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A cultura do seguro

Autor: Júlio Matias e Paulo Calunga

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A cultura de se assegurar um bem em Angola e as falsas expectativas dos clientes com as seguradoras?
A cultura de se assegurar um bem em Angola e as falsas expectativas dos clientes com as seguradoras?
Penso ser um falso problema a ideia de que as pessoas não têm cultura de seguros, isto não é assim a 100 por cento, pois acredito que os tempos são outros e se as pessoas até hoje não têm a cultura de seguros, posso arriscar dizendo que também muita coisa não foi feita para revitalizar o sector. Durante anos, muitos agentes dirigiam-se a uma segurado para subscrever apólices com o fito de ter um documento para apresentar às autoridades, sendo que não há consciência da importância dos seguros, as pessoas não olham para esta actividade com responsabilidade. Associado a isto esta a dificuldade de algumas seguradoras não regularizarem os sinistros nos prazos estipulados, a própria má instrução do processo, assim como a não adopção de estratégias que respondam às expectativas das pessoas. Todos estes factores e outros contribuem para o divórcio entre o sector e pessoas.

O seguro obrigatório de responsabilidade civil automóvel e o número de apólice?
O seguro obrigatório de responsabilidade civil automóvel é, entre outros, o segundo maior produto procurado pelos proponentes, pois representam um volume de negócio à larga escala comparado com os outros seguros obrigatórios, no caso os acidentes de trabalho e doenças profissionais, mas este comportamento está associado, visando acautelar conflitos com a fiscalização das autoridades, visto que a maioria revê-se nesta posição. “... eu só fiz o seguro para não ter problemas com a polícia” ouve-se isto todos os dias. A pergunta que não se quer calar é a seguinte: o que as seguradoras têm feito para inverter o quadro? É importante que se faça investimentos em palestras e workshops, seminários debates radiofónicos e televisivos sobre a importância dos seguros para que os resultados destes sejam transformados em novos contratos de seguros. Quanto mais pessoas souberem da importância dos seguros, melhor será para os negócios.

A crise e o risco de muitas desaparecem daqui a uns anos por falta de clientes ?
Isso tem um peso e duas medidas: vejamos que quanto menos tenho mais quero proteger-me. Nos seguros é assim, pois as pessoas procuram proteger os seus bens quando menos têm. As seguradoras devem acordar e apresentar soluções para o mercado, como apresentação de seguros à medida do bolso dos clientes (microsseguros). Existem actividades sociais que não são exploradas para que se propõe medidas de novos produtos de seguros, isto é, a sociedade cresce e desenvolve-se com novas actividades e as seguradoras não apresentam tecnicamente novos produtos. Isso é mau para o mercado e para as seguradoras.

Resposta célere aos sinistros e reestruturação das oficinas criadas pelas seguradoras?
São os órgãos auxiliares da actividade seguradora que devem trabalhar em estreita cooperação com os técnicos das seguradoras ou peritos singulares. O segurado na hora do sinistro quer ver seu problema resolvido e não olha para o contrato. Os elementos contratuais devem ser observados e explicados na altura da subscrição.

Nos casos em que um assegurado não regista nenhuma ocorrência durante o ano se existe uma compensação a ser dada?
Nos seguros existe uma compensação em caso de o segurado não registe nenhum sinistro no decorrer do período da apólice, assim como também existe uma penalização na anuidade seguinte, quando se regista um número de sinistros superiores ao contratado na anuidade anterior denominado bónus/malus, que é o processo inverso do bónus. Deveria um aumento percentual ao prémio no caso de verificar-se que determinado segurado possui um sinistro com volume maior ao previsto de indemnização no período em que decorreu o contrato. A gestão das seguradoras, apesar de serem reguladas pelo mesmo órgão e normas, nem todas seguem os mesmos padrões, pois verificamos que não é aplicável a este princípio por parte das seguradoras, o que tem aborrecido muitos segurados principalmente quando são penalizados por excesso de sinistralidade. Penso que as seguradoras deveriam reorganizar-se tecnicamente para dar resposta a este desiderato, mas é importante que a seguradora alerte o segurado da compensação. aumento percentual ao prémio no caso de verificar-se que determinado segurado possui um sinistro com volume maior ao previsto de indemnização no período em que decorreu o contrato. Este processo deveria ser mais divulgado pelas seguradoras penso ser um elemento a ter em conta na relação contratual.


