No novo mercado do artesato, apesar de novas condições, os seus utentes queixam-se da falta de clientes e da distância do local. O espaço foi transferido, há mais de seis meses, para o Museu da Escravatura, onde os rasgos de pincéis, tecidos, madeiras, golpes de formão e as mão dos homens tentam a todo custo garantir
o ganha-pão diário.
Para muitos vendedores do agora denominado “Centro de Artesanato”, situado à direita da estrada nacional número 100, a oito quilómetros a sul de Luanda, o actual lugar não “enterra” a eterna saudade pelo antigo mercado, onde a facturação diária superava as expectativas nas vendas, permitindo, em situações normais, vendas superiores a 200 mil kwanzas/mês.
Uma situação que deixa, por exemplo, Augusto Sipa, 52 anos, pai de cinco filhos, natural do Uíge, residente no bairro Hoji-Ya-Henda, sem alternativas para sustentar a familia. No passado, Sipa, que se dedica a essa actividade há mais de 20 anos, levava cerca de 50 mil kwanzas/dia para casa.
O artesão afirma que hoje é quase impossível ver esses rendimentos. Para ele, que sustenta a familia com essa actividade, a deslocação dos clientes para o mercado fez baixar significativamente as vendas. “No outro mercado havia uma estrutura mais organizada. É preciso criar um mercado com melhores condições. Precisamos de cobertura”, disse.
Homens e mulheres que dão vida àquele espaço lamentam a falta de sombra e as condições de saneamento, mas não desanimam e produzem cada vez mais peças, procuradas principalmente por turistas que frequentam o local.

Estrutura do espaço
A actual estrutura tem uma capacidade para albergar 275 artesãos e está dividida em três sessões, nomeadamente a dos quadros e cestos, que fica do lado de fora do recinto, quase na berma da estrada, apenas separada por enormes pedras que fazem a vedação. No interior encontra-se a área de vendas dos trajes típicos africanos, colocados em barracas improvisadas. Já na parte de cima estão as várias estátuas, que confirmam a sua hegemónia númerica em relação aos demais utensílios no local.
De acordo com dados avançados no local, são expostas todos os dias cerca de 10 mil peças. As suas portas imaginárias abrem de terça-feira a domingo, logo de manhã cedo, por volta das seis horas, quando os vendedores começam a montar as suas bancadas. Aliás é assim desde a sua criação em 1993.

Obras de referências
Uma das peças mais requisitada entre os nacionais e estrangeiros é o famoso Pensador, estatueta de madeira, de origem lunda-tchokwe que simboliza a sabedoria dos mais-velhos. Das terras do nordeste do país vem a Mwana Pwo, máscara que idealiza os valores femininos, e um dos artigos mais procurados. Os seus preços variam de 15 a 150 mil kwanzas, só o tamanho determina o valor.
A criatividade daquela gente está patente na madeira talhada, nos elefantes, leões, figuras e máscaras esculpidas ali todos os dias de todas as expressões e feitios possíveis. As pinturas são quase sempre de mulheres, reis, sobas e de circuncisão, que dão ao mercado, quando se entrelaçam com a cor do céu, um colorido especial. Os quadros sem moldura são aos milhares. Encontra-se ainda colares e pulseiras de missangas, cestaria, objectos feitos de esteira, de pau ferro, pau preto, rosa ou cinza, materiais importantes que vêm do Cuanza Sul, Zaire e Uíge. Apesar da crise, os valores mantém-se, em função da actual conjuntura económica do país, variando de cinco a 500 mil kwanzas, de acordo com o tamanho e a qualiadade da obra.

Adaptação
Os artesãos do novo mercado ressentem ainda da mudança. Para eles, o antigo recinto era o melhor lugar e são tomados todos pela saudade das vendas naquele local. Hoje nota-se um frear na afluência de visitantes e conquentemente nas vendas. A distância é apontada como uma das causas prováveis da falta de clientes.
Daniel Viegas, jovem artesão de 26 anos, que vende no mercado desde 2014 e reside no Camama, afirma que está dificil continuar a pagar a sua renda de casa. Ele é natural da provincia do Zaire, municipio do Tomboco, e veio para Luanda à procura de melhores condições de vida. “O sol aqui é o verdadeiro inimigo. Além de dar cabo das obras é prejudicial para a saúde e afugenta a clientela. É preciso uma cobertura”, afirma.