A província do Uíge foi desde a época colonial, até há bem pouco tempo, o principal produtor do café em Angola, à frente dos Cuanzas Sul e Norte. Nos últimos tempos foi ultrapassada e encontra-se atrás da província do Cuanza Sul. O envelhecimento dos produtores, a desistência de outros, a cada vez mais escassa mão-de-obra, a inactividade das muitas antigas fazendas coloniais constituem, entre outras, as razões que se podem deduzir quanto ao descalabro da produção cafeícola na circunscrição. A criação nas regiões produtoras de indústrias transformadoras, o desenvolvimento das áreas rurais, a aplicação rigorosa dos mecanismos de atribuição de financiamento aos operadores do sector produtivo do café são apontadas como a solução para catapultar a produção do café, que agora se circunscreve a cada vez menos gente interessada nesta tarefa.

Controlo
Na província estão controlados 9.331 produtores de café. Destes apenas 4.342 estão a exercer a actividade de produção de café.
Os demais, apesar de terem fazendas com plantas, estão paralisados por várias razões, disse o chefe do departamento provincial do Instituto Nacional de Café de Angola (INCA) no Uíge, Vasco Gonçalves Joaquim António.
Avançou que a mesma situação regista-se também em 22 cooperativas e 23 associações cafeícolas, muitas delas paralisadas, referindo que a província tem 141.836 hectares com plantações de café, distribuídos em mais de nove mil fazendas, mas apenas 25.701 hectares estão a ser explorados, o que corresponde a 18 por cento
de área com café aproveitado.
Na última campanha de colheita os cafeicultores produziram 1.700 toneladas de café comercial tendo destacado o município de Mucaba, com 50 por cento desta produção.
“Esta pode baixar na campanha de colheita que inicia no mês de Junho, por causa da falta de investimento no sector”, realçou.

Descasques avariadas
Vasco António indicou existir, na província do Uíge, apenas 12 descasques de café, funcionando apenas três e também com pouca capacidade para descascar entre 3 e 8 toneladas que pode receber por dia. A maioria dos descasques encontra-se localizada na cidade do Uíge, facto que cria constrangimentos aos demais produtores sedeados nos vários
municípios da província.
“Todo o café adquirido nos municípios do Bungo, Buengas, Mucaba, Damba, Songo, Quitexe, Sanza Pombo, Ambuila e outros é descascado na cidade do Uíge, provocando elevados prejuízos para os comerciantes que para compensar esta situação, acrescido ao mau estado das estradas nas zonas de produção, tendem a pagar menos por kg de
café aos produtores”, referiu.
Face a este défice, o responsável do INCA no Uíge, defendeu a necessidade de se reabrir e construir mais descasques nos municípios da província onde se faz maior produção do café para facilitar as trocas entre cafeicultores e compradores, bem como a criação de brigadas técnicas nestas zonas para o
acompanhamento do processo.
Para o técnico, a torrefacção também é outro problema. Somente três destas funcionam, sendo duas no município do Uíge e uma no município do Negage, com capacidade para 36 toneladas de café comercial.
As três torradeiras funcionam com um elevado grau de dificuldade por falta de
financiamento e manutenção.

Fazendeiros arregaçam as mangas para o cultivo

Quando eclodiu a guerra civil em 1975, Pedro Ricardo foi forçado a abandonar a fazendo do seu padrasto, um colono português, onde trabalhava, na província do Uíge, para regressar a sua terra natal em Mbanza Congo (Zaire), de onde somente regressou em 2005,
depois da morte da sua mãe.
O regresso de Pedro Ricardo tem a ver com o amor que disse nutrir pelo café, desde a tenra idade vivida na fazenda com a mãe e o padrasto. “Não vivo sem o café, o café é a minha vida”.
A fazenda “Boa Esperança” tem 150 hectares. Por causa das dificuldades com que Pedro Ricardo se debate, a mesma está reduzida a 80 hectares da área explorada. “Comecei com pouco menos de 50 hectares. Vou alargando aos poucos dados os condicionalismos de ordem financeira”.
No ano passado a fazenda “Boa Esperança” produziu mais de 270 sacos de café cereja e 110 sacos de café mabuba, correspondentes a 8 toneladas. Neste ano quer ultrapassar a cifra, com a entrada na fase de colheita das mais de duas mil mudas de café que recebeu do Instituto Nacional do Café de Angola (INCA) e das 2.700, que retirou do seu viveiro.
Em 2018, Pedro Ricardo plantou 270 novas plantas de café que espera começarem
a produzir em 2021.
Ele emprega 7 trabalhadores efectivos. Mas para equilibrar os custos da produção, ofereceu terras a outras pessoas que trabalham a mandioca, o feijão e a ginguba, a volta da sua fazenda.
Por semana, os 74 beneficiários, convertido em associados, dedicam um dia de trabalho a fazenda de Pedro Ricardo. Todos eles residem, temporariamente, num aldeamento que criou.
Questionado sobre o novo empréstimo que o Governo está a contrair ao Banco Mundial para apoiar a actividade agrícola, o nosso interlocutor destaca que não está entusiasmado com tal anúncio, porque sempre “ouvimos falar de financiamentos sem nunca terem chegado aos verdadeiros produtores aqui do Uíge”.
“Os financiamentos só param nos bancos e nas mãos dos que nada ou tem pouco a ver com o trabalho duro do café”, disse.
Alega que os que se fazem passar por fazendeiros são os que obtêm do banco os financiamentos do estado.

REVITALIZAR
A PRODUÇÃO

No quadro do processo de revitalização da produção do café, o chefe do departamento provincial do Instituto Nacional de Café de Angola (INCA) no Uíge, Vasco Gonçalves, assegurou que a província possui uma estação experimental de café, que tem vindo a multiplicar e distribuir plantas de café aos produtores.
No ano passado, disse, foram distribuídas 80 mil plantas de café e este ano já foram entregues 50 mil. Neste momento estão a ser preparadas mais de 120 mil mudas de café.
“Estamos a seleccionar plantas com alto potencial produtivo, que produzem no mínimo 10 kg de café cereja por planta, contra os actuais 1 a 1,5kg. Estão a ser produzidas as variedades de café Ambriz e Amboim”, revelou.
Os técnicos estão igualmente a aumentar a produção de sementes com qualidade requerida, instalação de alfobes e viveiros. A estação possui um programa de produção de mudas por via vegetativa.
Em 2018, por exemplo, foram produzidas 483 mudas, sendo 278 da variedade Ambriz e 205 Amboim. A partir de mudas produzidas via vegetativa foram instalados na estação três jardins clonais, tendo sido feita a primeira colheita de café cereja para sementes, que serão multiplicados para a produção de estacas.
Pretende-se com esta estratégia acelerar e multiplicar a produção do café na província, bem como ajudar com urgência, a substituição gradual das plantações velhas nas fazendas.
 “Vamos também interagir junto dos bancos comerciais para facilitar o micro crédito aos cafeicultores, bem como fazer o levantamento de todas as fazendas em situação de abandono e aquelas, cujos títulos estejam expirados para um devido tratamento”, garantiu.
A estação experimental é assegurada por 17 técnicos, número considerad insuficiente para o seu funcionamento. Defendeu serem necessários 60 novos técnicos.