oscila entre os 212 e os 500 metros quadrados.
A desocupação inquieta ainda mais quem procura por uma casa para morar, como cantou um músico da praça: “já fiz todas as diligências para comprar uma casa para morar e compor o nosso lar”.

Lisura


De longe se nota a desocupação do condomínio. Não passa despercebido pois por aí todos circulam, quer no sentido centro da cidade, quer para o “Patriota” ou mesmo Kilamba. Até mesmo para quem viaja para o Sumbe ou Benguela. Ou seja, um projecto habitacional bem localizado. Num lugar apetecível para viver. Mas a vontade não se sobrepõe a realidade. Conseguir aqui um apartamento é um bico d’obra, como alguém desabafou quando por lá passámos para mais anotações sobre à realidade destes conjunto de casas luxuosas.
“Há casas fechadas, enquanto muita gente nem um quarto tem... Quem é o dono deste condomínio?, alguém nos pergunta.
Depois conta a sua história. Disse que se inscreveu para o Zango 5 e soube que a estrelinha da sorte não cintilou para o seu lado, dado o número elevado de candidatos. Mostra algum constrangimento e suspeição relativamente à lisura do sorteiro.
A solução dele não passa pelo “Acquaville”, a julgar pelo valor das casas e os critérios de pagamento. Entretanto, de algumas varandas avistavam-se roupas estendidas, o que se presume que já tem alguns moradores. Soubemos que há alguns apartamentos ocupados, mas o pouco movimento, o silêncio receoso, leva a pensar o contrário. Quem são e como lá tiveram acesso à “chave da felicidade”?
Para ter acesso ao interior, nada pareceu fácil. Há segurança à entrada, mas pouco ou nada para satisfazer imediatamente à curiosidade ou mesmo o interesse. Dos engarrafamentos constantes, nas primeiras horas da manhã, para quem quer chegar ao trabalho, no centro de Luanda, o pensamento se remete para uma casa cada vez mais próximo do emprego, quando muitos condomínios exibem o “troféu” do insucesso em termos de ocupação. Grosso modo, estão “às moscas”. Quer se queira, quer não, os factos falam por si. Há casas a fartura em Luanda. Mas os seus preços proibitivos afugentam. Não há bolso para uma tabela carregada em termos de preços.
A vontade invade quem por aí passa. Mas não basta para lá chegar e ocupar um apartamento. Enquanto uma solução tarde a chegar, a opção continua a ser o arrendamento. Por exemplo, no KK-5000, um apartamento pode chegar a 80 mil. Como é sabido, esta parte do Kilamba não tem serviços sociais. Não há lojas, não há espaço de lazer, nem hospital.
Disse em tempos alguém de que o KK-5000 é um verdadeiro domitório. Para comprar algo, como saldo para telefone tem de se percorrer distância ou ir ao Kilamba, nas loja do “mamadou. Para tal, tem-se de recorrer a um táxi. Sem dúvida, como assumem os seus moradores: é um pesadelo viver no “Kapakapa”.

Acquaville Residencial


Não ficámos por aqui. Aliás, o nosso interesse é trazer histórias sobre os condomínios (quase) vazios que ornamentam Luanda. Num verdadeiro contraste entre o exitente e a incapacidade financeira de obter uma casa. Num contacto telefónico com a sua direcção o JE apurou que a renda de um apartamento T3 pode ficar entre 250 e 400 mil kwanzas.
De resto, é arrumar as coisas e partir para uma vida de sonho, não da casa própria.
A venda de um apartamento custa entre os 60 e 100 milhões de kwanzas.