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“Não espanta a adesão de Angola à Commonwealth”

Autor: Osvaldo Gonçalves Jornalista, Paulo Pinha Jornalista

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O anúncio da intenção de Angola aderir à Francofonia e à Commonwealth causougrande polémica nos estados-membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), sobretudo, em Portugal, país onde algumas vozes que se levantaram deixaram fortes indícios de a independência angolana ser ainda tema de difícil entendimento e até de aceitação por parte de determinadas franjas da sociedade. 
O anúncio do interesse de Angola em aderir à Commonwealth suscitou interrogações em círculos políticos do país e, até mesmo, alguma perplexidade. No entanto, a notícia não colheu de surpresa os analistas mais atentos às questões de geopolítica.
O anúncio da intenção de Angola aderir à Francofonia e à Commonwealth causougrande polémica nos estados-membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), sobretudo, em Portugal, país onde algumas vozes que se levantaram deixaram fortes indícios de a independência angolana ser ainda tema de difícil entendimento e até de aceitação por parte de determinadas franjas da sociedade.
Em finais de Maio, o ministro das Relações Exteriores, Manuel Augusto, confirmou em Castelnaudary, arredores de Toulouse, o interesse de Angola integrar a Organização Internacional da Francofonia, com o estatuto de membro observador.
Manuel Augusto afirmou que o interesse de Angola se devia ao facto de o país ser limitado por estados que pertencem a esses dois grupos linguísticos. Angola situa-se na costa do Atlântico Sul de África, entre o Congo, a República Democrática do Congo, ambos de fala francesa, a Namíbia e a Zâmbia, de língua oficial inglesa.
“Somos lusófonos, temos vizinhos anglófonos e francófonos. Temos tudo a ganhar se tivermos perto de todo o tipo de organização, que esses países vizinhos” integram, declarou.
No balanço da visita do Presidente da República, João Lourenço, a França, o ministro Manuel Augusto destacou a importância da Francofonia e da Commonwealth (comunidade de países de língua inglesa) no mundo, como factor congregador de vários continentes.
A intenção de Angola aderir à Commonwealth foi recebida com manifesto agrado em Londres. No Twitter, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Boris Johnson, disse ser “explêndido” o facto de Angola aderir à Commonwealth. “Esplêndido que Angola queira juntar-se à família da Commonwealth”, escreveu Boris Johnson no Twitter.
Johnson elogiou ainda o empenho do presidente João Lourenço nas reformas, no combate à corrupção e na melhoria dos direitos humanos.

Entre anglófonos e francófonos
Em entrevista à Euronews, João Lourenço admitiu em Junho que “Angola está cercada, não por países lusófonos, mas por países francófonos e anglófonos”. E concluiu:
“Portanto, não se admirem que estejamos a pedir agora a adesão à francofonia e que daqui a uns dias estejamos a pedir também a adesão à Commonwealth”.
Sendo um dos nove países da CPLP, não espanta o facto de Angola pretender aderir tanto à Francofonia como à Commonwealth, tendo em conta a vizinhança. A entrada na Commonwealth também vai facilitar os contactos e os negócios entre Angola e os vizinhos de língua oficial inglesa, num momento em que continua o processo de saída do Reino Unido da União Europeia, prometendo virar-se mais para os parceiros naquela organização.
Foi já com a economia em mente que em finais de Maio, princípios de Junho, João
Lourenço foi a Bruxelas, Bélgica, onde manteve encontros com o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, e com a chefe da diplomacia da União Europeia, Federica Mogherini, além de reunir com o rei Filipe e com o primeiro-ministro Charles Michel.

Novo paradigma
Há dias, no Parlamento Europeu, em Estrasburgo (França), o Chefe de Estado angolano apelou à União Europeia para estabelecer, com África, um modelo de cooperação que, a médio e longo prazos, contribua para os países africanos terem maior oferta de emprego e oportunidades de negócios para os seus cidadãos.
Na sua intervenção, João Lourenço defendeu a necessidade de mudança do paradigma do modelo de cooperação, estabelecido no âmbito dos acordos de Cotonou (Benin) entre a União Europeia e o Grupo de Países de África, Caraíbas e Pacíficos.
O Presidente da República referiu que os filhos de África vão hoje para a Europa na condição de emigrantes, fugindo de conflitos armados, da fome e da miséria que assola alguns dos países do continente, do desemprego e da falta de perspectivas por um futuro melhor.
Nessa conformidade, João Lourenço apelou à União Europeia a estabelecer, com o continente africano, um modelo de cooperação para reverter o actual quadro e que ajude os países de África a passarem de meros exportadores de matéria-prima para produtores de produtos manufacturados e industrializados, como garantia de uma maior oferta de empregos e oportunidade de negócios.
O estadista afirmou que todos são responsáveis pelo quadro actual dos países do continente, caracterizado por “um clima de conflitos internos, de insegurança, de crises económico-financeira, de terrorismo, de fome e pobreza”, que traz como consequências sucessivas vagas de emigração em direcção à Europa.
É uma situação que a todos envergonha, porquanto é triste e revoltante constatar que hoje a saga se repete, embora numa conjuntura diferente, cerca de seis séculos depois de os filhos de África terem sido levados em condições degradantes nos navios negreiros, para as Américas, onde, na condição de escravos, contribuíram para o florescimento de grandes economias.
O chefe de Estado defendeu que a Europa só sai a ganhar com uma África capaz de reter os seus filhos no continente, através de uma maior oferta de emprego e de melhores condições de vida, no geral.

