A paragem prolongada da chuva que a província do Cunene está a viver desde o início da campanha agrícola 2014/2015 pode comprometer em grande escala, a colheita de cereais na região, quando parte significativa dos camponeses empenhou-se ao máximo, no cultivo para combater à fome e eliminar a dependência de apoios.

Há pouco menos de um mês para o final da presente época chuvosa, entre a população camponesa, reina um clima de desespero, devido ao panorama de seca que as lavras apresentam, assim como o próprio tempo, para quem ainda pense em repetir a
sementeira caso chova.

Para a maioria dos camponeses só mesmo um milagre pode reverter o quadro sombrio das lavras.
Nos últimos dias a falta de chuva e as consequências que dela se podem esperar dominam as conversas da população da província, já que grande parte desta vive do campo.

Populares apreensivos
Na povoação de Oipembe, a cerca de 15 quilómetros de Ondjiva, o JE constatou um ambiente que reflecte o prenúncio de fome generalizada, onde a imagem de cartaz são lavras com culturas ressequidas e vastos campos limpos, ou seja, não foram a tempo de serem lavrados ou semeados.

Enquanto aguardam pela chegada da chuva ou por aquilo que será o destino das suas lavras a população diverte-se com o fabrico de omaongo, uma bebida tradicional da época bastante apreciada, extraída do fruto de uma árvore denominada “omwongo”.

A bebida é preparada e depois bem conservada num moringue, um recipiente de barro, para a sua fermentação durante dois ou três dias.

O líquido é depois comercializado, e com as receitas compram alimentação. Hilária Kashululu, uma anciã de Oipembe assinalou que a chuva desta época está a cair pouco, e referiu que na altura que ela começou a semear massango esta desapareceu sem dar chances de continuar com o trabalho.

Falta de chuva
Nos meses de Janeiro e Fevereiro, período próprio da chuva também não caiu o suficiente que permitisse efectuar a lavoura.
Do seu campo de aproximadamente três hectares, apenas conseguiu lavrar metade, grande parte sem ter germinado porque, lançou a semente na terra e a chuva sumiu. Já a outra parte germinou e atingiu uma certa altura, mas devido o sol intenso secou completamente.

Esforços empreendidos
Em Oipembe o cenário das lavras é de total desespero, e muitos camponeses não pensam noutra coisa se não começar a lançar os gritos de socorro à sociedade. Para eles o esforço foi praticamente em vão.

Bonifácio Manuel, outro camponês da mesma localidade, adiantou que na presente campanha apenas conseguiu lavrar aproximadamente um terço da sua lavra.

Explicou que nos meses de Novembro e Dezembro conseguiu lançar algumas sementes na terra, mas até ao momento as culturas não desenvolveram e muito menos atingiram a floração.

Lavra do povo
Enquanto alguns camponeses alimentam esperanças de suas culturas se recuperarem do estado ressequido, numa altura em que as previsões indicam chuva nos próximos dias, já outros tiveram pior sorte.

Exemplos disso são as quinze famílias da lavra do povo, um grupo de camponeses associados, localizados nas imediações de Oipembe.

O campo dos associados, com aproximadamente oito hectares recebeu a sementeira de massango e milho em princípios de Fevereiro e os grãos nem se quer chegaram a germinar.

Inácio Kwatihimuno, chefe da lavra do povo, disse que a associação recebeu da Direcção Provincial da Agricultura 300 quilogramas de massango e milho, mas depois de terem lançado a semente, a chuva nunca mais se fez ao chão e tudo perdeu-se. Hoje a lavra é um simples descampado.

Relatos de falta de chuva e de lavras com culturas ressequidas vêm de vários pontos da província. Fernando Ndafaohamba, um camponês da comuna da Môngua, no município do Cuanhama afirmou ao JE, que a campanha agrícola na sua localidade está ameaçada porque caso não chova dentro de dez dias nenhum camponês vai colher.

O que anima a população do campo é que ate agora ainda existe água para o consumo das pessoas e do gado, já que das poucas vezes que choveu foi com intensidade, o que permitiu acumular boas quantidades de água.

Acompanhamento
A Direcção Provincial da Agricultura, através do seu responsável, já mostra preocupação face ao actual quadro da campanha agrícola 2014/2015.

Pedro Dinis Pacavira informou que no início da campanha a instituição que dirige distribuiu perto de 139 toneladas de sementes de massango, 42 de milho e 200 charruas aos camponeses.

O responsável da agricultura a nível da província disse que este ano a província conta com o envolvimento na campanha de aproximadamente 81.000 famílias.

“Muitas famílias não conseguiram lavrar todos os seus campos. Só neste momento já estamos a viver um período de mais de um mês sem chuva, o que é crítico para a agricultura”, pontualizou.

O responsável da Agricultura disse que até o município do Kuvelai que por natureza é a região da província mais chuvosa também está a viver um clima de estiagem. Referiu que naquelas paragens a chuva caiu com regularidade no princípio e as culturas do milho, massango e massambala atingiram certa altura, necessitando de água para darem produtos.

Pedro Pacavira apontou como solução da constante seca e fome na província a aposta dos empresários na agricultura de regadio em grande escala, já que a região conta com um rio de grande caudal, que é o rio Cunene.