A queda das bolsas está a ser sobretudo motivada pelos receios de que Portugal possa vir a não conseguir sair do programa de ajustamento em Junho de 2014, tal como planeado, e que venha a precisar de um segundo resgate. Os juros da dívida a 10 anos superaram ontem os 8 por cento, ao fixarem-se em 8,106, o que intensificou as perdas nos mercados accionistas, já que este patamar não era ultrapassado desde Novembro.

Com efeito, a demissão na segunda-feira de Víctor Gaspar – o “arquitecto da austeridade”, como lhe chamou o “Financial Times” – e o pedido inesperado de demissão feito há dias por Paulo Portas, do partido de coligação no Governo, foram suficientes para deixar os investidores em sobressalto, reacendendo-se os receios de que a crise da dívida na Zona Euro esteja a agudizar-se, sublinha a Bloomberg.

A praça lisboeta segue a perder 5,48 por cento, com o PSI-20 nos 5.227,42 pontos. O volume de negociação é superior em mais de seis vezes à média de 30 dias. Já a bolsa madrilena cede perto de 3 por cento e as restantes bolsas da Europa Ocidental negoceiam, em média, com quedas superiores a 1,5. O “El País” refere que a principal causa para as descidas de ontem do Ibex 35 está no clima político português. Isto num dia em que a banca europeia está também a ser fortemente penalizada pelo corte de notação de alguns bancos por parte das agências de rating Standard & Poor’s e da Moody’s.

A ser penalizado está também o euro, que negoceia actualmente no nível mais baixo de cinco semanas face à divisa norte-americana, nos 1,2958 dólares. Face à divisa nipónica, a moeda única está no valor mais fraco das últimas duas semanas, fixando-se nos 129,3 ienes.

“O euro está a ser arrastado pelas notícias que chegam de Portugal”, comentou à Bloomberg um estratega cambial do Royal Bank of Scotland, Paul Robson, lembrando que historicamente os mercados têm penalizado as moedas dos países onde reinam preocupações de ordem política.

“A crise política em Portugal demonstra claramente um cansaço da austeridade”, sublinhou por seu lado um economista do Berenberg Bank, Holder Schmieding, num relatório hoje publicado. “Se Portugal se desviar decisivamente da política de ‘amor duro’ em matéria de austeridade e de reformas, isso poderá constituir um grande problema. Flexibilizar demasiadamente as condições do resgate poderá convidar outros países a não se esmerarem tanto nos seus esforços de ajustamento. No entanto, se as condições do ‘bailout’ não forem aliviadas, isso também aumenta o risco de incumprimento de Portugal”, acrescentou.

Na opinião de David Madden, analista de mercado na IG, pode-se estar perante uma nova crise estival. “Parece que podemos estar a caminho de mais uma crise de Verão na Zona Euro, numa altura em que o Governo de Portugal se desmorona e os juros da dívida disparam”, comentou à Associated Press.

Quem ganha com todas estas quedas hoje é o petróleo. A matéria-prima está a ser sustentada pelo renovar de tensões políticas no Egipto, pela perspectiva de uma queda das reservas norte-americanas de crude na semana passada e pelos dissabores das bolsas, que estão a desviar os investidores para outros activos. O “ouro negro” negoceia assim acima dos 100 dólares nos mercados londrino e nova-iorquino. Nos EUA, o crude de referência (WTI) não superava a fasquia dos três dígitos desde Maio passado.