O anúncio do interesse de Angola em aderir à Commonwealth suscitou interrogações em círculos políticos do país e, até mesmo, alguma perplexidade. No entanto, a notícia não colheu de surpresa os analistas mais atentos às questões de geopolítica.
A localização geográfica de Angola, rodeada de países anglófonos e francófonos, é um factor a ter em consideração na abordagem ao tema da adesão à Comunidade das Nações - nome oficial em Português -, mais conhecida por Commonwealth.
Esta organização inter-governamental fundada a 11 de Dezembro de 1931 congrega 53 países independentes do extinto Império Britânico, com excepção da Namíbia, Moçambique e Ruanda, antigas colónias da Alemanha, Portugal e Bélgica, respectivamente.
Aqueles três países africanos nunca estiveram sob a alçada do Reino Unido, mas compreenderam a importância de serem membros de pleno direito de uma organização que tem influência em todos os “palcos” da política internacional, com destaque para as Nações Unidas, a Organização Mundial do Comércio (OMC) e os blocos regionais.
Para compreender o peso político, diplomático, económico, comercial e cultural da Commonwealth no Mundo é suficiente um olhar sobre o globo terrestre. Os países-membros estão espalhados por cinco continentes. Juntos, somam 2,4 bilhões de habitantes, que correspondem a um terço da população mundial, e representam um quinto do comércio internacional.
Como organização inter-governamental, contribui para a aproximação política e cultural entre os Estados-membros, sem interferir na soberania nacional de cada integrante, ao contrário de um bloco regional como a União Europeia.
A última cimeira realizada em Londres no mês passado, por exemplo, dedicou mais atenção ao comércio internacional e às alterações climáticas, sem descurar os temas de política internacional.
O comércio global de mercadorias e serviços, incluindo a livre circulação de capitais, detém um papel preponderante nas relações internacionais. Actualmente, é um vértice da Commonwealth, superando muitas vezes a política e a diplomacia na actividade corrente da organização inter-governamental, designação contida na acta da sua constituição.
Os princípios basilares da Comunidade inscritos na Declaração de Singapura, assinada pelos representantes legítimos dos Estados-membros em 1971, são o paradigma de uma política moderna antes do tempo, quando o Reino Unido estava prestes a concluir o processo de restituição voluntária e pacífica da soberania aos povos das antigas colónias do Império Britânico.
O Reino Unido antecipou-se à “corrente” da História, estabelecendo uma agenda própria, ao “desfazer-se” das suas colónias na América do Norte e Oceânia no século IXX. Logo a seguir ao final da II Guerra Mundial, de que saiu vitorioso, acelerou a descolonização em África, Ásia e Médio Oriente.
A constituição da Commonwealth surge na sequência deste espírito pioneiro que deixou marca nas actuais relações internacionais. Com a Comunidade de Nações, Londres manteve laços estreitos e privilegiados com os povos e governantes dos países emergentes sem ressentimento de parte a parte.
Como primeira democracia da era moderna, o Reino Unido obteve a concordância dos países-membros da Commonwealth para comungarem e porem em prática os princípios do Estado de Direito Democrático, boa governação, protecção dos direitos humanos, liberdade individual, igualitarismo nas relações entre si, multilateralismo, defesa da paz mundial e comércio livre.
O foco actual no comércio internacional segundo as regras da OMC, que se opõe ao proteccionismo, foi destacado pela embaixadora do Reino Unido, Jessica Mary Land, em entrevista
ao Jornal de Economia & Finanças.
A diplomata acreditada recentemente pelo Presidente João Lourenço sublinhou as excelentes relações entre os dois países, assentes na diplomacia, cooperação e comércio. Apesar da balança comercial pender para o lado do Reino Unido, que importa exclusivamente petróleo e minerais, o Governo britânico está disponível para alargar a cooperação e as relações comerciais, favorecendo o equilíbrio da balança.
Outro exemplo do interesse do Reino Unido no estreitamento da relação multilateral com Angola partiu de Boris Johnson, que colocou a este propósito uma mensagem na sua conta do Twitter, depois do Presidente João Lourenço ter anunciado a intenção de propor a adesão à Commonwealth.
“É esplêndido que Angola se queira juntar à família da Commonwealth. Saudamos o empenho do Presidente Lourenço em fazer reformas, no combate à corrupção e na melhoria dos direitos humanos”, escreveu o Ministro britânico das Relações Exteriores, que apresentou esta semana a demissão, por discordar do desejo da Primeira-Ministro Teresa May em conceder tratamento especial aos países da União Europeia depois do Brexit, processo de retirada voluntária do Reino Unido daquele bloco em 2019.
O fervoroso defensor do Brexit concluiu no “post”: “Espero recebê-lo [Presidente João Lourenço] em Londres.”
Com ou sem Boris Johnson, a adesão de Angola à Comunidade Britânica está mais que garantida, pois o Reino Unido prometeu apoiar a candidatura anunciada recentemente em Paris pelo Presidente João Lourenço, em entrevista ao canal de televisão Euronews. Angola tem
muito a ganhar com essa integração.

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