A captura do peixe em Luanda baixou consideravelmente nesta época do ano, factor que está a reflectir-se no aumento do preço do alimento. A exiguidade do peixe no mercado é atribuída, alegadamente, às calemas e pouca aderência dos armadores na actividade. Um grupo de armadores, na praia da Mabunda, no distrito urbano da Samba, em Luanda, destaca que a insuficiência e o custo alto do peixe, deriva do excesso de chuva e calemas, característica própria dos meses de Janeiro à Março. Germano Franco, funcionário da capitania, disse que durante vários anos as embarcações “piratas” dedicaram-se a captura de peixe ilegalmente. “Eventualmente levaram peixe em estado de crescimento e como consequência agora há pouco peixe”, revelou. Apesar de algumas pessoas alegarem que a escassez de peixe está ligada a apreensão de licenças, considera uma “mentira” porque neste momento aqui na capitania da Samba, estamos a passar licenças de navegação, por aquilo que sabemos não há retenção de licenças de pesca. “Os próprios armadores têm este receio do tempo e houve muita pesca sem respaldo legal, o que de certo modo terá contribuído para o desaparecimento de muito peixe no mar angolano. É preciso mais fiscalização nas zonas de pesca”, disse. Alves Castro proprietário de uma pequena embarcação, teme pôr o seu barco, teme a chuva e o perigo de fazê-lo nesta época”. “Agora aqui o nosso mar nem tem peixe, e temos que atingir a zona do Soyo para conseguir pescar. Há pouco peixe neste tempo”. Disputa O cenário é desolador a disputa pelo peixe no mercado da Mabunda é grande. Há gente a comprar peixe para consumir, um outro grande grupo para revender. Pessoas vindas de muitos pontos de Luanda encontram no mercado a solução do problema. Mas parece que nem todos têm o problema resolvido o mercado da Mabunda está literalmente às “moscas”. As 173 bancadas estão sem vendedores, apenas dois armadores atracaram terça-feira (12)com peixe, e as poucas quantidades foram compradas em pouco tempo pelos revendedores na sua maioria mulheres. O espaço completou um ano no mês de Fevereiro, desde que foi inaugurado para melhorar a sanidade. Rendeu nos tempos da “bonança” acima de 2 milhões por mês resultante da comparticipação dos feirantes. O relógio marcava 9 horas e 40 minutos, há pouco movimento comercial, o contrário, era notado à beira da praia, fora do recinto. A disputa é renhida para se conseguir peixe. Por cinco peixes da espécie “lambula”, o interessado paga 200 kwanzas, numa altura em que três carapaus custam mil kwanzas, três cachuchos mil kwanzas, o preço varia em função da qualidade. Uma situação díspare à praça adjacente, onde o interessado paga metade do preço. João Maria estava a comprar peixe no recinto adjacente à praça, onde o cheiro nauseabundo de cinco em cinco minutos era intenso. Apesar de apresentar peixe “graúdo” a condição sanitária não facilita. Na mesma condição está Fernanda Marta proprietária de um estabelecimento comercial, que tem como eleição o mercado para comprar e caprichar o prato do seu estabelecimento. Quando uns ganham a vida a vender, um grupo de jovens escama peixe como meio de sustento, por cinco peixes angaria 300 kwanzas. Alípio Bernardo vive em Viana, mas é na praia da Mabunda onde encontra a sua sobrevivência. Por dia chega a facturar cerca de 2 mil kwanzas. “Há vezes em que não consigo levar quase nada para casa. Eu sou escamador e por dia posso conseguir 2 mil kwanzas”, contou. “Há dias que nem chego a facturar sequer 300 kwanzas”. Na mesma condição está Manuel Adelino Vasco, que tira rendimento escamando peixe para sustentar uma família de três pessoas lá no “bairro Mundial” (Benfica). Há também centenas de marinheiros que estão no desenrasque para sobreviver nos dias que correm. A mudança pode tardar em acontecer. Rainha da pesca Conhecida por dona Mabunda, a “rainha” da pesca, começou a pescar quando tinha apenas 16 anos. Agora com 76, considera que é preciso prestar mais atenção na pesca e valorizar a “economia azul”. Alega que “não há peixe e o mar está com as calemas acima da média, porque já não se cumprem os costumes e tradições antigas para acalmar as calemas”, frisa. Depois de ter adquirido no passado 14 barcos de pesca, destruídos em circunstâncias desconhecidas, a empreendedora solicita que as autoridades possam pelo menos lhe atribuir um barco de pesca, como reconhecimento do trabalho prestado ao serviço da economia nacional, criando vários postos de trabalho. “ Não quero barquito eu tinha barcos de verdade, por isso quero que as autoridades me entreguem um barco para pescar”, alega. Os representantes da associação de pescadores de Luanda, contactados pelo JE, desmarcaram a entrevista alegadamente por indisponibilidade de tempo. O mesmo aconteceu com o ministério das pescas.