Há “mil” oportunidades para se ganhar a vida. O gosto e avidez determina o ganho. Jovens, adultos e adolescentes sobrevivem engraxando sapatos, uns com local fixo para exercer a profissão, outros nem por isso. Verdadeiros guerreiros que de cima a baixo, giram a cidade à procura de alguém para “limpar” os sapatos. Para no fim, conseguir algum dinheiro e “aguentar” o tempo. O exercício não é fácil, requer muita paciência e astúcia.
Com um sentido de humor afinado, Florêncio Binga usa este dó para atrair a clientela. O seu ponto de trabalho está montado: É próximo a um número considerável de instituições do Estado e privadas. Por cada “graxa” cobra 100 kwanzas, inclusive há “kilapi”, para os clientes mais antigos.
Há três anos investiu 5 mil kwanzas para começar o pequeno negócio. Os lucros minimizam as preocupações em casa, mas não entra em detalhe dos valores que arrecada. Quanto é que facturas por dia? Com um sorriso irónico, “Kota dá para dar pão às crianças”, são ao todo,
três pessoas para sustentar.
Além de engraxar vende também cigarros e bebidas alcoólicas a seus colegas, cada pacote custa 200 kwanzas. “Gosto do que faço e vou continuar”. Florêncio pensa no futuro seguir um curso técnico para concretizar a intenção, está juntar um dinheiro, e passar o testemunho aos seu filhos “que tudo na vida tem um custo”.

factura
Ao lado, dois colegas com a mesma rotina diária, facturam a mesma quantidade. Contudo, grande parte do valor é gasto no consumo de álcool. Em plena manhã estão ébrios, “martelam” às palavras.
É terça-feira de manhã, um jovem calvo, Domingos Cupinga trajado de “Tshirt e Jeans” exala um “bafo” da bebida consumida, mas não pára de falar. Conta que, já chegou a facturar bem, porém nos dias de hoje, o negócio está tremido. Sem vacilar explica que há dias que não consegue
levar dinheiro para casa.Imediatamente foi reprovado pelo grupo de colegas, “Você bebe muito, é por isso que não levas nada”, desorientado pela
reacção dos jovens disse.
“Levo sim por vezes 2 mil kwanzas, mas estes dias não, os clientes aparecem pouco, mas o ganho maior é no fim do mês”, disse.
Alberto Francisco conta a mesma história. Ainda assim, dá para aguentar o “Game que está violento”, explica.
Na zona do Talatona, muitos jovens encontram neste negócio a sobrevivência. O investimento do material adquirido está calculado em 10 mil kwanzas, feito por um carpinteiro local. Grande parte do material é local, com excepção da pomada e a escova.
Um homem aparentemente na faixa dos 30 anos identificado por Ganguela, pratica este negócio há mais de 10 anos, o dinheiro que
recebe permite sobreviver.
Com os poucos recursos que ganha, além de alimentar a família, paga também a formação dos filhos
numa escola comparticipada.
As histórias não diferem do engraxador que todos dias de manhã tem a paragem dos taxistas na Centralidade do Kilamba, município de Belas.
Armando Capiri é um jovem que encontra também sustento na graxa, a paragem é o posto de trabalho.
Diariamente amealha uma quantia de 2 mil kwanzas.

Apoio
O Governo angolano em parceria com empresas privadas, construiram as chamadas “Paragens do brilho”, uma espécie de micro-cooperativas.
Um programa de inclusão social foi promovido pelo Governo Provincial de Luanda, que visou também o registo de engraxadores. O projecto consistiu na instalação de paragens com cadeiras de engraxar. Além das cadeiras, estes profissionais também foram apetrechados com fatos de identificação, passes e material de trabalho.
Calcula-se ter abrangido 40 pessoas voluntárias entre 15 e 42 anos. O programa teve início em 2010. Os profissionais beneficiaram também de equipamentos de trabalho em vários pontos da capital angolana.

Especialista

O economista Carlos Mango disse ao JE que para ser um bom empreendedor é preciso ter confiança no seu negócio e estar pronto para buscar o sucesso por um caminho que nem sempre é fácil.
Existem algumas características que são atribuídas aos empreendedores de sucesso e os engraxadores estão neste grupo. Dentre estas características, destaca-se a capacidade do empreendedor estabelecer metas e ser persistente.
Além destas, é importante que o empreendedor goste do ramo de actividade em que pretende iniciar o negócio. Segundo o especialista, empreender individualmente é mais simples que começar uma empresa ainda que seja de pequeno porte.
Tudo porque o micro-empreendedor individual exige menos burocracia para ser legalizado, pois representa menor custo em impostos e não necessita da contratação de trabalhadores, aluguer de grandes pontos comerciais ou complexas manobras operacionais. Porém, empreender é sempre um desafio. Ainda que as chances de alcançar o sucesso sejam fortes, é preciso estar preparado para obstáculos no caminho.
“É preciso gostar o que fazemos por exemplo, engraxar sapatos é necessário também não basta querer dinheiro”, disse.
O economista alerta para um maior apoio às pequenas profissões por constituir a sobrevivência de muitas pessoas.
“São as pequenas profissões que geram muita riqueza em muitos cantos do mundo. Temos de aumentar o apoio para crescer e criar um ambiente de trabalho eficaz”, frisou.
A criação de políticas que possam incentivar, atrair muita gente na prática de pequenos negócios são outras medidas avançadas pelo economista.
Desta forma, muita juventude pode deixar de envolver-se em delinquência e reduzir de igual modo o desemprego.
“Este papel envolve toda a sociedade, não se pode esperar que o Governo faça tudo. É errado”, disse. AE