É nos principais mercados e armazéns de Luanda que a sua actividade ganha maior notoriedade. O raiar do sol representa o início da jornada. Cada um aperta na velocidade da marcha visando conquistar lugar privilegiado no ponto de concentração. Os “roboteiros”, como são chamados, fazem parte do dia-a-dia dos angolanos. No ofício, a arte do carpinteiro ganha valor e garante vida e saúde a muita gente. Os carrinhos de mão feitos à base de madeira e suportados pelos funcionais pneus de automóveis, representam a ferramenta de trabalho dessa classe de operários (se assim se pode chamar). Quando por volta das oito horas da manhã a afluência de clientes e vendedores começa a ganhar corpo nos mercados e armazéns, é altura de colocar a habilidade e instinto caçador em prática. Começa a dura tarefa de conquistar a preferência dos clientes.
A prática diária e o nível de exigências cada vez maior dos clientes, obrigaram a que os “roboteiros” desenvolvessem habilidades no domínio da negociação de preços a favor dos clientes e se esforçassem por dominar os roteiros para os vários pontos de destino de quem procura pelos seus serviços. As áreas dos frescos, verduras, produtos da cesta básica, frutas entre outras, são de inteiro conhecimento dos roboteiros. Os preços do dia fazem igualmente parte da tabela de conhecimentos do braçal. Os preços são discutíveis, havendo mesmo casos em que a definição do valor a pagar fica a cargo do cliente. A qualidade do serviço prestado, define invariavelmente o volume do valor adicional a oferecer e a criação de parceria futura entre roboteiro e cliente. Provenientes na sua maioria do sul de Angola, buscam Luanda na esperança de oportunidade de emprego e uma vida melhor. É nos mercados do Asa Branca, São Paulo, Kikolo, Congolenses , Km 30 e nos variadíssimos armazéns espalhados por Luanda que encontram palco para a sua actuação.
Empurrando os famosos cangulos (denominação na língua tradicional nganguela que significa carro de mão ), não medem esforços e lançam-se com o máximo de energia para alcançar as metas traçadas. O preço da corrida varia entre os 200 e os mil kwanzas a depender da distância percorrida. Nos dias de boa safra, chegam a amealhar 4 mil kwanzas.
Proveniente do município da Humpata na província da Huíla, Manuel Sapalo que tem 28 anos de idade, quatro dos quais dedicados ao ofício de “roboteiro”, diz ter eleito a província de Luanda como local para melhorar as condições de vida e ajudar a família. “Tenho mulher e filhos lá na Humpata. Consegui construir a minha casa de dois quartos, sala, cozinha, wc, e também consigo ajudar os meus pais. Agora o meu objectivo é comprar bois e cabritos para a criação”, afirma.
O expediente acontece de segunda a sábado, restando o dia de domingo como único para o repouso necessário.
Jaime Manuel, natural da província de Malanje, admite que vir a Luanda foi um escape para entrar no mercado de trabalho. Desempregado na sua terra natal, Jaime Manuel deslocou-se a Luanda incentivado por amigos que já se encontravam enquadrados e familiarizados com a dinâmica da capital do país. Hoje, ganha a vida no mercado de São Paulo, o que lhe permite suprir necessidades familiares. Para habitação, em parceria com dois amigos, alugou um quarto no distrito do Sambizanga, pagando uma renda mensal de cinco mil kwanzas divididos por três. “A casa fica nas imediações do mercado e facilita o nosso trabalho” salienta. A sua actividade estende-se ao apoio solicitado pelos comerciantes para a reposição de produtos. O final do dia, representa outro período de intensa actividade para os roboteiros, visto ser altura de movimentar toda a mercadoria não vendida no dia para os espaços de deposição, também chamados de casas de processo.
“Tenho as minhas clientes habituais e sou eu posso transportar as mercadorias delas. Quando chega mercadoria para os armazéns, temos que descarregar os camiões, o que é um trabalho mais forçado porque levamos a mercadoria nas costas, mas o valor é sempre muito bom” realçou Francisco Cassinda, natural da província do Huambo. Os conflitos decorrentes das relações humanas também marcam presença na actividade diária dos roboteiros, sendo que neste particular as desavenças surgem maioritariamente em função da busca pelo melhor local para marcar posição. O ofício não parece ter os dias contados pelo que muitos roboteiros se reformarão e outros nascerão no mercado definindo assim o ciclo desta actividade.