Os números mensais da Bolsa de Dívida de Angola demonstram uma plataforma atractiva, sobretudo aos bancos, que são os Membros subscritores, na rentabilização dos capitais aplicados em Títulos e Obrigações. Na entrevista que concedeu ao JEF, o administrador Odair Costa, responde de forma directa e incisiva aos questionamentos mais comuns das pessoas que se vêem como que coarctadas de comprar papéis do Estado e rentabilizar as suas economias neste segmento do mercado secundário não bancário.

Que leitura se pode fazer ao facto de nos meses de Outubro e Novembro o Mercado de Títulos ter gerado negócios estimados em aproximados kz 76,9 mil milhões em Outubro e 42,02 mil milhões em 25 dias do mês de Novembro?
Em virtude da maior parte dos investidores na BODIVA serem instituições financeiras bancárias, a interpretação que se pode fazer do abrandamento verificado nas transacções em Mercado Secundário, na comparação dos meses em apreço, teve como factor principal, as deliberações resultantes da reunião extraordinária do Comité de Política Monetária (CPM) no dia 23 de Outubro de 2019. Neste contexto elencamos as seguintes notas:
• Ajuste de 17 por cento para 22 do coeficiente de reservas obrigatórias para a moeda nacional:Face à medida deliberada pelo CPM, de modo a reduzir a massa monetária,as instituições financeiras bancárias tiveram que redefinir as suas estratégias em termos de disponibilidades de investimento em Títulos de Dívida Pública de modo a cumprirem com o ajuste efectuado pelo BNA, tendo em conta a liquidez disponível;
• Remoção da margem de 2,0 por cento sobre a taxa de câmbio de referência, praticada pelos bancos comerciais na comercialização de moeda estrangeira no mercado interbancário e os seus clientes: Verificou-se que a medida deliberada pelo CPM, de modo que a taxa de câmbio flutue livremente até encontrar um ponto de equilíbrio em relação ao mercado informal, acabou por tornar o mercado cambial mais apetecível para as instituições financeiras bancárias em relação ao investimento em Títulos de Dívida Pública;

A opção pelas maturidades de 2020, em maioria, significa menos atractividade pelos títulos de médio e longo prazos em detrimento dos de curto prazos?
Existe uma relação entre a maturidade e a sensibilidade do preço em virtude do risco da taxa de rendimento do título. Neste contexto, a opção pelas maturidades de 2020 demonstra efectivamente uma preferência dos investidores em títulos de curto prazo em função do actual cenário macroeconómico do país. Não obstante a isto, pode-se auferir que a opção verificada de investimento no curto prazo, resulte em grande parte de dois factores:
• A estratégia de mitigação de risco cambial por parte dos investidores (Bancos e Empresas);
• A gestão do fluxo de caixa por parte das empresas.

Isso quer dizer que no próximo ano o Estado já terá de efectivar vários reembolsos?
Em conformidade com a previsão do Orçamento Geral do Estado para o exercício de 2020, o qual prevê uma despesa de 32.25 por cento, na rubrica de operações de Dívida Pública Interna referente à despesa por funções, acredita-se que o Emitente Estado irá implementar as políticas necessárias para o pagamento das respectivas dívidas referentes ao investimento em Títulos de Dívida Pública na data de vencimento dos respectivos títulos.

Normalmente, a tendência é de reinvestir ou levantamento?
Não obstante o nosso mercado de capitais ser híbrido em termos de variáveis objectivas, capazes de permitir auferir a estratégia geral dos Membros BODIVA e dos investidores, a BODIVA efectuou um estudo onde chegou-se à conclusão da existência de uma correlação entre o nível de resgates (levantamentos) e o reinvestimento. Deste modo, constatou-se que a tendência verificada tem sido o reinvestimento. No entanto, acredita-se que no passado a estratégia de reinvestimento muito deveu-se à existência de poucas alternativas de investimentos, mas agora acredita-se que com as alterações a nível da política cambial (que tem provado ser bastante rentável para os Bancos) e o programa de privatizações, podem ser caracterizados como factores que poderão concorrer directamente com os reinvestimentos nos Títulos de Dívida Pública;

