A falta de combustíveis que se registou em toda a extensão do país desde sexta-feira (3) parece ter chegado ao fim. Após cerca de cinco dias de imensos transtornos, eis que os cidadãos podem respirar de alívio visto que os postos de abastecimento começaram já a receber os derivados do petróleo em quantidades suficientes para atender a demanda. Filas extensas e tempo excessivo de espera, que em muitos casos atingiu as 12 horas, parece terem ficado para a história. Para além do comum automobilista, a escassez afectou o sector empresarial, com unidades fabris a reduzirem o volume de produção, pois que grande parte do maquinário é movido por combustível. Os transportes públicos ressentiram igualmente da ocorrência, com as paragens de autocarros e táxis a registarem consideráveis enchentes. Nas unidades laborais era visível o reduzido número de trabalhadores, pois que muitos consumiram o tempo reservado ao labor nas imensas filas e outros foram forçados a galgar largos quilómetros a pé por força da falta de transporte.


Huíla
Dezenas de empreendedores industriais da província da Huíla, estão agastados com a constante falta de gasóleo e gasolina por embaraçar a actividade produtiva das empresas, cujos prejuízos já são preocupantes.
Catarino Anacleto, proprietário duma empresa de prestação de serviços na área de design e estampagem de camisolas, bonés e outros, considera o mês de Maio como improdutivo devido a falha constante de corrente eléctrica da rede pública e a inexistência de alternativas em função da carência de combustíveis. “Caso a situação não seja resolvida com certa brevidade, o melhor será encerrar as portas” disse.
O comerciante Antunes Cazenge, fornecedor de carne bovina, caprina e suína, descreve a situação como lamentável por não haver necessidade do país parar por falta de combustíveis . “Há situações que devem ser acauteladas, tais como o gasóleo e a gasolina”. Informou que foi forçado a suspender toda actividade comercial por lidar com produtos perecíveis. “Sem energia é impossível manter funcional um sistema de frio, por isso é melhor deixar os animais vivos até que haja solução desta lamentável situação”. Segundo a fonte, o abastecimento nas bombas é feito de forma limitada de modo a que se possa contemplar o maior número de pessoas e empresas possível. “Esta prática insatisfaz as necessidades das empresas cujo sistema alternativo de energia consome acima de 100 litros de gasóleo por dia” disse.

Cabinda
Após duas semanas de escassez de combustíveis nas principais bombas, a província de Cabinda voltou a receber a gasolina e gasóleo apesar de uma redução na ordem dos 60 por cento. Ao contrário dos 30 a 60 mil litros habituais e e em função da capacidade dos depósitos, as bombas estão hoje a receber entre 17 a 20 mil litros do produto, situação que se estende às bombas que se situam nos municípios de Belize, Buco-Zau e do Cacongo. Numa ronda efectuada aos principais postos de abastecimento, a reportagem do JE apurou junto de automobilistas e revendedores que a situação vai de forma paulatina voltando à normalidade. O automobilista Joaquim Quimino, de 40 anos, disse que a escassez está a criar muitos constrangimentos às populações, principalmente para os automobilistas que dependem das suas viaturas para exercer a actividade de táxi e assim levar pão para casa, “ Não conseguimos entender uma província que produz petróleo a passar por isso” disse.

Huambo
A escassez de derivados do petróleo em todo país e que na província do Huambo já dura há uma semana e meia alterou significativamente a vida de muitas famílias que viram os preços dos transportes públicos subirem na ordem dos 70 por cento.
Até ao final da tarde de quarta feira (8), mais de duas mil e quinhentas motorizadas estavam fora de circulação por escassez de gasolina, o que condicionou os serviços de moto-táxis e concomitantemente o aumento de preços. O número de viaturas que prestam serviço de táxi e que foram forçadas a estacionar atingiu a cifra de 850, ao passo que viaturas particulares estiveram perto de cinco centenas.
ouvidos pelo JE, cidadãos que residem no Huambo, Bailundo e Caála, são unânimes em afirmar que a falta de gasolina está a causar transtornos consideráveis as suas vidas, sendo que muitos deles são forçados a recorrer ao mercado informal, onde adquirem o litro de gasolina ao preço de 450 Kwanzas.
No Bailundo, a escassez faz com que os cidadãos tenham que se deslocar quase 90 kilómetros entre a vila sede e a cidade do Huambo.
Jacinto Nunda, que exerce a actividade de táxi, lamentou o momento menos bom para a sua actividade, mas espera do Executivo acções concretas e precisas para que a situação se inverta até ao final de semana. “ temos que acreditar na governação e nas politicas traçadas. mas é necessário que os políticos do país comecem a prover melhor os programas de governação, principalmente no que diz respeito ao fornecimento do combustível”,disse.


as assimetrias regionais esvaíram-se no cheiro a combustível

O eco de desespero veio das províncias. Matérias publicadas pelo JE vindas dos nossos correspondentes já davam mostras que algo de anormal se estava a passar com o combustível. Uma página de reportagem de Mbanza Congo, publicada na última edição dava conta da escassez do produto, estando lá a ser comercializado por kz 500.00 o litro.
De outras cidades o grito de socorro repetia o drama de Mbanza Congo. Mas, rapidamente, qual efeito dominó, a crise do combustível se estendeu pelo país e não poupou Luanda. Segunda-feira, dia 6, de manhã cedo, qual não foi o espanto: a Capital acordou com filas quilométricas de viaturas nas bombas de combustíveis.
O que se estava a passar? Terão se perguntado todos aqueles que foram apanhados de chofre. A acumulação de bidões sobretudo em mãos de “aproveitadores da situação” encerrava o sentimento de que estávamos perante uma situação anormal.
E assim foi durante estes dias todos. Nas redes sociais surgiram os desabafos: liam-se comentários que espelhavam o momento de frustração de utentes de viaturas, motorizadas e não só. Histórias de pessoas que ficavam mais de 5 horas para abastecer o depósito da viatura ou encher o recipiente de 20 litros para o gerador, já que em muitas zonas de Luanda a questão da falta de luz eléctrica e do “apagão” constante ainda é um facto.
Uma realidade que nos remeteu há um tempo mais ou menos semelhante, em que muitos optavam por abastecer as viaturas, ou seja, comprar combustível à madrugada. Houve quem tivesse sido apanhado em viagens pelo país adentro. Por exemplo, Carlos Silva, saía de Benguela para Luanda quando deu “frente a frente” com a crise do combustível. O que tinha de gasolina ajudou-lhe a chegar a Porto Amboim. Por uma unha negra interromperia a sua trajectória cansativa. Mas encontrou combustível nesta cidade de mar, peixe e marisco. Suportou uma enorme “fila”. Com certeza que condicionou a sua chegada a Luanda à hora programada. Claro que se quer que situações do género não voltem a acontecer e que esta termine já. Texto: Alberto Quiluta