O ministro da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e Pescas, Afonso Pedro Canga, representou Angola num encontro entre o Brasil e os países africanos, realizado na capital administrativa e política brasileira, Brasília, de 10 a 12 de Maio, e que teve como pano de fundo uma reflexão profunda sobre a estratégia de combate à fome e pobreza.

A decisão de se realizar um encontro virado para questões relacionadas à produção de alimentos, que reunisse as nações africanas e o Brasil, foi tomada durante a cimeira da União Africana, realizada na Líbia, no ano passado, e confirmada durante a cimeira da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) sobre segurança alimentar e nutricional, em Roma, no final de 2009.

O Diálogo África-Brasil, que decorreu de segunda a quinta-feira da semana passada na capital brasileira, foi aberto pelo presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e contou com a presença do director-geral da FAO, Jacques Diouf, da directora-executiva do Programa Alimentar Mundial (PAM), Josette Sheeran, além de cerca de 50 ministros e representantes de governos de outros países africanos.

Da programação do Diálogo África-Brasil constou a inauguração de um novo centro de pesquisas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) - a Embrapa Estudos Estratégicos e Capacitação em Agricultura Tropical. A instituição anunciou a realização dos seus primeiros cursos, abertos à participação de especialistas angolanos.

O presidente brasileiro, Lula da Silva, anunciou, também, a abertura, até ao final deste ano, da Universidade Luso-Afro-Brasileira, que terá sede na província brasileira do Ceará, na região nordeste do país, com vagas asseguradas para estudantes angolanos, entre outros.

Troca de conhecimentos

O avanço da tecnologia brasileira no sector agrícola, por meio de instituições reconhecidas internacionalmente, como a Embrapa e uma rede de escolas agrícolas que vai desde a universidade até ao ensino técnico, projectou o país na liderança de diversos segmentos de produção rural.

O Brasil destaca-se como um grande exportador de vários produtos do agro-negócio, como a soja, o sumo de laranja, a celulose, além de carne bovina e de frango, entre outros. Este cenário de crescimento económico estimula as lideranças brasileiras a estenderem a sua rede de influência de potência emergente aos países africanos, em parcerias com Angola e com as demais nações lusófonas do continente.

A estratégia dar-se-á, entre outras acções, pelo intercâmbio de conhecimentos e de experiências em políticas públicas para a agricultura familiar, assistência técnica, extensão rural, seguro agrícola, abastecimento alimentar, garantia de renda para os produtores rurais, mercados institucionais, crédito, acesso à terra, além de modelos bem sucedidos de associativismo, cooperativismo e pesquisa e tecnologias agrícolas.

O Diálogo África-Brasil sobre segurança alimentar, combate à fome e desenvolvimento rural contou com a presença do próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de todos os seus ministros das áreas agrícolas do governo, além de representantes do Banco Mundial e de organizações privadas e não-governamentais da África e do Brasil.

A parceria do Brasil com os países africanos visa o desenvolvimento de um ambiente de cooperação que pretende gerar apoio às estratégias nacionais e regionais de desenvolvimento para o fortalecimento da segurança alimentar, a melhores condições de vida no campo e a reais resultados no combate à fome, com preservação ambiental.

Embrapa

Um dos elementos emblemáticos desta nova geopolítica foi a inauguração, com a presença dos ministros dos países africanos convidados, da Embrapa Estudos Estratégicos e Capacitação em Agricultura Tropical, oportunidade em que o presidente brasileiro salientou que “o Brasil tem o dever histórico de cooperar para que os países da África consigam desenvolver a sua agricultura e alcancem um padrão mínimo de segurança alimentar”.

Lula aproveitou, também, para criticar os subsídios agrícolas oferecidos pelos países ricos aos seus produtores e afirmou que as acções de combate à fome mundial devem ser coordenadas entre governos locais e a cooperação internacional.

"Imaginar que a lógica do livre mercado, que arruinou o sistema financeiro internacional, possa conduzir a bom termo a segurança alimentar do planeta seria repetir, no enfrentamento deste desafio, os mesmo erros que originaram a eclosão da maior crise desde 1929", disse o presidente do Brasil no seu discurso.

Para Lula, a Embrapa tem "o dever de repassar os seus conhecimentos aos países em desenvolvimento e, também, aos africanos” e lembrou que, na última década, o Brasil passou do sexto lugar entre os maiores exportadores de alimentos do mundo para o terceiro, atrás apenas dos Estados Unidos e da União Europeia e acima do Canadá.

Resta saber, agora, se os ministros africanos que participaram de intensos quatro dias de trabalho na capital brasileira, saíram encantados com um canto de sereia, ou saberão extrair as vantagens competitivas oferecidas pelos brasileiros, em benefício dos interesses de cada uma das nações africanas.

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