Como se processam os juros nestas operações?
Quando estamos a abordar acerca de instrumentos de Dívida Pública transaccionados actualmente nos Mercados Regulamentados geridos pela BODIVA, importa elencar o seguinte:
• Bilhetes do Tesouro (BT): São valores mobiliários de curto prazo com um valor nominal de kz 1000,00, podendo ser emitidos com as maturidades de 91, 182 e até 364 dias, colocados a desconto através de leilão de preços e são reembolsáveis na data de vencimento pelo seu valor nominal.
• Obrigações do Tesouro (OT): constituem instrumentos de dívida de médio e longo prazos com valor unitário a partir de kz 100.000,00, emitidos em leilão de preços ou de quantidade. Nesta tipologia de títulos do tesouro os cupões (juros) são pagos semestralmente e na data de vencimento o investidor recebe o último cupão e o capital investido líquido de impostos.

O facto de alguns poucos bancos dominarem a maior parte dos negócios da Bodiva não faz com que tais operações estejam a ser vistas como que a favorecer uns em detrimento de outros?
O nível de profundidade dos negócios da BODIVA, depende em grande parte dos Membros mais activos, não obstante a isto, tratando-se de um Mercado Regulamentado, não existem membros privilegiados no que diz respeito à informação do mercado. Dar nota que a performance dos Membros BODIVA, depende em grande parte da estratégia definida pelos mesmos relativamente à sua actuação e como poderão tirar o melhor proveito das negociações em mercado secundário.

Em que condições os bancos concorrem nas emissões de Títulos disponíveis?
Em caso de emissões de Títulos do Tesouro no mercado primário, os Bancos concorrem como Dealers Primários e nesta condição os mesmos têm autorização para licitarem nos leilões de Dívida Pública de Títulos do Tesouro, inserindo livremente as suas propostas.

As pessoas ainda continuam com dificuldade de adquirir títulos junto dos bancos de domicílio?
Constatou-se que, as pessoas ainda têm uma certa dificuldade em concretizar o investimento em títulos de dívida pública de uma forma célere. Neste aspecto, a BODIVA e os seus membros têm trabalhado no sentido de disponibilizar mais e melhor informação através do seu site e nas agências bancárias. Neste aspecto, importa realçar que, a BODIVA disponibiliza através do web site (www.bodiva.ao), a lista de contactos das salas de Mercados dos Membros, a qual tem contribuído para maior facilidade na obtenção de informação por parte dos investidores. Fruto deste trabalho, tem se constatado cada vez mais uma tendência na diminuição de constrangimentos identificados pelos investidores relativamente aos Títulos de Dívida Pública. Outrossim, verifica-se que com a entrada em vigor no dia 02/07/2019 do Portal do Investidor, tem garantido actualmente uma maior acessibilidade aos investidores particulares adquirirem os títulos directamente no mercado primário.

só vantagens
ao investidor

O investimento em TT não deve ser visto como uma forma também de partilhar riquezas e rendimentos entre instituições, privados e particulares?
O investimento em TT, apresenta as seguintes vantagens:
•  Risco de incumprimento muito reduzido ou quase nulo.
• Possibilidade de diversificar o portfólio de investimentos com base no perfil de cada investidor;
• O rendimento da aplicação em títulos públicos é bastante competitivo se comparado com as outras aplicações financeiras de renda fixa existentes no mercado nacional;
• Podem ser utilizados como garantia ou colateral em operações de crédito.
Neste contexto, em conformidade com as vantagens elencadas o investimento em títulos do tesouro apresenta-se como uma forma de partilhar a riqueza e o rendimento entre os agentes económicos, na medida em que irá permitir que os agentes excedentários e deficitários, consigam satisfazer as suas intenções e consequentemente diversificarem a sua fonte de geração de riqueza.