Os antigos produtores de algodão, da comuna de Cambo Sunginge, 140 quilómetros, da cidade de Malanje, querem ver relançada a
produção do “ouro branco”.

Os agricultores explicaram ao JE, que no passado, Angola tinha no algodão, uma das fontes de receitas, dado o potencial que a região dispunha.

Segundo disseram, uma das grandes fontes de receitas para os cofres do Estado era o algodão, então produzido na Baixa de Cassange, sendo que, a comuna de Cambo Sunginge, conta na região, com uma extensão de 2.468 quilómetros quadrados.

José Manuel, natural da Baixa de Cassange, revelou que a região onde a produção tinha o seu “epicentro” comporta as localidades dos Morros de Kabatuquila, Cambo Sunginge, Mbange-Angola, Micanda, no município de Cahombo, em Malanje.

Existem ainda as regiões de Kitumbi, Madeiras de Angola, Mbango, Lemba, Milando no Cunda-dia-Baze, Teka dia Kinda, Quela, Muanhangando Dala Kissua, Yongo, Cassange Kalucala, localidades adstritas ao município de Xamuteba, na província da Lunda Norte, e termina na Mesa da Rainha Nginga Mbande, localizado em Massango, ex-posto administrativo de “Forte da República”.

Para ele, uma vez implementado, a produção algodoeira pode contribuir para o crescimento da economia do país e que a região é essencialmente agrícola.

Segundo adiantou, a nossa fonte, no passado, a região produziu igualmente girassol, milho, amendoim, mandioca, este último constitui a alimentação básica do povo da região, pois se extrai a fuba de bombó e outros produtos alimentícios.

A fonte explica que muitos destes produtos, com realce para o algodão eram exportados para a Europa e outros países “francófonos”, através da fábrica pertencente à companhia geral de algodão em Angola “Cotonang”.

Importância
Os antigos produtores lembram que, uma vez relançada a produção de algodão, pode concorrer para o “bem-estar social da população”, através da criação do auto-emprego.

Por exemplo, João Nvunge, 75 anos, residente naquela localidade explica que com a produção de algodão, no passado não existia pessoas “preguiçosas nas aldeias”, pois todos eram obrigados a trabalhar para pagar o “imposto geral mínimo”, que custava 350 escudos. O ancião foi maquinista da “Cotonang”e hoje é o regedor da região da “Catala-Cajinga”.

“Com a produção de algodão pode-se promover o auto-emprego para os cidadãos, principalmente a mão-de-obra juvenil desocupada, para evitar que alguns inclinem-se no álcool”, advertiu.

O regedor da região, reconhece o trabalho que o Governo angolano tem vindo a realizar, principalmente na recuperação das infra-estruturas, com destaque para a construção de pontes, escolas, postos médicos e reparação de estradas.

Neste particular destacou as estradas que na sua visão, podem contribuir para a transportação do algodão, para o seu descaroçamento e tratamento noutras paragens.

Manuel Guedes, 87 anos, trabalhou como “capataz” na “Cotonang”. O velho “Guedes”, como é carinhosamente tratado, no bairro da Kizanga, onde reside, revelou que na região existem pessoas, que ainda conhecem os mecanismos e os procedimentos da produção.

Para ele, deve-se aliar o antigo ao avanço das novas tecnologias. “ É preciso criar mecanismos para a reciclagem e outros cursos de formação profissional, por forma a adequar a nova realidade e aperfeiçoar novos métodos do trabalho mecanizado”.

Dados históricos
José Manuel explica que, a companhia de algodão surgiu em 1932, altura em que o Caminho-de-Ferro de Luanda chegou a Malange, tendo facilitado e jogado um papel de relevo na transportação deste produto de e para Luanda.

No mesmo ano, intensificou-se a produção manual do algodão e em 1945 depois da II guerra mundial, a companhia enviou em toda a extensão, máquinas para a desmatação e destronca de árvores, por forma a rentabilizar melhor a produção.

O ancião revelou que o algodão reveste-se de grande importância, pois que a fibra, servia para as fábricas da Textang I e II, unidade industrial que se dedicava ao concessionamento de tecido.

Do girassol que também se produzia naquela região, se extraía o óleo alimentar, sabão e o bagaço, este “último” ração para animais”, que serviam principalmente para a alimentação do gado bovino.

Na ocasião, o administrador comunal do Cambo Sunginge, antigo “Belo Horizonte”, Costa Cacul, disse que, a região conta com uma população estimada em 4.754 habitantes. Ocupa uma superfície total de 2.468 quilómetros quadrados.

A comuna é banhada por quatro rios de maior caudal, nomeadamente o rio Cambo, Sunginge Kulungo e Kanzagy, além do Kamingau, Bula-Etutu e Kaconge de pequeno caudal.

Dados dão conta que os habitantes de Cambo Sunginge, na sua maioria “Gingas”, pertencem à corte real do reino do Ndongo, linhagem dos Ngolas, Matamba e Kiluange Kiassamba que ali viveram no século XVI, e que os seus restos mortais jazem nos sepultos de Muculo-wa-Ngola, região de Cabombo, município de Marimba (Malanje).