O abastecimento de água nos diferentes bairros da capital angolana continua a constituir motivo de insatisfação dos moradores. Habitantes da província de Luanda manifestam total descontentamento em relação à qualidade dos serviços prestados pela empresa pública de águas da capital do país. A reportagem do JE foi à rua para constatar “in-loco” as razões de tal descontentamento.

Aos detalhes
São seis horas da manhã. A rua de Macau, no bairro da Terra Nova, regista um movimento tranquilo, próprio das primeiras horas do dia, não fosse o frenético vai e vem das motos de três rodas “Vulgo Kupapa” que trafegam de várias proveniências e para variados destinos logo ao nascer do sol. Dois ocupantes por triciclo, acrobaticamente esmeram-se por merecer a preferência das pessoas à porta de casa. “Afinal é preciso garantir o sustento do dia e ganhar espaço sobre a desproporcional concorrência dos operadores em camiões cisterna”. Vemos donas de casa desde as primeiras horas do dia à espera pelos hábeis “vendedores da vida”. Bem gostariam que o precioso líquido dêsse um ar de graça às sedentas torneiras das suas casas. A realidade, porém, remete a um quadro diferente. Cerca de trinta bidões por cada motorizada vão matando a sede dos moradores da comuna. Os preços uniformes exigem o desembolsar de 500 kwanzas por cada 4 bidões de 20 litros. O recurso à calculadora faz moda entre os moradores da urbe luandina. “É preciso ginástica rija”, dizem em referência às matemáticas para gerir os poucos recursos de formas a atender a família (muitas vezes numerosa).
Dona Ruth Júlia tem um desembolso médio mensal de 15 mil kwanzas para abastecer o tanque de três mil e quinhentos litros duas vezes no período. Tal como outros moradores, confessou entretanto à nossa reportagem registar-se uma certa melhoria nos últimos dois meses, fruto de intensas reclamações dos moradores. “Actualmente, já sentimos algum esforço de aliviar o nosso sofrimento. A água já sai com regularidade em algumas ruas e de forma intermitente noutras. Mas já é bom termos alguma água nas torneiras”, rematou.
Verificou a nossa reportagem que por conta do retomado fornecimento, a EPAL, a empresa distribuidora avançou para um processo de notificação de cortes por falta de pagamento. Os moradores da urbe estão notificados para a celebração de novos contratos com valor estipulado em 20 mil kwanzas e um pagamento mensal por estimativa na ordem dos 5.250 kwanzas contra os 4 .031 cuja cobrança é feita anteriormente.

Morro Bento
No bairro do “Morro Bento”, o quadro chega a ser pior. A imponência, beleza e qualidade das moradias erguidas em alguns pontos da localidade, chocam literalmente com a gritante falta do precioso líquido. Ao que apuramos, a canalização está feita já lá vai algum tempo, sem que, contudo, a água marcasse presença. As nossas tentativas para ouvir fontes ligadas à empresa distribuidora foram goradas, pelo que ficamos com os depoimentos dos pseudo-consumidores. António Julião mostra-se revoltado com a falta de preocupação ou competência de quem está indicado para atender a população.“Não consigo compreender como é que as nossas empresas públicas são geridas. Matam o povo e não rentabilizam os investimentos que o governo faz”, desabafou, saturado pelos constrangimentos experimentados. O silêncio sepulcral das administrações e da empresa responsável e a inoperância dos serviços de fiscalização são outros motivos geradores de descontentamento da população que se quer sentir consumidora e incentivo ao surgimento de oportunistas que elegem a venda expeculativa do precioso líquido como forma de enriquecimento.

Tunga Ngó
A nossa ronda foi dar ao chamado “Bairro dos Matumbos”, na zona do Tunga Ngó. Aqui, o quadro é bem diferente. Ruas encharcadas por conta da água que jorra das torneiras avariadas e do garimpo que se tornou visitante frequente. A alegria estampada no rosto de dois petizes que na rua tomavam banho regados por uma mangueira, lembrou-nos a aflição e clamor de outros cidadãos que sendo igualmente angolanos não são brindados com a mesma sorte. Ao que apuramos, a água é consumida em muitos casos contra nenhum pagamento uma vez serem inoperantes os meios e serviços de fiscalização. A ilegalidade faz morada ante o olhar impávido e sereno de quem devia ter intervenção activa. O quadro, ao que apuramos não é único na rejuvenescida mas seca capital angolana e os apelos para pôr fim aos desperdícios para que outros possam igualmente beneficiar, se repetem e difundem por Luanda.