A elevada escassez de cambiais, particularmente o dólar namibiano e o rand sul-africano, que se verifica nos últimos dias no mercado do Cunene, fruto da medida do Governo de retirada da rua dos vendedores de moeda estrangeira, está a causar sérios problemas à vida dos habitantes da província, que no quotidiano encontram a satisfação das suas necessidades na vizinha República da Namíbia.
Tido como o destino obrigatório da população residente na cidade de Ondjiva e vilas de Santa Clara, Namacunde e Xangongo, onde buscam quase tudo, desde assistência médica e medicamentosa, bens alimentares, vestuário, artigos do lar, entre outros, muitos cidadãos começaram a ver-se privados de se deslocar à vizinha Namíbia devido à falta de fontes onde possam adquirir a moeda.
Amilton Moreira aplaudem a medida do Executivo que ordena a retirada dos vendedores de moeda estrangeira das ruas, pois veio dar melhor imagem às vilas e cidades, mas considera que devia ser mais assertiva se, antes disso, fossem criadas as condições que pudessem facilitar o acesso as cambiais, como por exemplo a disponibilidade nas casas de câmbio e bancos comerciais.
“É muito fácil notar que nós, que habitamos em Ondjiva, Santa Clara ou Namacunde, dependemos da Namíbia pelo fluxo de pessoas na fronteira que todos os dias entram e saem com compras às mãos e outras que se deslocam aos hospitais daquele país, e que devem se fazer acompanhar sempre de dólares namibianos para o pagamento das consultas e a compra de medicamentos receitados”, explica.
Anastácio Kevela, residente de Santa Clara, entende que ao tomar a medida de banir a venda de divisas nas ruas o Governo devia ter em conta a população fronteiriça, no caso particular do Cunene que tira quase tudo em Oshikango, Oshakati e outros pontos da Namíbia, adoptando um mecanismo de acesso à moeda estrangeira.

Kínguilas atendem por encomenda

Na visita a alguns pontos de venda informal de moeda estrangeira em Ondjiva notou-se a ausência das “kínguilas”. A mesma imagem é vista em Santa Clara, onde o cenário de aglomerados de jovens com quantidades de notas nas mãos a chamarem pelos clientes deixou de se verificar. Observa-se mais fluidez de pessoas, fruto da operação “Resgate” iniciada recentemente em todo o país.
Hoje, só consegue moeda estrangeira quem possui o contacto de “kínguilas” e o negocio é feito em cantos, devido à desconfiança e o medo de serem detidos, tanto o vendedor como o comprador, conta Odília Ndapewa, uma residente de Ondjiva, que constantemente se desloca à Namíbia para controlo, devido uma situação de saúde.
Odília disse que já procurou contactar um dos bancos comerciais em Ondjiva para um possível acesso às cambiais através de cartão de crédito, mas foi condicionada por uma série de requisitos, como bilhete de passagem de voo para o país de destino, visto no passaporte se necessário, compra no mínimo de dois mil euros, além dos motivos da viagem que devem ser de doença, serviço e outros.
“Isto quer dizer que para termos divisas devemos viajar obrigatoriamente para Windhoek de voo e termos mais de 800 mil kwanzas nas nossas contas bancárias para termos os dois mil euros exigidos, quando o nosso objectivo é ir ao outro lado próximo da fronteira comprar um medicamento numa farmácia ou algo alimentar ou artigos para as nossas casas”, disse.
Nos últimos dias a compra do dólar namibiano que se tornou um negócio às escondidas, subiu de 2.500 para 2.800 kwanzas a nota de cem. DC