Bulawayo, a capital económica do Zimbabwe, voltou a ser palco de um dos maiores eventos africanos de turismo intercontinental, a Feira Internacional de Turismo Sanganai/Hlanganani, que se apressa a ser um dos primeiros êxitos do continente em negócios do sector, se na África do Sul persistirem os actos xenófobos protagonizados por nacionais contra os estrangeiros.
No total, foram 170 os operadores, agências de viagens e prestadores de serviços participantes. Pelo menos 260 expositores de 20 países partilharam experiências e trocaram informações sobre o sector do turismo. O “Be to Be”, uma espécie de frente-a-frente entre prestadores de serviços e fornecedores do sector de turismo, tem sido a grande referência da Sanganai/Hlanganani, no qual e numa única sala todos os participantes se cruzam e conversam sobre oportunidades de negócios e turísticas de cada envolvido.
Diferente daquilo que nos acostumamos com as cerimónias de inauguração de eventos em Angola, a Feira Internacional de Turismo Sanganai/Hlanganani, organizada pela Agência de Turismo do Zimbabwe (ZTA), começa de forma informal, ao compasso da montagem de stands. A cerimónia oficial de abertura pode acontecer num determinado dia e momento, com realce para o início da noite.
Na Sanganai, os feirantes fazem a sua exibição com base em 11 categorias, como participação estrangeira, acomodação, restauração, operadores e agentes de viagens, rent-a-car e transportadoras, companhias aéreas, associações publicitárias, associações e organizações não-governamentais, fornecedores de serviços, ministérios e media.
Operadores do turismo angolano, entre agentes de viagens e promotores turísticos, liderados pelo Instituto de Fomento Turístico de Angola (Infotur) e pela Embaixada de Angola, estiveram em Bulawayo, na capital económica do Zimbabwe, para mostrar o que de bom tem o país, visando trazer mais turistas ao território nacional.
As maiores atracções que a delegação angolana apresentou foram a dança tradicional e os palhaços da cultura Lunda Tcokwe. O stand de Angola teve o privilégio de ser visitado pela ministra zimbabueana da Juventude, Cultura e Desportos, Kirsty Coventry, e pelo secretário
de Estado do Turismo.
O representante do Infotur na Sanganai, Gaspar Barreto, do Departamento de Desenvolvimento de Produtos e Destinos Turísticos, garantiu que a presença de Angola nesse evento reveste-se de grande importância, por permitir ao incipiente turismo angolano ganhar as melhores práticas sobre o modelo de turismo que os países vizinhos aplicam, visando a atracção de um bom número de estrangeiros.
Gaspar Barreto disse também, que o evento foi aproveitado para o reforço da cooperação com algumas instituições ligadas ao sector turístico do Zimbabwe e para colocar os operadores angolanos em ligação directa com os demais promotores da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), com o intuito de se implementar pacotes regionais combinados.
A Agência do Turismo do Zimbabwe foi informalmente convidada a participar na Bolsa Internacional de Turismo de Angola (Bitur 2020), a decorrer em Luanda. Na Sanganai, o Infotur registou com agrado o interesse de vários países investirem em Angola, não só no sector do turismo, como na
agricultura e indústria têxtil.
O embaixador angolano no Zimbabwe, Agostinho Tavares, considerou a participação de Angola na 12ª edição da Feira Internacional de Turismo como uma oportunidade para a troca de experiência e de atracção de investidores. Segundo o diplomata, a sua prioridade, enquanto embaixador, será o alargamento das relações e a cooperação nos domínios da agricultura, turismo, recursos minerais, educação, defesa e segurança.

Países da SADC podem aproveitar melhor o xenofobismo sul-africano

A antever o revês que a África do Sul pode sofrer com a queda na entrada de turistas, não deixa de ser evidente que o turismo na África Subsaariana venha a estar estritamente concentrada em países como Angola, Botsuana, Moçambique, Namíbia, Zâmbia, Zimbabwe e Tanzânia, com realce para os cinco membros do Projecto Okavango-Zambeze.
O Zimbabwe apresenta-se com maiores vantagens, não só pelo grande pacote de ofertas turísticas que asseguram regiões como Bulawayo, Harare e Victoria Falls, mas pelo facto de o Governo atribuir quase três milhões de dólares à Autoridade de Turismo do Zimbabwe (ZTA), para que esta “comercialize suficientemente o país”. Alguns actores do turismo do país clamam por 1,00 por cento do OGE para o sector, por admitirem que “o turismo é uma das soluções para o problema de moeda estrangeira no país”.
Depois da África do Sul, que destina milhões de dólares para diversas viagens financiadas pelo próprio Governo, raros são os governos de países da SADC que disponibilizam fundo próprio para a promoção internacional do turismo. Só por isso e apesar do xenofobismo lactente, não dá para se falar do sector sem mencionar esse país famoso em beleza natural e com incríveis alternativas para agradar qualquer viajante.
O incontestável apoio financeiro directo dos governos sul-africano e zimbabueano faz com que os respectivos países sejam fortes receptores e potentes centros de atracção turística da SADC, já que o encaixe permite à SAT e ZTA transportar milhares de pessoas, essencialmente operadores de turismo e media, para os potenciais centros de lazer, em viagens conhecidas por “Fam Trip”.
Na verdade, nisso Angola perde em quase todos os sentidos, ainda que o discurso do Presidente da República pende para um novo quadro na promoção do país em todos os eventos internacionais, ao mesmo tempo que o território se abre ao exterior, a “passo de camaleão”.
O OGE ainda não destina, de forma específica, um valor para quem tem o dever de vender o país, o Instituto de Fomento Turístico de Angola. Além disso, a burocracia na concessão de vistos atrapalha, ainda mais o processo, ao mesmo tempo que tal constitui um desincentivo à entrada de divisa.
São muitos, os operadores do turismo que se mostram agastados com essa tendência oferecida ao espaço turístico angolano. Um espanhol que muito leva turistas para os diversos locais da região, garantiu que, além do problema de vistos, há outro maior, relacionado com a incapacidade de os bancos devolverem divisas a um turista que tenha kwanzas a restar, depois de este terminar o seu passeio pelo território.
Colocado o xenofobismo sul-africano, os operadores angolanos acham que chegou o momento de se mudarem as regras no xadrez de vistos e divisas, para permitir que quem tem dinheiro visite Angola sem necessidade de arcar com custos elevados de visto. Agora só compete ao Governo aproveitar as oportunidades que se abrem e que são colocadas no mercado pelos tradicionais países receptores de turistas, principalmente com a previsível perda de turistas por parte da África do Sul.