O cruzamento de pernas perfaz a dança do jovem que virou uma referência de superação da sua deficiência e marcam os passos arrojados de Santos Fernando Nicolau, mais conhecido no bairro por Kiston, uma estrela que vai emergindo no Distrito Urbano do Rangel, mais propriamente na Terra Nova, bairro que o viu nascer e agora o venera como um verdadeiro herói.
Kiston superou tudo e todos com uma dança e duas músicas que viraram febre no bairro e já fazem furor nas ruas, permitindo-lhe actuar em alguns palcos da cidade capital, transformando o verdadeiro amante do judo e futebol, que conviveu com uma paralisia total do corpo durante três anos, num emergente cantor, com sucesso garantido.
A vida de Kiston quase lhe foi madrasta, quando aos 13 anos sofreu um acidente grave fruto das acrobacias caracteristicas das brincadeiras da sua idade, quando desafiava os amigos, com a intenção de realizar o melhor e maior “mortal” alguma vez realizado pelo grupo, que o deixou , pregado à uma cama meses à fio.
Entre o pessimismo de uns e o optimismo de outros, no que toca à recuperação do petiz na altura, o criador do estilo resgatou-se daquela desgraça, porque acreditava na crença que “a mão de Deus opera milagres”, mas sem descorar a medicina. O garoto voltou à rua pelos próprios pés, embora com a marcada deficiência eterna. Os insultos de amigos e transeuntes eram a tónica do dia, situação que o constrangia e muitas vezes obrigou o rapaz a esconder-se do bullying constante.
Por exemplo, Márcio Marques, o amigo que mais o abusava e comandava, na altura o grupo dos que sem piedade descobriram na lesão de Santos Nicolau, um verdadeiro motivo de diversão, é quem criou a dança, embora Kiston desmente essa tese. Apesar dessa divergência, a dança prevaleceu e marca hoje o dia-a-dia do bairro e electriza muitas crianças, que agora andam, seguem e imitam Kiston.
Na verdade, o arrependimento invadiu muitas vezes o garoto, que sempre quis fazer tal salto, mesmocom todos os riscos que podessem advir da sua proeza, mas a inocência falou mais alto. “Era uma grande aventura e fiz vezes sem conta”, era o julgamento que fazia a si mesmo durante anos.
O tempo passou e Kiston hoje já soma 31 primaveras e 18 anos desde que sofreu o trágico acidente num acto de brincadeira com amigos da altura, ao ensaiar o mais acrobático salto mortal alguma vez executado por um membro do grupo. A sua perícia mostrou-se não estar totalmente apurada e uma queda aparatosa colocou o seu autor no chão, provocando uma fractura na coluna que o deixou com sequelas facilmente visíveis ainda hoje. “Senti-me numa prisão durante três anos, sem me levantar da cama. Já fui uma pessoa desprezada, mas essa realidade mudou”, revelou.

Fase de superação
Depois de muito sofrimento, Santos Nicolau, decidiu usar a deficiência a seu favor, lançando no mercado artístico uma nova forma de dançar. Kiston é hoje já uma maneira de dançar, de estar e viver, o que impressiona qualquer um que vê a forma e o entusiasmo das pessoas que experimentam a dança e o caminhar do jovem artista. Por onde passa, a palavra kiston ganha sonoridade nas gargantas das crianças, jovens e até idosos. É a nova febre da Terra Nova, que começa já a invadir outras zonas de Luanda, com participações em Shows e eventos de diversas naturezas e objectivos.
“Já não estão andar, está pular tipo Capri- Kiston”, é o refrão que está na boca e ouvidos de muito boa gente quando de Kiston se fala. As opiniões são unânimes em relação ao garantido sucesso futuro do agora cantor. O género Kuduro foi o eleito para marcar o inicio de uma carreira que se espera promissora.
A Família Kiston, como se conviu denominar o grupo que acompanha o jovem, é constituída por quatro elementos, que fazem furor por onde passam com o seu andar Kistado e ginga. A divulgação diária de músicas, vídeos e outras actividades do grupo nas redes sociais está a contibuir para que neste momento a marca esteja a proporcionar alegria para os luandenses.

Aceitação e apoio dos fãs
“Vem cantar na minha festa. Canta só no meu evento”, são os pedidos agora frequentes dirigidos ao artista e acompanhantes. A incursão do jovem ao mundo da música teve inicio em 2005, mas somente este ano o artista começa a ver coroado todo um esforço com popularidade do seu estilo. Nos eventos da periferia, Kiston é visto como um pequeno Nagrelha, passando a ser de imediato a preferência obrigatória para o encerramento de eventos, uma vez que no fim de cada actuação, ele arrasta consigo a maior parte do público.
Casamentos, baptizados, aniversários e eventos de carácter social e filantrópico são hoje palcos frequentes do seu grupo, que apesar de estar em inicio de carreira, muitas vezes dispensa os pagamentos pelos serviços prestados, facto que está a contribuir para o aumento de fãs e o número de convites. Com duas músicas actualmente, a intenção do quartecto é aumentar o número de músicas para atender à demanda de convites. “Estamos a trabalhar duro para merecermos o apoio que temos recebido do público”, disse.

Sonhos e Ambições
A busca por patrocínios constam da agenda diária do músico, que acredita na boa vontade e solidariedade das pessoas. A grande admiração por cantores como Sebem, Nagrelha e outros, tem sido um tónico para o grupo que sonha alcançar os grandes palcos do país. “Kiston veio para ficar”, concluem os fãs.