O sector da indústria na província do Cunene vive uma total letargia, como consequência do fraco investimento empresarial, apesar das enormes potencialidades económicas que a região dispõe e a progressiva melhoria das vias rodoviárias. Pequenas indústrias, como padarias, carpintarias, matadouros e moagens têm estado a surgir nos últimos tempos, mas de forma ainda muito tímida, estando na sua maioria concentradas na capital da província, Ondjiva.

Realidade
A directora provincial da Indústria, Elizabeth António, disse ao JE, que o sector controla acima de 30 pequenas indústrias, distribuídas nos municípios de Kwanhama, Ombadja, Namacunde e Kahama. Entre elas, destacou 12 padarias, três moagens, igual número de marcenarias e dois matadouros, onde está inclusa a Peccus.

A responsável salientou que a Peccus (a maior unidade industrial da província), baseada no município da Kahama, tem perspectivas de evoluir, numa altura em que tem como principais clientes os ministérios da Defesa e do Interior e algumas redes de supermercados, onde fornece carne.

Elizabeth António revelou que a província do Cunene possui inúmeros recursos naturais que, bem explorados e transformados, podem catapultar a região a um nível de desenvolvimento capaz de competir com as restantes zonas do país.

Aposta
A directora provincial da Indústria apontou a exploração da madeira e o fabrico de móveis acabados, o aproveitamento da pele bovina para diversos fins, a produção de mel e de concentrado de tomate, a agro-indústria, exploração mineira, produção de leite e seus derivados como sendo os segmentos que carecem de investimentos para o relançamento industrial.

“A província está ligada por estrada com o resto do país e possui recursos naturais. Esperamos que os empresários venham criar cá as suas indústrias”, desafiou Elizabeth António.

Iniciativas privadas
Entre as poucas iniciativas privadas do circuito industrial de que a província dispõe destaca-se a moageira “Maraf-Moagem”, reactivada em Agosto do ano passado, depois de alguns anos paralisada. Implantada em Ondjiva, a moagem produz diariamente de sete a oito toneladas de fuba de milho, embalada em sacos de cinco, 10, 20, 25 e de 50 quilogramas, com preços que rondam entre os 385 e os 3.550.00 kwanzas. Além de fuba, a fábrica produz igualmente ração para aves e farelo para suínos. A unidade fabril é sustentada por uma fazenda de mais de 100 hectares, que se dedica somente à produção de milho.

A moagem emprega 18 trabalhadores e a sua produção é comercializada em Ondjiva e noutros municípios. Nos últimos dias, observa-se um interregno, aguardando-se pela próxima colheita que acontece a partir deste mês.

Outra unidade do sector industrial da província é a “Carpintaria FCEIMF, Lda”, baseada na cidade de Ondjiva. A fábrica produz diversos mobiliários com realce para carteiras escolares, portas e janelas. Em Xangongo, no município de Ombadja, situa-se o matadouro “PF”, que diariamente abate em média 35 bovinos, 30 caprinos, 10 suínos e 60 galinhas, o que ronda 60 a 70 toneladas de carne mensais.

Acesso ao crédito
O presidente da Câmara de Comércio e Indústria do Cunene apontou várias dificuldades que enfrenta a classe empresarial local, para o acesso ao crédito bancário, o que, para ele, tem sido um obstáculo que trava o crescimento da indústria.

Francisco Bolet disse que a indústria quase que não existe na província do Cunene. O empresário sustenta que a província está a dar passos “muito tímidos” no que concerne à sua industrialização.

“Muito se tem falado nos últimos tempos de potenciar o empresariado nacional, estamos esperançosos. Os empresários vivem um handicap que é a falta de recursos financeiros para fazer face aos vizinhos países”, observou.

A instituição controla mais de 100 membros, entre pequenas, médias e grandes empresas. Actualmente, a Câmara de Comércio e Indústria da província tem perto de 25 processos à espera de financiamento do Banco de Desenvolvimento de Angola.

Os projectos estão virados à agro-pecuária, indústria de curtume e exploração de inertes. Francisco Bolet entende ser necessária a criação de intercâmbios com empresários de outros países, uma vez que eles têm a tecnologia e o conhecimento, enquanto os nacionais têm a matéria-prima.

Por sua vez, a directora provincial da Indústria afirmou que a maior parte dos empresários que contactam a instituição apresentam dificuldades de acesso aos créditos. “Os empresários têm ideias, mas falta-lhes dinheiro, logo, os bancos têm que estar mais abertos aos créditos.

“É necessário potenciar o empresariado nacional, pensamos que o Governo está preocupado com isso”, suplicou o empresário, que entende que a província tem tudo para ter uma indústria forte.

Grandes indústrias
A província do Cunene poderá contar, nos próximos anos, com um grande projecto, ligado à agro-indústria, a ser implantado na localidade de Calueque, no município de Ombadja.

Trata-se de um projecto a ser executado naquela zona económica da província, de aproximadamente 10.000 hectares, junto ao rio Cunene. O mesmo vai produzir cana-de-açúcar, tomate e frutas em grande escala e vai contar com indústrias de processamento dos mesmos produtos.

Para a directora da Indústria, o projecto vai ser uma mais-valia para a província, já que permitirá diminuir a dependência económica à vizinha República da Namibia.