Desastroso ou simplesmente um fracasso total pode ser a designação a dar ao resultado da produção de arroz, no projecto agro-industrial de Manquete, no município de Ombandja, província do Cunene, desenvolvido, nos últimos meses, por uma empresa criada pela antiga Direcção do Fundo Soberano de Angola. A conclusão é do director daquele projecto, Paulino César, que acompanha “palmo a palmo”, o evoluir do empreendimento desde o seu lançamento em 2014. O também engenheiro agrónomo disse que a passagem da gestão do projecto de cultivo de arroz da Gesterra, empresa tutelada pelo Ministério da Agricultura e Florestas, encarregue da gestão dos grandes projectos agrícolas do país, para as mãos do Fundo Soberano de Angola trouxe consigo um “recuo incalculável” nas metas de produção de alimentos projectadas pelo Executivo.

Projecção da safra
Revela que numa altura em que as safras já iam acima das 250 toneladas na sua segunda produção, e em apenas 63 hectares trabalhados pela empresa chinesa CIEC, que havia sido contratada pela Gesterra, de “repente” tudo foi deitado por terra, depois que o projecto passou para uma empresa denominada COFERGEPO, sob gestão do Fundo Soberano de Angola, que apenas conseguiu colher qualquer coisa como cem quilogramas do cereal em 36 hectares.
Para ele, a medida foi uma verdadeira “usurpação” do projecto das mãos de uma empresa que tem o domínio do cultivo de arroz para outra inexperiente, ou seja que nada entende da actividade.
Paulino César assinalou que o projecto está neste momento parado, desde a última colheita em Agosto último pela empresa Cofergepo.
“Foi uma colheita para esquecer. Trabalhou-se em 36 hectares e a colheita atingiu nada mais do que cem quilogramas. Não houve qualidade do grão, viu-se mais palha do que arroz”, admitiu, tendo acrescentado que o normal era a colheita de três toneladas no mínimo por hectare.

Graves falhas
O responsável explicou que essa empresa contratada pelo Fundo Soberano não acompanhou os trabalhos, apenas enviou para o terreno um técnico inexperiente, que não executou as coisas como deviam ser, e no final de tudo a colheita foi um amontoado de palha, sem rendimento algum. Salientou que essa empresa Cofergepo geriu o projecto a partir do momento em que os chineses se retiraram, isto em Novembro de 2017. Paulino César explicou que por norma a preparação e o lançamento da sementeira deve acontecer nos meses de Junho a Setembro.

252 toneladas colhidas aguardam destino

As 252 toneladas de arroz produzidas pela empresa chinesa CIEC e armazenadas em silos naquele projecto desde Junho de 2017, continuam a aguardar pelo descasque e o destino a dar. Paulino César explicou que o descasque do arroz depende apenas de uma decisão dos órgãos centrais, já que se trata de um projecto de âmbito nacional. Fez saber que a montagem da fábrica de descasque de arroz está concluída desde meados do ano passado, e nesta altura aguarda apenas pela sua operacionalização. O responsável assegurou que antes de se retirar, a empresa chinesa recrutou um grupo de oito jovens que se vão encarregar de operar a fábrica.
Garantiu que o cereal está ainda em condições para ser descascado, porque foram introduzidos insecticidas nos silos para diminuir os efeitos da acção dos insectos. Disse que por norma, depois de colhido o arroz passa pelo processo de secagem, daí segue para os silos e automaticamente para o descasque, porque com o tempo ele começa a perder qualidade. “Quando o arroz fica mais tempo ele parte ao descascar, é ali onde reside o nosso receio das quantidades ainda armazenadas”, sustentou Paulino César.

Falta de rigor
dita fracasso
de um gigante

Com um investimento de 85 milhões de dólares, o projecto agro-industrial tem uma área total de 10 mil hectares, dois mil dos quais destinados ao cultivo de arroz, enquanto os restantes para a produção de outros cereais, como o milho, a soja e o trigo, além da criação de animais para corte.
    Paulino César considerou que se o projecto continuasse nas mãos da Gesterra estaria já a produzir acima de duas mil toneladas de arroz por cada colheita e oito mil ao ano, e uma boa parte do produto consumido no país estaria a sair dessas fazendas agrícolas.
Alwém dos campos de cultivo, a iniciativa tem uma unidade de processamento de arroz, silos de armazenamento com capacidade para oito mil toneladas, fábrica de descasque, limpeza, branqueamento e embalagem, e outras infra-estruturas de apoio, como residências, escritórios e oficinas.
“Na altura em que abandonaram, eles já estavam a preparar toda a área vital do projecto de arroz, estimada em 800 hectares, e que entrariam em produção
este ano”, adiantou.
O gestor informou que a última produção dos chineses foi de 252 toneladas em 63 hectares, na fase experimental. DC