Montes gigantes de terra extraída durante a escavação delimitam a zona ribeirinha de Nassengo, situada a mais de 80 quilómetros da cidade de Saurimo, na província da Lunda-Sul. Centenas de jovens agrupados debitam forças para compensar o esgotamento causado pelo difícil e delicado trabalho de exploração artesanal de diamantes, autorizada através da distribuição de  senhas, conferida durante o ano passado, pela Empresa Nacional de Diamantes de Angola (ENDIAMA E.P).

O arranhar das pás, ao cortar fracções de inertes, lançados de forma rítmica  para fora dos poços, as marteladas enérgicas sobre estacas feitas de ramos de árvores para estancar desabamentos e o roncar de uma moto-bomba ao sugar a água, quebram o silêncio no local, que em anos idos integrou o espaço de concessão da Sociedade Mineira de Catoca.

Dados indicam que a exploração artesanal de diamantes através da distribuição de senhas e concessão de áreas específicas, pela Endiama E.P garantiu emprego a mais de 700 pessoas, na sua maioria jovens. Segundo o director provincial da Indústria, Geologia e Minas, Gildo Massua, as 138 senhas distribuídas no início deste ano, correspondem à primeira fase da satisfação de centenas de pedidos, encaminhados à estrutura competente.

Em Nassengo, a exploração decorre num espaço equivalente a três campos de futebol, junto ao rio Chicapa. As escavações iniciam com a remoção de toneladas de inertes sobre uma camada virgem, depositados durante a abertura de poços já explorados. O afunilamento requerido para atenuar o desabamento desponta com o aprofundamento do poço.

Trabalho árduo  
Nawweji Celestino, 50 anos, controla um grupo de cinco jovens que desde o passado mês de Maio, recomeçou o trabalho de escavação  abandonado devido ao excesso de água e  “photo- photo” (lama) no tempo chuvoso. A extracção do cascalho marca a segunda etapa, antes da lavagem e escolha, para concluir o trabalho.

Sobre os meandros que envolvem a actividade de garimpo, o ex-militar das Forças Armadas Angolanas (FAA) aponta necessidade de experiência, rigor e paciência para transpor as dificuldades criadas pela estrutura do solo, humidade e outros transtornos, responsáveis por paralisações forçadas, com reflexos no aumento de despesas para o patrocinador do grupo, normalmente composto por quatro, ou seis pessoas.

Em circunstâncias mais complexas, acrescenta, usam técnicas paliativas que vão desde a preparação de estacas com mais de um metro, espetadas de forma vertical no fundo do poço e envoltas por capim, com o propósito de atenuar o desabamento e passagem de água.

Aposta
Há décadas nesta actividade, Manuel Zacarias patrocina um grupo instalado em Nassengo, para “tentar a sorte”, como fazia o pai, a quem “segue as peugadas”.

Com os rendimentos obtidos de apostas “bem sucedidas”,  no passado, Zacarias investe na educação dos filhos e criou condições para viver com dignidade.

Explica que Nassengo foi uma área rentável, descoberta por garimpeiros em incursões de pesquisa. A sua localização dentro da área de concessão afecta ao Catoca, viabilizou a restrição de acesso.

O potencial em diamantes avaliado durante a fase de prospecção, desencorajou apostas e propiciou a sua cedência à exploração artesanal que inicialmente atraiu centenas de cidadãos, mas a desilusão criada por alegada “esterilidade, é  atribuída à insatisfação dos sobas” que tutelam comunidades circunvizinhas.

É neste cenário de incertezas que o entrevistado investe, como quem “joga totoloto”, pois ganhar aqui é motivo para louvar a Deus”. Nas actuais circunstâncias propõe ao Governo a definição de um outro espaço para   incentivar aqueles que  com o suor do seu esforço encontram no garimpo a forma de garantir a sobrevivência.

A distribuição de zonas para a exploração artesanal, segundo Gildo Massua, resulta da comprovação da sua inviabilidade económica para a extracção industrial, em função do potencial diamantífero descoberto na fase de prospecção.

Em relação à localidade de Nassengo, o responsável do sector explica que foi no passado descoberta por garimpeiros, que realizavam pesquisas  à margem da lei, dentro duma concessão tutelada pelo Catoca. O fraco potencial do mineral na zona, propiciou a cedência, a muito cobiçada pelos garimpeiros que “agora alegam não terem sucesso nas escavações realizadas”.

Segurança e sorte
Decorridos mais de 30 dias, Francisco Martins ressalta a segurança vivida no local, onde o excesso de água e desabamentos atrasam o trabalho.

O futuro professor  trabalha pela primeira vez como garimpeiro, enquanto aguarda por uma oportunidade no mercado de emprego. Está consciente que o sucesso neste tipo de actividade depende de sorte, depois de ouvir várias histórias de insucesso, contadas por companheiros, “ mal sucedidos a mais de três meses”.

Mudanças
Desiludidos com os magros lucros conseguidos em nove anos de actividade como garimpeiro em Xamiquelengue, na Lunda-Sul, Sambuaji, em Kalonda,  na província da Lunda-Norte, Culacama Franscisco e Marcos Txicolassonhi, trocaram as pás por enxadas para praticarem agricultura nas localidades de Carteira e Sassuá, respectivamente.

O domínio das suas áreas de jurisdição poupou paragens para consultas sobre a via e permanências de garimpeiros em Nassengo.  Na sua voluntariedade como guias evidenciaram coragem na superação de obstáculos para possibilitar a continuação da viagem em picada esburacada,  por vezes lamacenta e invadida por capim alto, reflexo da
sua utilização ocasional.

Apontam injustiças praticadas por alguns patrocinadores na determinação de percentagens para efeitos de pagamento aos integrantes dos grupos, concluída a venda dos diamantes explorados. hoje com os produtos agrícolas colhidos garantem alimentação e resolvem vários problemas no seio das respectivas famílias.