Ohomem mais rápido do mundo entra na pista do Estádio Olímpico de Londres para correr a final dos 100m, há muito que as 80 mil pessoas presentes gritam furiosamente o seu nome: “Usain! Usain! Usain!” É uma espécie de ritual tribal que homenageia o atleta jamaicano e este venceu, voltando assim às vitórias. No momento em que o seu nome é anunciado pelo “speaker”, Bolt alimenta a histeria colectiva, ao ensaiar várias coreografias para a câmara de televisão. Está pronto para entrar em acção.

Os atletas posicionam-se. O silêncio no estádio é total. Dura pouco: no instante imediatamente seguinte ao tiro de partida, a multidão levanta-se para assistir à que seria a corrida mais rápida da História. Como acontece quase sempre, Bolt é mais lento a partir do que os seus adversários. O americano Justin Gatlin adianta-se nos primeiros 30 metros. Tyson Gay e Yohan Blake vêm logo a seguir. Só depois Usain. Mas a corrida ainda não estava a meio. Começa a ganhar terreno a partir dos 45 metros. Os últimos 55 são seus: passa por todos e vence com facilidade e com um novo recorde olímpico de 9,63 segundos.

Assim que percebe que venceu, Bolt agarra-se ao seu amigo e companheiro de treinos Yohan Blake, medalha de prata, e obriga-o a acompanhá-lo na volta de honra pelo estádio. É uma espécie de tributo do campeão ao homem que o ajudou a entrar para a História em Londres. No mês anterior, nas eliminatórias de acesso aos Olímpicos, na Jamaica, Bolt perdeu duas vezes com Blake, o campeão do mundo em título. No fim da segunda prova, Yohan sentou-se ao seu lado e disse-lhe: “Acorda, Usain, os Olímpicos estão a começar. Eu estou pronto. E tu?”

Cerca de um ano depois, Bolt volta a juntar os títulos mundiais dos 100 e 200 metros. Em Moscovo, a 17 de Agosto de 2013, o jamaicano conquistou o ouro nas duas provas, tal como já tinha feito nos Jogos Olímpicos de 2008 e 2012 e nos Mundiais de Berlim, em 2009. As dificuldades de Usain Bolt em concentrar-se são conhecidas, tem interesses, actividades e vícios pouco habituais num atleta de alta competição. As suas incursões na vida nocturna jamaicana são épicas. O seu gosto pela velocidade é indisfarçável, em 2011 destruiu dois BMW em acidentes de viação. A atenção que demonstra por outras modalidades, como o futebol, é evidente. Adora junk food: é habitual comer no McDonald’s antes das corridas.

E depois há as mulheres: na noite em que venceu a medalha de ouro, em Londres, não foi para o quarto dormir, isso foi o que fez Yohan Blake e é o que faria a maioria dos atletas. Em vez disso, organizou um pequeno convívio com três jogadoras da equipa de andebol da Suécia. Em certa medida, Bolt é um anarquista. Não gosta que lhe imponham nada. Na noite de 5 de Agosto de 2012, queixou-se aos jornalistas das normas pouco flexíveis da organização londrina: “Meu Deus, há tantas regras! Queria ter trazido o meu tablet mas não me deixaram. Perguntei porquê e disseram-me que é uma regra. Tinha a minha corda de saltar no saco e proibiram-me de entrar com ela. Porquê? São pequenas regras que não fazem nenhum sentido”.Gerir a rebeldia natural de Usain Bolt foi um factor-chave para o tornar quase imbatível. Quando, aos 18 anos, começou a ser treinado pelo jamaicano Glen Mills, já tinha um currículo impressionante: campeão mundial júnior dos 200 m (o mais jovem de sempre, com apenas 15 anos), recordista nacional da distância e atleta olímpico (em Atenas 2004, não conseguiu apurar-se para a final). Mas o que lhe sobrava em força e talento faltava-lhe em técnica e disciplina.

Numa entrevista ao jornal francês ‘L’Équipe’, Mills, de 63 anos, afirmou: “Não sou mau a entrar na cabeça dos atletas. Trato-os como filhos. Se eles erram, explico-lhes porque não devem voltar a fazê-lo. Numa primeira fase, deixei-o expor as suas aspirações; depois tracei um caminho para lá chegarmos”.Naquela época, Bolt tinha uma mecânica pobre. Corria atrás do seu centro de equilíbrio. A sua posição corporal exercia pressão sobre a parte inferior das costas, prejudicando-lhe o desempenho. A primeira tarefa foi, por isso, fazer com que corresse com a parte superior do corpo em sintonia com o seu centro de gravidade, que é acima dos restantes atletas – com 1,96 m, é o mais alto do circuito internacional. Foram necessárias centenas de sessões de treino, seguidas de longas jornadas de visionamento de vídeos das suas corridas em câmara lenta. Objectivo: era preciso que Bolt compreendesse o que estava a fazer mal. Mills desenhava-lhe diagramas com a posição que queria que ele alcançasse
nas várias fases da prova.