São oito horas da manhã de quarta-feira (24). Estamos imersos no dia-dia do mercado “kifica”, no municipio de Belas, em Luanda. Nem a “chuva miúda” travou a nossa marcha. À nossa volta verifica-se a descarga, compra e venda de produtos diversos. Há muita gente envolvida no negócio de bens alimentares, material de construção e roupa.
Frutas e electrodomésticos fazem parte do “forte” do mercado Kifica, que bem gerido representa uma verdadeira “mina de diamante”. De todos os lados, as transacções são visíveis.
O passeio do mercado foi cedido à pessoas interessadas para explorar. Rentabilizar é o objectivo. Cerca de 35 bancadas e quiosques estão perfilados cada um vendendo o que lhe convém.
O custo para a ocupação do espaço, pago à administração anterior, foi de  50 mil kwanzas, por cada 4 metros do espaço. E pagam em média diária uma quota de 250 kwanzas que inclui os custos com a limpeza e asseguramento do espaço. O acesso a energia eléctrica no interior é de 500 kwanzas.
Contas feitas, com as unidades de comércio, os gestores do mercado arrecadaram na época da venda dos espaços um milhão 750 kwanzas ao que se soma a taxa diaria de 250 kwanzas. Este exercício serve apenas para exemplificar o processo. Com uma contabilidade mais apurada e abrangendo todas áreas, a receita é de longe superior!
Há ainda no exterior uma feira avícola que recebe ao todo 50 vendedoras. Pagam por dia a mesma taxa de 250 kwanzas. Excluindo as multas que lhes são aplicadas no registo de uma infracção.
Contentores transformados em armazéns completam o cenário exterior. A taxa a pagar diariamente é de 800 kwanzas. Percorremos o mercado de lês-a-lês, constatamos que afinal, o kifica nunca teve “travessia de deserto”. Há sim dinheiro suficiente para facturar. A máxima de que os mercados rendem “é facto real, só não alcançado por força da má gestão”, afirma o nosso guia.

Interior
Depois de longas horas no exterior, a entrada no  “El dourado” é inevitável. A organização chama-nos a atenção: No corredor da principal entrada, o vestuário está de um lado e do outro roupa de cama, colchões , material escolar e outros bens. Há regras do negócio a cumprir, literalmente.
 “Não há monopólio na venda”. Por exemplo, Yolanda Zangi vende roupa de cama, mosquiteiros e Raúl Isaac está virado para o negócio do material escolar. Nenhuma outra pessoa pode interferir na sua actividade.
Yolanda e Raúl pagam por semana 1.200 kwanzas e na condição deles estão outras cerca de 60 pessoas contabilizadas, equivalente a igual número de bancadas. Só com estas, semanalmente, a administração factura 72 mil kwanzas. Contas para se ter uma noção do rendimento. É obra!
“Nós aqui vendendo ou não temos a obrigação de pagar este valor. Foi o que nos propusemos. Só que quando começamos pagávamos 500 kwanzas”, desabafou Raúl Isaac.
A gestão passada do mercado é comparada a um “furacão financeiro”, facturava e não melhorou nada. A nova gestão já começa a ter louvores. Dá exemplo das casas de banho que além, de melhoradas viram o preço do uso baixar 50 por cento em relação aos 50 kwanzas cobrados anteriormente.
Berta Cavoio, vende  roupa usada (fardo) e mesmo sem facturar paga semanalmente à administração  750 kwanzas. “Vendendo ou não pago este valor”, disse.
Fernando Carlos também vive deste negócio, não revela a facturação diaria, más o valor a pagar:  750 kwanzas. Na condição dele estão outras 70 pessoas, semanalmente, a gerência do mercado arrecada muito dinheiro mas a factura dos encargos com a limpeza  ainda é alta.
Na área alimentar as cozinheiras, também pagam 250 kwanzas o mesmo valor para quem vende gindungo ou frutas.
O negócio de material de construção envolve centenas de pessoas. Pacientemente, da segunda entrada até a ponta podemos contabilizar 40 bancadas, as quais  se juntam outras centenas no interior do mercado. O preço a pagar semanal ou por dia depende da extensão.
Por exemplo, por uma extensão de 12 metros de bancada o vendedor recebe do fiscal uma cobrança de 800 kwanzas, dali para baixo 600, 400, kwanzas. O mercado kifica é mesmo aliciante. Mas até o fim do ano económico há dinheiro. São 820 pessoas que praticam  ali a actividade comercial.
Denúncia
Um jovem identificado por Márcio diz que paga às quotas todas, porém lamenta a actuação de alguns fiscais que recebem material a crédito e aproveitam-se da função e nunca pagam.
O JE, pode apurar no local que os fiscais e trabalhadores do mercado não recebem salário há oito meses, resultante da gestão passada. Contam que, com a nova gestão já receberam o salário de Dezembro.
Contas feitas com a factura mínima que é de 250/dia, em média o mercado factura aproximadamente 212.500 kz por dia. Tendo em base este mesmo valor o mercado mensalmente factura aproximadamente 6.375.000 kwanzas por mês.

O mercado em renovação   
Em entrevista ao JE, Matias Batalha chefe da secretária do mercado que entrou em funções a 15 de Novembro do ano passado. Revela que o problema salarial em atraso é responsabilidade da antiga gestão. E já está em curso o pagamento de salários de janeiro, depois de ter pago o Dezembro.
A nova gestão herdou um passivo grande. Parar nem pensar! O mercado está em renovação e criou um gabinete de contabilidade.  Há inclusive mecanismos para sancionar aqueles que fogem ao pagamento das quotas.
Bastante comunicativo defende que há que valorizar o local e assim “colher” mais.Reforçar o saneamento, a fiscalização, criar condições higiénicas estão na mira.
Lamenta que há vendedores que passam semanas e não pagam as suas obrigações, estando em curso medidas para banir está prática.
Como o segredo é arma do negócio, descartou revelar as quantidades oficiais  que são registadas diariamente no mercado.
Assim vai o mercado! Afirma que o mercado nunca será o mesmo face a dinâmica em curso.