A estabilidade da banca angolana e a atractividade do mercado financeiro nacional continuam a servir de excelentes alternativas às políticas de crescimento e superação dos efeitos da crise económica e financeira mundial que afecta, de um tempo a esta parte, o exercício da banca na Europa, particularmente em Portugal.

De acordo as notas de balanço, enviadas pelas administrações dos bancos à Comissão de Mercados de Valores Mobiliários (CMVM), os bancos Totta do grupo Santander, Millennium do grupo BCP e o BFA do grupo BPI, em Angola, participaram de forma activa para a superação das expectativas nos resultados líquidos apresentados pelas instituições portuguesas em relação ao exercício de 2009.

Mesmo sem apresentarem de forma detalhada os números financeiros obtidos pelas congéneres angolanas, nas suas declarações, as administrações dos bancos portugueses continuam a apostar forte na actividade da banca angolana, pela sua margem de crescimento, e fraca exposição aos produtos de risco, muito afectados pela crise imobiliária que marcou as finanças mundiais no ano passado.

Santander-Totta

O banco liderado por Nuno Amado lucrou 523,3 milhões de euros no ano passado. A subida da margem financeira ajudou a manter os resultados.

Durante a apresentação dos resultados, o presidente do grupo Santander Totta, Nuno Amado, referiu-se a recuperação mesmo que tímida dos resultados do banco, se comparado aos obtidos em 2008.

"Se definirmos o actual enquadramento numa só frase, diríamos que apresenta sintomas de melhora mas com uma incerteza muito grande", disse.

Nuno Amado considera que o actual momento, vivido nos mercados internacionais, com um provável aumento do custo do ‘funding' a prazo, não é mais do que um segundo impacto de uma mesma nova realidade, ou seja, do novo mundo em que vive o banco, desde que rebentou a crise financeira.

De acordo com ele, neste novo mundo, em que a sua instituição já assistiu a duas mudanças, ao Santander Totta foi possível apresentar resultados, em 2009, de 523,3 milhões de euros, apenas 1,1% acima do lucro de 2008. A subida de 5,9% na margem financeira foi contrariada pela queda de 2,4% nas comissões. E a mais-valia extraordinária de 28,1 milhões de euros com a venda de parte do Banco Totta Angola foi integralmente utilizada para reforçar balanço. Contando com essa mais-valia, o banco reforçou provisões em 109,9 milhões de euros.

O Totta é, assim, a instituição a apresentar a menor subida de resultados, de entre as instituições que divulgaram já os seus números de 2009. Apesar disso, registou o maior resultado, ainda que "taco a taco" com o BES, que lucrou 522,1 milhões. A verdade é que algumas subidas mais "vistosas" de outros bancos reflectem o facto de, em 2008, BPI, BES e BCP terem sofrido os efeitos da queda das bolsas nas suas carteiras de participações, ao contrário do Totta, que não possui essa exposição. A evolução em 2009 reflecte, por isso, a melhoria dos mercados no ano que passou.

BCP-Millennium

Numa outra nota publicada, o BCP continua a ser o banco menos rentável do sector, mas os números do último trimestre deixaram antever uma recuperação para 2010.

O banco apresentou, à semana passada, os seus resultados anuais de 225 milhões de euros, uma subida de 12% face a 2008.

Embora apresente ainda sinais da fragilidade, sobretudo ao nível da rentabilidade, o Return on Equity (ROE) continua nos 4,6% (ligeiramente melhor do que em 2008), mas ainda assim um rácio baixo. Este é um banco que sofreu, no último ano, alguns reveses que podem justificar a má performance dos indicadores ao longo de 2009. À cabeça está a crise financeira, que atingiu o BCP como todos os bancos do sistema, mas o ano foi conturbado também por outros motivos, com o polaco Millennium Bank a ser muito afectado pela desvalorização do zloty, que aliou-se ao fraco desempenho interno, após a associação da sua imagem devido ao envolvimento do vice-presidente do banco no caso Face Oculta.

Foi diante destes cenários conturbados que a administração do banco apostou forte na actividade do grupo em mercados com excelentes margens de crescimento e fraca exposição aos riscos. Angola representa, deste modo, uma alternativa viável aos objectivos do BCP, para reverter a tendência de perda das receitas que veio a sofrer.

Grupo BPI

O BPI acaba de revelar que obteve um lucro líquido consolidado de 175 milhões de euros em 2009, o que corresponde a um crescimento de 16,5 face ao ano de 2008.

O resultado superou as estimativas dos analistas que estimavam uma subida dos lucros em 13,4%.

O lucro líquido por acção (Basic EPS) ascendeu a 0,196 euro, o que corresponde a um aumento de 9,8% relativamente ao do ano anterior (0,178 euro).

No seu comunicado enviado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), o banco revela ainda que o produto bancário diminuiu 1,4%.

Já o resultado operacional cresceu 1,2% relativamente ao resultado reportado em 2008 e 11,4% face a 2008.

A actividade doméstica de banca comercial contribuiu com 85,7 milhões de euros para o lucro líquido consolidado de 2009 e a respectiva rentabilidade do capital próprio médio ascendeu a 5,0%. A actividade de banca de investimento contribuiu com 1,0 milhões de euros (ROE de 3,7%), enquanto o contributo das participações financeiras foi negativo em 1,2 milhões de euros.

A actividade internacional, pelo seu lado, contribuiu com 89,6 milhões de euros, sendo que, com a venda de uma participação minoritária em Dezembro de 2008, a apropriação do lucro do BFA pelo BPI baixou de 100% para 50,1%. A rentabilidade do capital próprio médio afecto à actividade internacional situou-se em 39,5% em 2009.

A carteira de crédito a Clientes na actividade doméstica cresceu 2,1% (mais 613 milhões de euros), em termos homólogos. A carteira de crédito à habitação cresceu 3,0% (mais 349 milhões de euros) e o crédito a empresas, institucionais e «Project Finance» cresceu 1,1% (mais 139 milhões de euros), enquanto o crédito a empresários e negócios registou uma diminuição homóloga de 2,6% (menos 68 milhões de euros).

Bancos lucram 4 milhões de euros por dia em 2009

Santander Totta, BCP, BES e BPI tiveram em 2009 um balão de oxigénio. O lucro dos quatro maiores bancos privados aumentou 14% face a 2008. Ainda assim, estas instituições não puderam respirar, totalmente, de alívio. As contas estão ainda longe da rentabilidade desejável, com os indicadores operacionais a mostrar estabilização. O balanço da actividade permite identificar o recuo da margem financeira, aumento do malparado e reforço das provisões. Em compensação, os bancos recuperaram comissões, melhoraram fortemente os resultados de ‘trading', controlaram custos e pagaram menos impostos.

No conjunto, os quatro maiores bancos privados registaram um crescimento médio de 14% nos lucros para mais de 1.445 milhões de euros em 2009, o que compara com os cerca de 1.272 milhões em 2008. Feitas as contas, as quatro instituições ganharam o equivalente a quase 4 milhões por dia.