Acção para o Desenvolvimento Rural e Ambiente (ADRA) vai continuar a capacitar os agricultores, com diversas metodologias,
com destaque para a gestão de negócios e elaboração de micro-projectos. Em entrevista concedida ao JE, o director-
geral desta organização não governamental, Belarmino Jelembi, revelou que esta medida visa aumentar a produção e promover
o desenvolvimento socioeconómico do país.

Quais são os projectos que a Adra apoia no sector agrícola no país?

A Adra implementa projectos de apoio à agricultura familiar nas províncias de Malanje, Huambo, Benguela, Cunene e Huíla. Projectos
de capacitação técnica aos agricultores, através da metodologia das escolas de campo; formações sobre gestão de negócios e elaboração de micro-projectos para a obtenção de crédito bancário, bem como para acesso ao financiamento público para construção de sistemas de regadio, compra de moto-bombas e gado de tracção, preparação de terras e aluguer de viaturas para transporte
de mercadorias. A Adra vem apoiando a introdução de variedades melhoradas de mandioca e batata- doce nas províncias da Huíla e do Cunene, bem como a melhoria de solos no Huambo. Em Malanje, merece também destaque a introdução da tracção animal, uma prática mais frequente nas províncias do planalto central.

Até que ponto a agricultura familiar é uma mais-valia para o desenvolvimento
sustentável?

Em primeiro lugar, porque pode gerar postos de trabalho em larga escala e, como sabe, até porque já foi reconhecido pelo Executivo, a questão do desemprego é provavelmente um dos maiores dramas do nosso país, actualmente. Em segundo lugar, assiste-se no país ao fenómeno do êxodo rural, que ocorre, entre outras razões, pelo atraso no desenvolvimento da economia rural e, nas circunstâncias actuais, com os níveis de pobreza, parece-nos ser a agricultura familiar um dos principais meios” para dinamizar a actividade económica local e a Adra considera que a investigação científica e assistência técnica assim c0mo o crédito agrícola criado pelo Executivo contribuem para o aumento significativo dos níveis de produtividade no sector e ajudam a desenvolver o país de forma sustentável
“Vamos continuar a capacitar tecnicamente os agricultores”
Belarmino Jelembi Director-geral da acção para o desenvolvimento rural e ambiente (ADRARA)atrair os jovens para os municípios
e aldeias. Em terceiro lugar, devemos referir que o nosso país precisa, urgentemente, libertar- se das “garras” do petróleo. A dependência é excessiva, tornando mais difícil a geração de empregos em massa, uma via que nos levaria a uma mais eficaz
e rápida redistribuição da riqueza. Em quarto lugar, dizer que está provado que com um aumento nos investimentos no crédito agrícola e ao comércio, na investigação científica e na assistência técnica, pode-se aumentar significativamente os níveis de produtividade da agricultura familiar, que agora ainda são, globalmente, baixos.

A qualificação dos agricultores também deverá acompanhar este dinamismo?

Este salto deve ser acompanhado com qualificação permanente e organização dos produtores em associações ou cooperativas geridas
de acordo com o nível de conhecimento dos próprios, é importante para reduzir ou acabar mesmo com o défices nas principais culturas alimentares, nomeadamente as hortícolas, cereais, leguminosas e, inclusive, na pecuária, fundamentalmente, frangos e caprinos.
A agricultura familiar pode ser o principal instrumento para a diversificação da economia, inclusão social e geração de uma verdadeira
coesão nacional.

Os apoios que as autoridades (Executivo)
têm disponibilizado para este sector são suficientes?

É verdade que o Estado tem feito um esforço que é visível, mas é necessário e possível fazer melhor. Os apoios disponibilizados para o sector estão, ainda, aquém daquilo que é o desejado. Exemplo disso é o número de técnicos existentes nas estações de desenvolvimento agrário nos municípios.

O sector da agricultura ainda é o que mais emprega?

A agricultura emprega um número importante de pessoas, mas está muito longe do potencial que o país tem. A desarticulação dos circuitos de comercialização ainda constitui um entrave para estimular quem quer produzir para o mercado.

Como é que a Adra encara os diversos
projectos agro-industriais que têm surgido?

Bem! Não é fácil falar, com detalhe, dos projectos agro-industriais que têm surgido no país, uma vez que muito pouca informação é disponibilizada.
Temos sempre de olhar para os investimentos aplicados e os resultados que estes projectos produzem, em comparação com outros de maior abrangência populacional.
Estou convencido que os projectos agro-industriais podem conviver, e em alguns casos complementarem- se, com os programas
de agricultura familiar, como ARQUIVO PESSOAL por exemplo um grande empreendimento que apoie a abertura de estradas terciárias utilizadas por pequenos produtores…

Desde a implantação da associação, quantos camponeses já beneficiaram dos vossos projectos?

No primeiro semestre de 2013, por exemplo, apoiou directamente 32.899 pessoas e, de forma indirecta,
81.140. As pessoas apoiadas directamente estão organizadas em 582 organizações comunitárias de natureza distinta: 439 associações que correspondem a 76 por cento do público beneficiário, segue-se os grupos organizados com 14 por cento, cooperativas agropecuárias, sete por cento e comissões de pais, três por cento. Vale referir que, além dos membros das comunidades
locais, trabalhou ainda com 10 organizações da sociedade civil, quatro organizações do sistema das Nações Unidas, sete institutos públicos, 17 direcções provinciais, sete instituições académicas (universidades e institutos médios), três instituições privadas (principalmente ligadas à banca), seis órgãos de comunicação social. Estabeleceu relações com seis governos províncias, cinco departamentos ministeriais e duas comissões de especialidade da Assembleia Nacional.
Director-geral da Adra aponta os grandes desafios do sector agrícola no país

Como é que está a decorrer o “plano estratégico 2012/2016” da Adra?

A implementação do plano estratégico decorre dentro do planificado.
O ano de 2012 foi dedicado à adequação da organização à nova orgânica, à adopção de novos instrumentos de gestão e de avaliação do pessoal. O ajustamento de todo o sistema relativo à intervenção comunitária, nomeadamente os planos de apoio aos municípios, sistema de monitoria e avaliação dos projectos, bem como o reforço da estratégia de lobi e advocacia social. Repare, este plano estratégico,
é também uma resposta da organização às mudanças de contexto interno e internacional.
A Adra existe há 23 anos e tem conseguido sempre adequar- se aos diferentes momentos do país devido, entre outras razões, à sua prática de análise permanente do contexto, que começa no município com as equipas de terreno, e vai até ao conselho directivo que analisa as principais tendências nacionais e internacionais.

Até agora, qual é o investimento aplicado
pela Adra neste sector?

A Adra capta, anualmente, do exterior do país, cerca de, equivalentes em kwanzas, cinco milhões de dólares americanos para aplicar em projectos de apoio às comunidades rurais e no combate à pobreza. Devido ao seu prestígio, resultante do trabalho de longos anos e à transparência na gestão dos recursos, continua a ter financiamentos de Governos e agências internacionais, bem como de empresas.

Como encaram o reconhecimento da FAO no combate à fome e à pobreza no país?

É sempre uma satisfação para nós angolanos, quando o nosso país é bem referenciado. O país teve mudanças importantes com o fim do conflito armado, e a reintegração dos milhões de deslocados de guerra foi decisiva.
No entanto, isto deve reforçar o sentido de compromisso para com o combate à pobreza e temos de ter humildade e reconhecer
que as melhorias que ocorreram no país não resultam apenas do esforço do Executivo. Participaram nesta empreitada os próprios produtores, as organizações não governamentais e outros actores nacionais e estrangeiros.