O Fórum Económico Mundial, que arrancou esta terça-feira, 17, termina hoje em Davos, na Suíça. O evento reúne todos os anos nos alpes suíços mais de 3.000 participantes, entre empresários, líderes políticos, ONG e personalidades da sociedade civil. Este ano o tema central são as desigualdades económicas e tem a China como convidado de honra.
A agenda do evento conta com diversas conferências de imprensa, entre as quais uma dedicada à parceria para inovações no combate a epidemias, na qual participa o comissário europeu para a Ciência, Carlos Moedas. Este tópico foi ainda objecto de um painel próprio de discussão em que foi orador o fundador da Microsoft, Bill Gates.
Um tema da actualidade e que é sustentado no relatório publicado, esta segunda-feira, pela ONG britânica Oxfam. De acordo com o documento, nos últimos cinco anos, os rendimentos médios anuais recuaram 2,4 por cento ou seja menos 284 dólares por habitante. Ainda segundo o relatório as oito pessoas mais ricas do mundo concentram mais dinheiro do que a metade mais pobre da população mundial – 3,6 mil
milhões de pessoas.
Neste desequilíbrio de forças a Oxfam aponta o dedo às multinacionais “há um crescimento a nível mundial, mas é muito exclusivo e beneficia uma ínfima parte da população”, sublinha Max Lawson, conselheiro político da organização.
Oxfam denuncia igualmente as pressões sobre os salários, os benefícios fiscais atribuídas pelos Estados e ainda os paraísos fiscais: “Muitos, muitos multimilionários quase não pagam impostos, utilizam os paraísos fiscais para esconderem o dinheiro. Temos uma situação em que os multimilionários pagam proporcionalmente menos impostos que as empregadas de limpeza ou as secretárias que empregam. É uma loucura. Assistimos à canalização da riqueza para cima”, concluiu.
Em Davos, os patrões das multinacionais não se mostram indiferentes a esta problemática. A prová-lo está o estudo do gabinete Price Watherhouse Cooper que publica a visão dos empresários sobre a evolução do clima de negócios à escala mundial e para os próximos meses. Entre as principais preocupações dos empresários está o aumento da instabilidade social nos últimos três anos e 44 por cento dos inquiridos reconhece que a globalização não contribuiu para reduzir as desigualdades entre ricos e pobres.

Diferentes perspectivas
Mas Davos, à semelhança de anteriores edições, procura também dar palco a vozes de fora da economia e da política, para estimular o debate a partir de diferentes perspectivas. Este ano estão no Fórum Económico Mundial o actor norte-americano Matt Damon, na qualidade de fundador da organização Water.org, o chefe britânico Jamie Oliver e a cantora colombiana Shakira.
Entretanto, a intervenção do Presidente chinês, Xi Jinping, no Fórum Económico Mundial esteve repleta de críticas a Donald Trump, sem nunca citar o seu nome.
“Num mundo marcado por grandes incertezas e pela volatilidade, esse mundo lança o olhar para a China”, declarou Klaus Schwab, o fundador do Fórum Económico Mundial de Davos, ao apresentar o presidente Xi Jinping, que proferiu a conferência inaugural da 47.ª edição dos encontros.
Na primeira vez que um presidente chinês participou no Fórum, Xi Jinping teve uma mensagem clara e directa à altura das expectativas enunciadas pelo responsável dos encontros ao apresentar o dirigente máximo do regime de Pequim. No final da intervenção de cerca de 60 minutos, o antigo chefe de Governo sueco Carl Bildt escreveu no Twitter: “Há um vazio na liderança económica global e Xi Jinping pretende preencher esse vazio.
E está a ter algum sucesso”.
Para o presidente do Banco Europeu de Investimento, Werner Hoyer, as palavras de Xi foram “notáveis”; um discurso “diferente do habitual”, disse à Reuters Ian Bremmer, que dirige a consultora de risco Eurasia Group.
Sem nunca o citar pelo nome, Xi dirigiu uma série de críticas ao Presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump. “Ninguém sairá vencedor de uma guerra comercial”, afirmou para definir a seguir os perigos do protecionismo: as pessoas “fecham-se a si próprias num quarto escuro” à espera de protegerem-se dos perigos. O vento e a chuva ficam lá fora, mas também a luz e o oxigénio”. E, à maneira de um pedagogo explicou que “é verdade que a globalização económica criou novos problemas, mas isto não justifica, de modo algum, pôr de parte a globalização económica”.
Palavras com destinatário óbvio: Donald Trump. O Presidente eleito prometeu denunciar ou renegociar acordos multilaterais de comércio e prometeu criar taxas alfandegárias para desincentivar as importações e proteger a produção nacional.
O dirigente chinês, que falava perante uma plateia onde, além da sua mulher, Peng Liyuan, estava o Vice-Presidente dos EUA, Joe Biden, recorreu às palavras usadas por Abraham Lincoln no célebre discurso de Gettysburg para defender o direito de todos ao desenvolvimento, que “não pode ser visto como propriedade de um só país” - “o desenvolvimento é do povo, pelo povo e para o povo”, disse. Recorrendo a metáforas capitalistas e provérbios chineses, Xi apresentou a China como um modelo de país “totalmente aberto” ao comércio livre. “Sabemos demasiadamente bem que não há almoços grátis no mundo e que as tartes não caem do céu”. Em 2016, segundo o FMI, a China contribuiu em 39 por cento para o crescimento
da economia mundial.
Xi garantiu que não irá recorrer à desvalorização da moeda nacional, o renminbi, para incentivar as exportações e apelou aos signatários do acordo de Paris sobre o clima para honrarem os compromissos assumidos.
Mais uma vez, o destinatário destas palavras só podia ser um: Trump. No passado, o novo Presidente dos EUA, que toma posse sexta-feira (no mesmo dia em que finda a reunião de Davos), acusou Pequim de recorrer à manipulação do renminbi para criar vantagens injustas para as suas exportações e declarou ter a intenção de desvincular-se do acordo de Paris.