I novação e vontade de superar as dificuldades da vida parecem caminhar de mãos dadas entre os angolanos. O alto custo de vida está a dar azo à criatividade, e consequentemente à fabricação de novos produtos caseiros para aliviar o bolso. A arte de saber fazer e reinventar novos negócios está a ganhar espaço a cada dia que passa. Será que é novidade? Talvez não!  Acontece que o nacional sempre foi preterido. Salvo a cerveja. A apetência para o importado sempre prevaleceu entre nós.
Mesmo  que, para isso, em alguns casos se possa correr o risco de consumir produtos  nocivos à saúde.  Assim acontece com as hortaliças, frutas, tubérculos,
bijuterias, detergentes e outros produtos. Às mulheres parecem estar entre os consumidores que mais absorveram as lições para ajudar os seus parceiros a gerir os poucos recursos que possuem. Por isso, o fabrico de detergentes está na mó de cima.

Kikuxi
No complexo residencial do Kikuxi, em Viana, diariamente, é fabricado quantidades elevadas de detergentes, que depois são embalados em 20 tigelas de 500 gramas. O produto é utilizado para remover gorduras em utensílios como a louça de cozinha, mosaicos, azulejos, casa de banho e  outros. Um pequeno espaço da residência
serve para a feitura do mesmo.
O negócio é de Conceição Brigith Lopes. Tudo começou há cerca de três meses, quando teve dificuldades para comprar detergente numa superfície comercial.
“Eu tinha uma ideia do preço, mas quando fui ao mercado o preço já tinha aumentado muito”, disse.
Professora de profissão, Conceição  Lopes preferiu aplicar os conhecimentos que tem e pôr em prática. Investiu cerca de kz 9 mil para comprar a matéria-prima. Daí arregaçou as mangas e pôs a mão na massa. Nunca mais parou. Aquilo que inicialmente seria de consumo caseiro, tornou-se num produto procurado e consumido por muita gente. Mas para que o projecto vincasse, juntou a ela mais quatro colaboradores, que fazem as compras e distribuem as encomendas aos mais de 20 clientes que solicitam o detergente “Brigith”.
Uma tigela de 250 gramas, custa  kz 500. O mesmo produto nas superfícies comerciais custa kz 2 mil, isto é, três vezes mais que o nacional.  A proprietária conta, que prefere que os clientes solicitem os produtos, façam uma comparação com os dos super mercados.
“Nada a perder, o nosso tem muita qualidade”, dizem.
Como diz o velho ditado “querer é poder”, a empreendedora pretende aumentar a produção  e alargar o número de clientes. Mas há barreiras; e ineficácia no sistema administrativo e da banca  no que toca ao financiamento.
“A nossa banca não facilita, não potencia  as iniciativas privadas para estimular a economia e garantir o alargamento da base tributária e gerar mais empregos. Nos serviços administrativos para tratar os documentos é preciso cumprir longas e lentas filas no atendimento”.
Sinais positivos para a mesma direcção são ouvidos amiúde todos os dias. No interior há muita gente a caminhar para a invenção e inovação.Todos evocam os mesmos problemas, diz a fonte.
A inversão do actual quadro produtivo e económico, e a empregabilidade passam, segundo a empreendedora, por mais investimento e acompanhamento por todas às instituições.
Colaborador
Valdemar Afonso faz parte da equipa que trabalha no projecto. Com os recursos que recebe vai ajudar a familiar na compra do material escolar e outras necessidades básicas do jovem.
“Este projecto vem valoriza a produção e a criatividade. É preciso que haja mais empreendedores para tirar do desemprego milhares de jovens, que neste momento procuram uma oportunidade para vencer dificuldades”.

Consumidora
Edith Matilde faz parte da rede de clientes no Kikuxi. Considera os produtos de qualidade “deixam bem limpa a nossa casa, a louça fica sem gordura e acho-os muito seguros”.
“Eu deixei de ir ao supermercado desde que descobri que  aqui no complexo há produtos desta natureza a preços baixos. Ou seja,  menos mil e 500 kwanzas do que nos supermercados. É preciso valorizar o que é nosso”.
Há bolso para todos “Aqui o preço é relativamente baixo, acho que é preciso apostar no nosso”
Segundo apurou o JE, há informações de que em Angola, com base no óleo de frituras de alimentos, muita gente na sua maioria mulheres produzem sabão artesanal.
Calcula-se que, em 25 mil e 673 mulheres nas zonas rurais e peri-urbanas nas províncias do Bengo, Cunene, Cabinda, Cuanza Sul, Cuanza Norte, Cuando Cubango, Huíla, Huambo, Luanda e Cunene, produzem sabão artesanal.

Apelo ao apoio

Alguns estudantes de economia  defendem que se deve incentivar mais o apoio à economia real. Para os académicos, o desemprego em Angola pode reduzir substancialmente com a existência de políticas mais interventivas.
Joaquim Cambuta, a frequentar o último ano, fez lembrar que a Índia é uma economia pujante por contar com muitas micro-empresas.
Desta forma, alerta às autoridades administrativas a removerem todas as barreiras que têm impossibilitado a execussão de negócios e a constituição de uma pequena empresa.
“É preciso que na prática quando alguém for tratar um documento, para constituir uma empresa, não encontre travões. Há gente que não trabalha e nem deixa os outro trabalharem”.
Marlida João, outra estudante, lamenta as largas filas que as pessoas encontram para tratar um determinado documento.
“Isto desmotiva qualquer um, é necessário terminar com esta prática e apoiar a iniciativa empresarial”.
Também a frequentar o último ano do curso de economia, numa universidade privada, destaca que o apoio da banca é vital.
“ Se queremos realmente ultrapassar todos os problemas económicos, temos de ter uma banca actuante, que facilite o negociante e vá ao encontro destes”.
Segundo a jovem, “ a nossa banca nunca vai ao encontro dos investidores, espera sempre no balcão , assim não dá“.

Controlo de qualidade

O apelo é extensivo ao  Instituto Angolano de Normalização e Qualidade (IANORQ) que controla o sector produtivo, através da política do Executivo no domínio da promoção, organização e desenvolvimento do sistema angolano da qualidade, bem como o asseguramento da realização da política nacional da qualidade “deve ir mais ao encontro do inovador”.
A qualidade do produto nacional é alta, se comparada com alguns produtos importados, se calhar há inoperância para divulgar a qualidade do que é nosso, realçam.
“Não vale apenas pensar que o importado tem muita qualidade é mentira”.
Entretanto, todos os esforços para ouvir o “IANORQ” fracassaram.