A cultura de se assegurar um bem em Angola e as falsas expectativas dos clientes com as seguradoras?
As seguradoras são empresas como outras. Portanto, têm em vista os resultados positivos, por isso é que os contratos de seguro têm várias cláusulas e essas são munidas de exclusões e os clientes limitam-se apenas a olharem simplesmente ao prémio (preço) e deixam de ler o contrato. É óbvio que as seguradoras não são instituições de solidariedade. É frequente ouvir mencionar os seguros contra terceiros, quando as pessoas podem identificar os seguros de responsabilidade civil automóvel. Relativamente à utilização da expressão seguro contra todos os riscos, muitas vezes esta é mal entendida pelas pessoas, induzindo em erro quanto à sua amplitude que nunca englobou todos os riscos. Não é falso fazer seguros em Angola, pois angolanos não estão a encher os bolsos das seguradoras, porque não têm cultura de pagar seguros, visto que 70 por cento dos angolanos nem seguro obrigatório paga às autoridades que têm a missão de fiscalizar. As seguradoras vendem segurança que é um bem abstracto, mas as pessoas mais conscientes e previdentes sentem a necessidade de obtê-la.
O seguro obrigatório de responsabilidade civil automóvel e o número de apólice?
O seguro obrigatório de responsabilidade ajudou sim, pois é de toda a conveniência e estou completamente convicto que sim, apesar de não lhe precisar um rácio exacto do percentual dos seguro obrigatório, mas lhe assumo sem medo de errar que os seguros obrigatórios fizeram crescer substancialmente o número de apólices em Angola. Os seguros obrigatórios não dão o direito de opção ao cliente, querendo ou não, o mesmo tem de o fazer porque assim manda a lei. Os seguros obrigatórios em Angola são os de: Responsabilidade civil automóvel, acidentes de trabalho e doenças profissionais, aéreo e marítimos e brevemente entrará o seguro de importação e exportação, esses seguros vieram não só dar uma almofada de ar fresco as seguradoras, mas também aos cidadãos a não obrigatoriedade dos seguros de responsabilidade civil que já fiz referência criava imensas situações sociais graves, pelo facto de não estar garantido que o causador de danos tivesse capacidade financeira para reparar o mesmo, tanto com a responsabilidade civil subjectiva baseada na culpa como na responsabilidade objectiva baseada no risco.
A crise e o risco de muitas desaparecem daqui a uns anos por falta de clientes?
A crise económica e financeira que assola o nosso país afectou brutalmente as empresas em diversos sectores de vários segmentos de negócio. Tecnicamente, as seguradas não vão à falência por estas terem sempre solvabilidade, então não veremos desaparecimento de nenhuma seguradora no mercado. No entanto, no antigo regime político este cenário seria possível ainda bem que temos outro oxigénio político. Os seguros assentam em dois princípios fundamentais e complementares: mutualidade e solidariedade.Não consigo lhe precisar números exactos dos lucros das seguradoras, mas é óbvio que os lucros baixaram significativamente porque o poder de compra dos angolanos também baixou.
Resposta célere aos sinistros e reestruturação das oficinas criadas pelas seguradoras?
De acordo com a lei do contrato de seguros, o segurador deve efectuar o pagamento da indemnização no prazo de 30 dias a partir do apuramento dos factos. Se passarem 15 dias podemos considerar razoavelmente, que ele ainda tem um prazo de mais 15 dias para efectuar o pagamento, a partir daí, a retenção das consequências legais só acontece após o termo. Pode-se estar em situação de mora que justifique uma actuação dos beneficiários pela via da reclamação, junto do próprio segurador do seu provedor de cliente ou da entidade de controlo da actividade seguradora(Arseg) ou de uma acção judicial em ambos os casos reclamando a indemnização pela mora no pagamento da indemnização.
Muita das vezes o cliente não faz a participação nos prazos limites que vão do primeiro ao 8º dia do sinistro.
Nos casos em que um assegurado não regista nenhuma ocorrência durante o ano se existe uma compensação a ser dada?
Na ausência de sinistro durante o segundo ano de contrato, o tomador de seguro tem direito a uma bonificação, ou seja, o segurador faz um desconto percentual do prémio. Corroboro da ideia de que a divulgação é incipiente, pois tem que se fazer mais para que os tomadores de seguro saibam os seus direitos, mas o Jornal de Economia & Finanças tem feito um grande esforço neste sentido.

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